Família Adams, da maior produtora de ovos dos EUA, lucrou US$ 320 milhões antes de investigação

A família Adams, descendente do fundador da Cal-Maine Foods, uma das maiores produtoras de ovos dos Estados Unidos, lucrou US$ 320 milhões com a venda da participação majoritária na companhia em abril de 2025, semanas antes de o Departamento de Justiça americano notificar a empresa sobre uma investigação antitruste.

A operação ocorreu perto do pico histórico das ações da Cal-Maine, no mesmo período em que promotores agora alegam ter havido esforço coordenado de anos para inflar o preço dos ovos no país.

A venda foi conduzida pelo Goldman Sachs em 15 de abril de 2025, um dia após a família converter suas ações classe A, com direito a voto múltiplo, em ações ordinárias.

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Foram quase 3 milhões de ações vendidas a US$ 92,75 cada. A Cal-Maine também recomprou da família outras 551,8 mil ações por cerca de US$ 50 milhões, usando um novo programa de recompra de US$ 500 milhões anunciado poucas semanas antes.

De acordo com apuração do Financial Times, a transação representou um resgate parcial em dinheiro pela família Adams, que detinha e administrava a Cal-Maine há quase sete décadas.

Os membros da família mantiveram ações após a operação, e Adolphus “Dolph” Baker, genro do falecido fundador Fred R. Adams Jr., permaneceu como presidente do conselho. Baker foi um dos acionistas vendedores na transação.

Valorização

O contexto temporal é o ponto mais delicado do caso. As ações da Cal-Maine praticamente dobraram entre junho de 2022 e março de 2025, saindo de cerca de US$ 45 para US$ 95.

No mesmo período, o preço dos ovos grandes de categoria A quadruplicou, chegando a mais de US$ 8,50 a dúzia em fevereiro de 2025. A cotação recuou para cerca de US$ 2,19 em maio deste ano, e hoje o atacado de ovos grandes brancos em Nova York está em US$ 0,65 a dúzia, segundo o Federal Reserve de St. Louis.

A alta virou pauta política e alimentou reclamações sobre a chamada crise no preço dos alimentos que assolou os EUA no fim da administração Joe Biden e no início do segundo mandato de Donald Trump.

Em março de 2025, o Departamento de Justiça enviou intimação para investigação civil contra a Cal-Maine, no âmbito de uma apuração antitruste sobre o setor. A Cal-Maine divulgou o recebimento apenas em 8 de abril de 2025, em relatório trimestral, uma semana antes da conversão de ações e da venda pela família.

O mecanismo

Uma denúncia apresentada em 29 de junho pelo Departamento de Justiça e por 17 procuradores-gerais estaduais, na Corte Federal Distrital de Iowa, acusa a Cal-Maine, a Hickman’s Egg Ranch e a Versova de coordenarem, entre junho de 2022 e março de 2025, para inflar artificialmente as cotações diárias da Urner Barry Publications, empresa de inteligência de mercado que publica o índice de referência mais usado no setor.

O mecanismo é sofisticado. A Urner Barry monitora transações no pequeno mercado à vista de ovos, especialmente na chamada Egg Clearinghouse, uma espécie de câmara de negociação onde os produtores fazem lances para comprar ovos entre si.

Esse mercado representa apenas cerca de 10% do total de ovos vendidos nos EUA, mas os preços observados nele servem de referência para os contratos que definem o preço dos outros 90%, vendidos a supermercados, restaurantes e serviços de alimentação. Bilhões de ovos são precificados anualmente com base nas cotações da Urner Barry.

Segundo os promotores, as três empresas coordenaram cinco práticas para inflar o índice: fazer grande número de lances de compra, colocar múltiplas empresas licitando ao mesmo tempo para simular demanda diversa, concentrar os lances nas horas anteriores à publicação da cotação, fazer ofertas que provavelmente não seriam concretizadas, e executar negócios com preços premium para deixar “evidências” para a Urner Barry.

Acordo

Nos termos do acordo proposto e anunciado em 30 de junho, sem admissão de culpa, a Cal-Maine, a Versova e a Hickman’s concordaram em pagar US$ 3,3 milhões, no total, ao conjunto dos 17 estados participantes e doar 53 milhões de ovos para bancos de alimentos.

As empresas também se comprometeram a interromper a comunicação com concorrentes sobre licitações, preços ou transações que visem influenciar publicações de referência, e a adotar programas de compliance antitruste com oficiais dedicados por cinco anos. O acordo ainda precisa ser aprovado pelo tribunal.

A Cal-Maine paga US$ 1,5 milhão, a Hickman’s paga US$ 1 milhão e a Versova paga US$ 800 mil. Um valor considerado pequeno diante dos ganhos alegados: só a Cal-Maine viu o lucro líquido saltar para US$ 1,2 bilhão no ano fiscal encerrado em maio de 2025, contra US$ 277,9 milhões no ano anterior.

A receita líquida da empresa foi de US$ 4,3 bilhões, praticamente o dobro dos US$ 2,3 bilhões do ano fiscal de 2024. A Cal-Maine pagou US$ 330 milhões em dividendos no ano fiscal de 2025 e US$ 252 milhões no ano fiscal de 2023.

A Cal-Maine, a Versova e a brasileira Mantiqueira (dona da Hickman’s) negaram irregularidades e atribuíram os preços elevados a fatores como surto de gripe aviária, pandemia de covid-19, inflação e outras dinâmicas de mercado. A Cal-Maine e os membros das famílias Adams e Baker não responderam aos pedidos de comentários feitos pelo Financial Times.

Fonte: Invest News

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