A Ambev começou o ano de 2026 tentando mostrar ao mercado que ainda há espaço para crescer em cerveja no Brasil, mas com uma fórmula diferente daquela que marcou os anos recentes de maior expansão de volume entre 2020 e 2023.
Depois de um período de foco em inovação, avanço de plataformas digitais e reconexão das marcas com o consumidor, a companhia voltou a acionar uma marca conhecida sua e da escola 3G: a disciplina quase obsessiva com eficiência, custos e alocação de recursos.
Segundo a empresa, esse modelo chega repaginado: não se trata de frear inovação mas de financiar melhor as apostas que podem sustentar uma nova etapa de crescimento.
O primeiro trimestre deu respaldo a essa leitura. No segmento de “Cerveja Brasil”, a Ambev reportou alta de 1,2% no volume na base anual, que atingiu um novo recorde para o período, segundo a companhia. A receita líquida da unidade cresceu 9,6%, enquanto o Ebitda ajustado avançou 7,6%.
O desempenho veio acima do que parte do mercado esperava: o Santander projetava retração de 5% no volume de cerveja da companhia frente ao mesmo período de 2025.
No resultado consolidado, a receita líquida orgânica da Ambev subiu 8,1% e o Ebitda ajustado orgânico cresceu 10,1%, com margem de 33,6%.
A controladora AB InBev também teve trimestre positivo, com alta anual de 5,8% na receita, para US$ 15,27 bilhões, lucro líquido ajustado de US$ 1,92 bilhão e aumento orgânico de 0,8% no volume total.
O resultado, por outro lado, não apaga a pressão dos últimos anos.
O mercado brasileiro de cerveja passou por estagnação entre 2024 e 2025, depois de um ciclo atípico de crescimento durante e logo após a pandemia.
A própria Heineken, segunda maior cervejaria do país, informou queda de um dígito baixo no volume de cerveja no Brasil no primeiro trimestre, em um mercado ainda fraco nas vendas ao consumidor final e impactado por um período de Carnaval mais curto. A receita líquida, porém, cresceu em um dígito médio, apoiada em avanço de um dígito alto em preço e mix.
Na leitura do CFO da Ambev, Guilherme Fleury, o primeiro passo foi evitar uma reação automática à queda da indústria. A empresa reforçou a área de inteligência de mercado, revisitou seus modelos e tentou separar o que era efeito conjuntural — como clima e menor frequência em ocasiões fora de casa — do que poderia indicar mudança estrutural no consumo de cerveja.
“Pular para conclusões é um esporte perigoso. Normalmente, você erra”, diz Fleury.
A conclusão foi que parte relevante da pressão de 2025 vinha de fatores conjunturais. O clima afetou drivers como happy hour, churrasco, praia e piscina, mas, segundo Fleury, o consumidor recorrente da categoria não havia se desconectado da bebida na mesma proporção.
Eficiência volta ao centro
Essa leitura levou a Ambev a retomar práticas mais associadas à sua cultura original. A empresa revisou despesas, simplificou processos, reduziu a quantidade de produtos à venda nas cervejarias e passou a olhar com mais rigor para contratos de distribuição e linhas de custo.
“A Ambev sempre teve uma escola forte de custo e eficiência. Esse músculo voltou a ser mais exercitado”, diz Fleury.
No primeiro trimestre, as despesas comerciais, administrativas e gerais, excluindo depreciação e amortização, cresceram 4,8% em bases orgânicas, abaixo da expansão da receita. O fluxo de caixa operacional chegou a R$ 3,16 bilhões, alta de 162,5% sobre o mesmo período do ano anterior.
“O ano seria duro, então tivemos que olhar todas as linhas, todos os investimentos e decidir onde fazia sentido colocar dinheiro e onde dava para simplificar”, diz.
Inovação com lugar na mesa
A volta da eficiência, porém, não significa retorno ao passado.
O exemplo mais recente é a Skol Zero Zero, lançada no início do ano. A cerveja sem álcool foi desenvolvida no Brasil e levou cerca de dois anos e meio entre testes, protótipos e ajustes, segundo a companhia. O produto tenta levar a tendência de bebidas sem álcool e de baixa caloria para o segmento core, e não apenas para marcas premium.
No primeiro trimestre, as categorias ligadas a essa agenda cresceram acima do portfólio tradicional. Em Cerveja Brasil, premium e super premium — marcas de maior valor agregado — avançaram em volume na casa dos 20% baixos.
O segmento de “balanced choices”, com opções associadas a moderação, baixa caloria e sem álcool, cresceu na casa dos 70% baixos, com Stella Pure Gold e Michelob Ultra mais que dobrando de volume. Já cervejas sem álcool cresceram na casa dos 10% baixos, puxadas por Corona Cero e Skol Zero Zero.
Ao mesmo tempo, o portfólio que inclui core e value — marcas de maior escala e preço mais acessível — ainda recuou um dígito baixo no trimestre, mas houve melhora sequencial e ganho estimado de participação de mercado na comparação anual.
Novas portas de entrada para a Ambev
A aposta em Michelob Ultra entra nessa lógica. A marca americana já vinha crescendo no Brasil, mas ainda sem o mesmo peso que tem em mercados como Estados Unidos e Canadá. Em 2026, a Ambev pretende acelerar sua ativação, inclusive no contexto da Copa do Mundo.
A ideia é capturar um consumidor que não necessariamente busca a cerveja tradicional de sempre. Esse movimento também explica a expansão de bebidas como Flying Fish, uma cerveja saborizada que veio da África do Sul, e Brutal Fruit, drink pronto que deve ganhar novos sabores.
Fleury evita tratar isso como ameaça simples. Para ele, o desafio é ampliar a porta de entrada da categoria e evitar uma disputa apenas por participação de mercado.
“Se for só disputa de share, vira uma briga de soma zero. O desafio é aumentar a porta da categoria”, diz.
Zé Delivery como laboratório
Na tentativa de entender como são as novas ocasiões de consumo, o Zé Delivery ganhou um papel que vai além da entrega. A plataforma virou uma fonte de dados para testar produtos, medir aceitação, calibrar promoções e entender hábitos de consumidores mais jovens.
Segundo a Ambev, o Zé Delivery já representa um dígito médio dos volumes de cerveja no Brasil. Cerca de 80% de sua base é composta por consumidores da Geração Z e Millennials. No lançamento da Skol Zero Zero, o Zé – como é chamado internamente – funcionou como hub de inovação, e quase 90% dos consumidores reportaram percepção de marca neutra ou melhor após provar o produto.
“O Zé Delivery é o nosso pé no futuro”, diz Fleury. “Quando alguém diz que a Geração Z não consome, conseguimos olhar os dados e ver exatamente o que ela consome.”
A lógica também vale para o BEES, plataforma digital usada pela Ambev para vender a bares, restaurantes e varejistas. A venda bruta do marketplace do BEES cresceu 59% no trimestre, impulsionada pela expansão de parcerias com terceiros.
Copa, o teste de fogo
A Copa do Mundo será um grande teste dessa combinação de eficiência, inovação e portfólio mais amplo. A ativação pela AB InBev, que é uma das patrocinadoras oficiais do maior evento esportivo do mundo em audiência, não deve ficar concentrada em uma única marca.
A Ambev pretende usar o portfólio para falar com diferentes consumidores e ocasiões: Budweiser, Michelob Ultra, Flying Fish, Skol Zero Zero e outras marcas podem ocupar papéis distintos nessa estratégia.
O risco é que a recuperação ainda é parcial. O segmento core segue pressionado, o consumidor continua sensível a preço e o clima pode afetar uma categoria muito dependente de ocasiões de consumo. Mas o primeiro trimestre dá à companhia uma base melhor para defender a tese de que 2025 foi um ano de ajuste — e não necessariamente o início de uma deterioração estrutural.
Fonte: Invest News












