Turbi busca aval de debenturistas para evitar vencimento antecipado de dívida

Bloomberg Línea — A Turbi busca aval de debenturistas para evitar o vencimento antecipado de parte de sua dívida, após a startup de aluguel de carros descumprir o prazo para o pagamento de juros de um de seus títulos no fim de abril.

A empresa sediada em São Paulo convocou os titulares de suas debêntures da 12ª emissão para uma assembleia no dia 1º de junho, em busca de autorização para dispensar o vencimento antecipado, segundo edital de convocação registrado na CVM na noite de sexta-feira (22).

A 12ª emissão, realizada em agosto de 2025, é de debêntures conversíveis em ações, da espécie quirografária (sem garantia real) e foi estruturada com remuneração de CDI mais 8% ao ano.

De acordo com as demonstrações financeiras do primeiro trimestre, publicadas em 15 de maio, o saldo da 12ª emissão era de R$ 34,8 milhões ao final de março.

A empresa perdeu o prazo para o pagamento de juros que venceram em 26 de abril, segundo os documentos.

Procurada pela reportagem, a Turbi não respondeu aos pedidos de comentários feitos fora do horário comercial.

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A inadimplência da empresa ocorre em um momento financeiro delicado. No primeiro trimestre de 2026, a Turbi registrou prejuízo líquido de R$ 19,5 milhões – 54% maior do que no mesmo período do ano anterior.

A despesa financeira trimestral chegou a R$ 48,4 milhões, mais da metade da receita operacional líquida de R$ 90,2 milhões. O caixa consolidado era de R$ 18,9 milhões em março, contra uma dívida bruta total de R$ 837,6 milhões.

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A KPMG, auditora independente da companhia, incluiu em seu relatório do trimestre uma ênfase de incerteza material sobre a continuidade operacional. “Esses eventos e condições indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional da Companhia”, escreveu a KPMG.

Nas notas explicativas, a administração da Turbi afirmou que estima que “os recursos provenientes da venda dos veículos, somados à geração de caixa operacional vinda do aluguel desses ativos, serão suficientes para suportar as amortizações previstas”.

Na carta que acompanha o balanço, a empresa destacou resultados operacionais positivos: margem Ebitda do segmento de aluguel de carros de 60,5% no trimestre, avanço de 9,3 pontos percentuais sobre o mesmo período do ano anterior, e o lançamento da Trato, fintech de financiamento veicular do grupo. “O 1T26 consolida a trajetória de alavancagem operacional da Turbi”, escreveu o CEO Daniel Prado.

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Em março, a Turbi já havia convocado uma assembleia de titulares da 7ª emissão de notas comerciais para obter a dispensa do descumprimento do Índice de Cobertura de Juros — métrica contratual que mede a relação entre Ebitda e despesas financeiras e que deveria ser de ao menos 1x —, violado desde janeiro de 2026. Os titulares aprovaram o waiver por unanimidade.

O balanço do primeiro trimestre mostra que o lucro operacional antes do resultado financeiro foi de R$ 23,9 milhões no consolidado, contra despesas financeiras de R$ 48,4 milhões no mesmo período.

A empresa disse ter identificado o descumprimento de covenants em outros contratos de dívida em abril, sem especificar, e informou que iniciaria “tratativas formais junto às instituições credoras e agentes fiduciários para a obtenção de waivers e a repactuação de cláusulas”, segundo as demonstrações financeiras do primeiro trimestre, publicadas em 15 de maio.

Dias antes de deixar de pagar os juros da 12ª emissão, o conselho de administração da Turbi aprovou uma nova captação da 13ª emissão de debêntures, neste caso com garantia real, no valor de até R$ 265 milhões. Em 30 de abril, R$ 85 milhões foram integralizados. Os recursos, segundo fato relevante publicado pela empresa, serão usados exclusivamente para comprar veículos novos.

A Turbi opera no modelo de aluguel de carros por horas, com uma frota de cerca de 6.500 veículos. Em setembro de 2025, a empresa dizia contar com cerca de 300 estacionamentos em São Paulo e cidades próximas, como Guarulhos, Osasco e região do ABC.

No primeiro trimestre de 2026, a receita de locação somou R$ 60,5 milhões no consolidado. A empresa também vende os veículos da frota após cerca de 25.000 a 30.000 quilômetros rodados, vertical que respondeu por cerca de 31% da receita líquida no primeiro trimestre de 2026.

A Turbi recorreu ao mercado de dívida em ritmo acelerado para financiar sua expansão. Desde 2018, a empresa realizou 13 emissões. Em outubro de 2025, uma captação de R$ 156 milhões foi ancorada pelo Itaú Unibanco. Na época, executivos da empresa disseram à Bloomberg News que as operações de crédito poderiam “abrir caminho para um IPO no futuro”.

À época, o CFO Mario Liao havia reconhecido que o índice de dívida líquida sobre Ebitda da empresa estava entre cinco e seis vezes e que o objetivo era reduzi-lo por meio da venda de uma participação acionária.

O balanço do primeiro trimestre registra que, no período, a Turbi recebeu um aporte de R$ 9,4 milhões da Caravela Capital, fundo descrito pela administração como “focado em tecnologia e mobilidade”. O valor foi contabilizado na reserva de capital da companhia por meio de um mútuo conversível – instrumento que pode se transformar em participação acionária.

Na carta aos acionistas, o CEO Daniel Prado apresentou a entrada da Caravela como uma das “movimentações relevantes” do trimestre, descrevendo-a como validação da tese da Turbi “como uma empresa de base tecnológica”.

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