Inditex, dona da Zara, busca consumidor mais sofisticado. E buscou até Bad Bunny em seu plano

A Inditex completa 25 anos como empresa de capital aberto em um momento de reinvenção. A maior varejista de moda listada em bolsa do mundo — dona da Zara, Massimo Dutti e Bershka, entre outras marcas — está deixando para trás a imagem de fast fashion e mira um público mais sofisticado, sem abrir mão do grande mercado de massa.

A estratégia tem dois rostos: Marta Ortega, filha do fundador Amancio Ortega e presidente do conselho, conduz o reposicionamento de imagem. E o CEO Óscar García Maceiras, que toca a operação. Juntos, eles vêm acelerando a transformação digital, expandindo nos Estados Unidos e associando a Zara a nomes de peso na moda global.

O movimento mais recente foi o lançamento da coleção “Benito Antonio” — nome de batismo do astro porto-riquenho Bad Bunny —, com 150 peças disponíveis online e em lojas selecionadas ao redor do mundo.

Não é coincidência: Bad Bunny já havia usado uma camiseta da Zara em sua performance no Super Bowl e apareceu no Met Gala vestindo um smoking feito em parceria com a marca.

Antes disso, a Inditex anunciou uma colaboração de dois anos com o estilista britânico John Galliano — ex-diretor criativo da Maison Margiela e da Dior.

O acordo prevê que Galliano retrabalhe peças de coleções passadas da Zara em novas linhas artesanais, a partir de setembro. O objetivo é claro: trazer o know-how da alta costura para dentro de uma varejista de massa.

“Ao oferecer design e qualidade superiores a um preço menor do que as marcas de luxo, a Zara está atraindo consumidores que antes compravam moda de alto padrão”, avaliou Yanmei Tang, analista da Third Bridge.

A ofensiva também inclui reformulação das lojas flagship — maiores, mais produtivas e com estética mais próxima do varejo de luxo — e parcerias anteriores com designers como Stefano Pilati.

IA no provador e expansão online

No front tecnológico, a Inditex lançou o Zara Try-On, um provador virtual com inteligência artificial: o cliente envia duas fotos e experimenta digitalmente qualquer peça disponível no site. O recurso já foi implementado em 43 mercados globais e acumula mais de 7 milhões de sessões desde dezembro — e está sendo expandido para outras marcas do grupo.

“A diversificação é uma das principais forças do grupo”, afirmou García Maceiras em entrevista à Bloomberg TV. “Temos lojas físicas em 98 países e plataformas online em 214 mercados, além de oito marcas distintas.”

Em 2025, as vendas online do grupo chegaram a € 10,7 bilhões (cerca de US$ 12,1 bilhões), alta de 4,8% — parte de um faturamento total de € 39,9 bilhões (aproximadamente US$ 45,2 bilhões), com crescimento de 3,2% no ano.

Desde o IPO em maio de 2001, as ações da Inditex acumulam valorização superior a 1.630%, contra 83% do índice Stoxx 600 no mesmo período. O resultado é muito superior ao de rivais do varejo de moda.

Mas 2026 tem sido mais difícil. Os papéis acumulam queda de 11,5% no ano, em um cenário de geopolítica turbulenta, incertezas tarifárias e concorrência crescente — especialmente da Shein, que pressiona pelo lado do preço.

A própria Zara, carro-chefe do grupo, registrou seu menor crescimento em uma década em 2025, com alta de apenas 1% nas vendas, chegando a € 28 bilhões (cerca de US$ 31,7 bilhões).

O patriarca nos bastidores

Amancio Ortega, de 90 anos, continua sendo uma referência silenciosa na companhia. Com fortuna estimada em cerca de US$ 131 bilhões — em grande parte por sua participação majoritária na Inditex —, o fundador é hoje um dos maiores investidores privados em imóveis comerciais do mundo.

Em 2025, seu family office, a Pontegadea, adquiriu ao menos dez propriedades na América do Norte e na Europa por mais de US$ 1,5 bilhão, incluindo um complexo de duas torres em Vancouver locado para a Amazon, comprado por cerca de US$ 780 milhões. A Inditex deve pagar a ele cerca de € 3,2 bilhões em dividendos neste ano.

García Maceiras resume a filosofia que guia o grupo: “Combinamos o lado positivo de ser um negócio familiar, com foco no médio e longo prazo, com o fato de ser uma companhia listada, sujeita ao escrutínio diário do mercado.”

Fonte: Invest News

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