Reinvestir é a melhor forma de aumentar os dividendos

Com a aproximação da virada do mês, a atenção de muitos investidores se volta para a nova janela de proventos distribuídos pelas companhias. Isso porque os dividendos e os juros sobre capital próprio (JCP) são peças essenciais nas carteiras de renda passiva.

Quem busca esse tipo de renda complementar, no entanto, tem de considerar uma estratégia fundamental no caso das ações: o reinvestimento desses proventos.

Poucos percebem que o reinvestimento de dividendos e JCP funciona quase como uma versão de juros sobre juros dentro da bolsa. Isso porque, para a maior parte dos investidores, o benefício dos juros compostos se conecta mais ao mundo da renda fixa.

Agenda de Dividendos: um calendário completo e gratuito para acompanhar os dados mais importantes dos pagamentos de cada mês e transformar dividendos em rotina, não surpresa

No caso da renda variável, além de ter o mesmo efeito do juro composto, a matemática da reaplicação dos proventos torna a renda variável menos variável e mais sistemática na construção do patrimônio.

Tem risco? Tem, como qualquer carteira de ações. Mas a escolha bem embasada de companhias consolidadas, com fundamentos sólidos, participação de mercado relevante em setores essenciais e que, claro, sejam pagadoras regulares de dividendos e JCP tende a reduzir a volatilidade do portfólio.

Um exemplo famoso dessa estratégia é o do megainvestidor Luiz Barsi Filho. Ele ficou conhecido, justamente, por criar carteiras focadas na acumulação de ações boas pagadoras de dividendos e segurar os papéis ao longo de décadas.

Barsi colhe hoje os frutos de seu método que envolve disciplina na escolha de companhias vistas como sólidas, maduras e que distribuem proventos regularmente.

São ações de bancos de grande porte, seguradoras e empresas de utilidade pública, como as de saneamento, energia e telecomunicações. Sua carteira gera, atualmente, uma média estimada de R$ 1 milhão em dividendos e JCP por dia.

Devagar e sempre

Na prática, o método é relativamente simples: comprar ações de empresas sólidas, manter posição por muitos anos e reaplicar todos os proventos recebidos na compra de novas ações.

O efeito financeiro é similar ao dos juros compostos porque o investidor passa a gerar renda sobre uma base de capital cada vez maior. Em vez de gastar os proventos recebidos, você os transforma em mais ativos geradores de renda.

Assim, os dividendos do futuro passam a ser calculados não apenas sobre o investimento inicial, mas também sobre todas as ações adquiridas com os dividendos e JCP anteriores.

O raciocínio é parecido com o de uma aplicação financeira que reinveste automaticamente os juros. Em um CDB, por exemplo, o investidor recebe juros sobre o capital inicial e, depois, juros sobre os juros acumulados.

Na bolsa, o processo ocorre por meio do aumento da quantidade de ações. Se um investidor possui mil ações de uma empresa que paga R$ 1 por ação em dividendos ao ano, ele recebe R$ 1 mil.

Se considerarmos cada ação valendo R$ 10, caso utilize esse dinheiro para comprar mais papéis, poderá terminar o ano seguinte com, por exemplo, com 1.100 ações. Se a empresa mantiver o mesmo pagamento, os dividendos já subirão para R$ 1.100 sem que o investidor tenha colocado dinheiro novo do próprio bolso. E se continuar a manter o reinvestimento, o capital se multiplica ao longo dos anos.

Se, por outro lado, o investidor sacar todo o valor do dividendo, vai sempre receber o mesmo montante todos os anos. Ou seja, não terá aumento de patrimônio.

Da mesma maneira, o juro composto da renda fixa só funciona quando o aplicador deixa “fermentando” o dinheiro, sem sacar o retorno, por vários anos até que o capital “criado” pelos juros ganhe volume e passe a trabalhar por você. Por exemplo, uma taxa de juro anual fixa de 13% transforma um aporte inicial de R$ 1 mil em R$ 3,4 mil após 10 anos.

E, depois disso, ano após ano, se o investidor evitar mexer no dinheiro, os juros sobre juros vão aumentar cada vez mais o capital. Se fossem juros simples, os R$ 1 mil “só” dobrariam após mais 10 anos depositados, para R$ 6,8 mil.

Com o efeito do juro sobre juro, o crescimento se torna exponencial: o saldo sobe para R$ 11,5 mil no mesmo período. Em 20 anos, portanto, o dinheiro foi multiplicado por 11 vezes.

Use a renda ativa para construir a renda passiva

Na estratégia de formação de patrimônio, a ideia é que o investidor não se limite ao reinvestimento mas acrescente recursos extras: quantias, por exemplo, que puder economizar do salário, do bônus e de outros rendimentos profissionais, a chamada renda ativa.

Portanto, se você aplicar continuamente R$ 1 mil todo mês nesse investimento, em 10 anos o saldo da sua conta terá alcançado R$ 237 mil. Em 20 anos, mais de R$ 1 milhão.

Agora imagine um investidor que aplique R$ 1 mil em ações com “dividend yield” (retorno do dividendo em relação ao preço da ação) médio de 8% ao ano e também reinvista integralmente os proventos.

Desconsiderando oscilações de preços e supondo estabilidade nos pagamentos, o patrimônio gerador de renda praticamente dobra em cerca de nove anos apenas pelo efeito do reinvestimento.

Se, além do dividendo, considerarmos uma valorização do preço do papel em torno de 7% ao ano, o saldo após 20 anos terá alcançado R$ 1,3 milhão. Isso junto com o dividend yield (DY). Esses são números fictícios, claro. Na carteira de renda variável, os preços das ações e os dividendos distribuídos podem variar de acordo com diversos fatores, como condições de mercado e resultados operacionais.

Como funciona na prática

Uma forma mais realista de entender como funciona o reinvestimento de dividendos e JCP é usar o Índice de Dividendos da B3, o IDIV. O referencial acompanha uma carteira de companhias pagadoras de proventos e sua variação considera tanto a cotação dos papéis quanto o reinvestimento dos proventos.

Nos últimos 10 anos, mais precisamente de 27 de maio de 2016 a 27 de maio de 2026, o índice apresenta um retorno superior a 411%. Esse resultado representa um ganho anualizado de quase 18%.

Nas mesmas condições da simulação anterior, o investidor que colocou R$ 1 mil por mês religiosamente na carteira do IDIV tem hoje R$ 310 mil acumulados. Se assumirmos a mesma variação do índice na próxima década e continuidade dos aportes, o valor saltaria para quase R$ 2 milhões.

O efeito do reinvestimento pode ser percebido ainda nos retornos de dois ETFs que seguem o mesmo índice: o Nu Renda Ibov Smart Dividendos (NDIV11) e o Nu Ibov Smart Dividendos (NSDV11), ambos da Nu Asset.

O primeiro distribui mensalmente os proventos, enquanto o outro reinveste. No mesmo período, de outubro de 2023 até abril de 2026, o NDIV11 apresenta um retorno de 28,48%. O dividend yield referentes aos proventos depositados nas cotas dos cotistas alcançou 22,66%. Já o NSDV11, que reinveste, apresenta um rendimento acumulado de 57,78%.

Crescimento das empresas também conta

Esse efeito pode ser ainda mais poderoso do que na renda fixa porque grande parte das empresas tende a apresentar crescimento operacional ao longo do tempo.

Com isso, parte das companhias de sua carteira tende a aumentar lucros e distribuições conforme crescem, o que acelera a chamada “bola de neve” dos dividendos.

É por isso que investidores focados em renda preferem empresas maduras de setores como bancos, energia elétrica, saneamento e seguradoras, segmentos tradicionalmente associados à geração consistente de caixa e distribuição de proventos.

A preocupação principal, portanto, não está na valorização diária das ações mas na capacidade de aumentar continuamente a quantidade de ativos produtores de renda.

Esse ponto é importante para quem busca renda por meio de dividendos. Isso porque, como um portfólio de renda variável, o valor das ações está sujeito à volatilidade da bolsa.

Os investidores com menos tolerância a risco podem ficar estressados em meio ao sobe e desce do valor dos ativos. Mas quem foca em renda tem de considerar que, em períodos de queda do mercado, os dividendos reinvestidos conseguem comprar mais ações com o mesmo dinheiro, aumentando o potencial de geração de renda futura.

Na masterclass “Estratégias para Viver de Renda”, realizada pelo InvestNews em parceria com o Nubank na terça-feira (26), Louise Barsi, cofundadora do AGF e referência na metodologia do megainvestidor Luiz Barsi Filho, afirmou que, para uma carteira de renda com dividendos, “falamos muito para a pessoa focar na quantidade de ações, porque isso tira um pouco a preocupação com essa oscilação diária”.

Outra dica da especialista é não dar peso demais ao dividend yield do papel. “Isso vem por último” na hora de escolher as ações. “Antes de tudo é preciso entender se a empresa tem bons fundamentos, se é de qualidade, se tem respeito ao acionista, se tem boa governança.”

Fonte: Invest News

Compartilhe este artigo