El Niño deve encurtar inverno e fazer varejo redesenhar estratégias de vendas

O varejo brasileiro de vestuário e moda vive hoje sob pressão do alto nível de endividamento das famílias e por uma inflação que restringe o consumo. Neste ano, além da competitividade entre os pares e da busca por espaço no orçamento familiar, outra variante entra na conta das varejistas: o El Niño.

O fenômeno climático altera os regimes de chuva e a variação de temperatura no país. Em linhas gerais, pode fazer com que o inverno seja menos intenso que o usual, colocando em xeque as estratégias de venda de roupas de frio.

Leia também: JPMorgan vê cenário desafiador para varejo; veja preferidas

Continua depois da publicidade

El Niño e impacto no varejo

A iminência do fenômeno El Niño já obriga o mercado a recalcular suas estratégias comerciais, afirma Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus, empresa de inteligência de dados e consultoria meteorológica para negócios.

O fenômeno se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico na porção equatorial, o que altera severamente o regime de chuvas e as temperaturas no Brasil. Inseridos em um cenário de mudanças climáticas, os impactos sobre safras, varejo e negócios tendem a ser mais intensos do que os observados em décadas anteriores. “Qualquer fenômeno termina sendo amplificado por essas questões”, explica Nascimento.

A projeção é que o El Niño deve ganhar força a partir do meio do ano, saindo de níveis mais baixos no primeiro semestre para probabilidades acima de 60% no inverno e superando 80% entre agosto e dezembro de 2026.

Diferentemente do ano passado, quando a influência do La Niña garantiu um prolongamento do clima gelado e estimulou a venda de roupas de inverno até o mês de dezembro, o El Niño tende a provocar um inverno substancialmente mais curto. Os efeitos da ausência de frio devem aparecer ao longo da estação, marcada por poucos dias gelados e poucos períodos consecutivos de baixas temperaturas.

Essa dinâmica altera de forma direta a decisão de compra. “Quando as pessoas passam vários dias seguidos usando roupas de frio, existe uma tendência maior de renovação do guarda-roupa e de compra de peças mais quentes”, aponta Nascimento. Ao contrário, quando são poucos dias de frio e sem continuidade, o consumidor tende a reaproveitar as roupas que já possui e, com isso, o estímulo ao consumo despenca.

Outono frio e inverno ameno

Como a indústria da moda faz o planejamento e as compras com cerca de um ano de antecedência, as coleções de inverno já estão nos centros de distribuição. A saída estratégica, agora, está na gestão do monitoramento de curto prazo.

Continua depois da publicidade

A projeção do clima indica que o outono provavelmente terá ondas de frio antecipadas, como no último fim de semana em SP, o que pode impactar positivamente o varejo em datas vitais, como o Dia das Mães e o Dia dos Namorados.

Existe, inclusive, a possibilidade de o outono ser mais frio do que o próprio inverno.

“Não vai dar para o varejista segurar o estoque, porque depois o frio pode não aparecer”, alerta Nascimento.

Continua depois da publicidade

Nesse contexto, antever o clima tornou-se uma ferramenta de negócios. Segundo Nascimento, a consultoria para os varejistas pode definir a diferença entre cravar o momento exato da última onda de frio para alinhar o marketing, arrumar vitrines temáticas e engatilhar promoções antes que a demanda não volte mais — ou perder o timing das vendas.

Leia também: Além da guerra, El Niño é outra fonte de pressão sobre safras e inflação no Brasil

Verão escaldante

Se o cenário corta as vendas no inverno, ele se inverte no semestre seguinte. No verão de 2026/2027, a previsão é de ondas de calor e dias seguidos de temperaturas intensas no Brasil.

Continua depois da publicidade

“Isso tende a impulsionar a procura por aparelhos de climatização e ventilação, sorvetes, bebidas e destinos mais refrescantes, como praias, cachoeiras e parques”, ressalta Nascimento. 

Para o comércio, a expectativa é de alta expressiva nas vendas de produtos sazonais de verão, criando oportunidades valiosas para as companhias que souberem usar a sazonalidade a favor de seus resultados financeiros.

Fonte: Info Money

Compartilhe este artigo