Quando Lady Gaga lançou Born This Way, em 23 de maio de 2011, o pop vivia uma fase de grande transformação. As vendas digitais cresciam, as redes sociais mudavam a relação entre artistas e fãs, e Gaga já era uma das figuras mais comentadas da música mundial. Quinze anos depois, o álbum ainda soa como um dos projetos mais ambiciosos de sua trajetória.
Um lançamento que virou acontecimento
Crédito da imagem: Divulgação/Lady Gaga
O impacto foi imediato. Born This Way estreou em primeiro lugar na Billboard 200 com 1,108 milhão de cópias vendidas em sua primeira semana nos Estados Unidos, um número raro mesmo para grandes artistas. Parte desse desempenho entrou para a história da indústria: a Amazon vendeu o álbum digital por US$ 0,99, em uma promoção agressiva que atraiu centenas de milhares de compradores e depois foi associada a mudanças nas regras de contagem das paradas.
Mas reduzir o álbum a uma estratégia comercial seria pouco. O sucesso também refletia o tamanho da expectativa em torno de Gaga naquele momento. Depois de dominar rádios, videoclipes e tapetes vermelhos, ela entregava um disco pensado para ser grande: nas batidas, na imagem, no discurso e na relação direta com seu público.
Entre guitarras, sintetizadores e saxofone
Musicalmente, Born This Way ampliou o universo da artista. A página oficial de Lady Gaga define o projeto como uma combinação de electronic rock e techno-pop, distante do euro-dance mais direto do início da carreira. A crítica da época também notou a força das batidas de pista, dos sintetizadores pesados e das referências ao rock de arena dos anos 1980.
Esse espírito aparece em faixas como “Marry The Night”, “Judas”, “The Edge of Glory” e “Yoü and I”. O álbum também contou com nomes simbólicos: Clarence Clemons, parceiro histórico de Bruce Springsteen, levou seu saxofone para o disco, enquanto Brian May, do Queen, participou de “Yoü and I”.
O resultado é um álbum teatral, intenso e pouco econômico nos gestos. Em vez de buscar discrição, Gaga apostou no exagero como linguagem: guitarras, coros, batidas eletrônicas, imagens religiosas, couro, motocicletas e um visual quase futurista. Na época, nem todos os críticos compraram a proposta sem ressalvas; hoje, justamente esse excesso ajuda a explicar por que a era continua tão lembrada.
Um disco sobre identidade

Créditos da imagem: Lady Gaga durante apresentação no Grammy Awards de 2011. Essa apresentação na 53ª edição da premiação, realizada no Staples Center em Los Angeles, tornou-se um dos momentos mais memoráveis e comentados da história da música pop. Foto: Kevin Winter/Getty Images
A faixa-título, “Born This Way”, transformou o álbum em algo maior que um lançamento pop. A canção chegou ao topo da Billboard Hot 100 e se tornou o milésimo número 1 da história da parada. Também ficou marcada por levar uma mensagem direta de aceitação e orgulho para o centro das rádios globais.
Esse legado se estendeu para além da música. A Born This Way Foundation, criada por Lady Gaga e sua mãe, Cynthia Bissett Germanotta, passou a atuar em iniciativas ligadas à gentileza, ao bem-estar e à saúde mental de jovens.
A polêmica com Madonna
“Born This Way”, também gerou imediatamente comparações com “Express Yourself” (1989), de Madonna. Críticos, fãs e rádios apontaram semelhanças principalmente na estrutura melódica, progressão harmônica e no refrão das duas músicas.
Na época, muita gente enxergou a canção como uma espécie de releitura moderna do clássico de Madonna — o que alimentou uma narrativa de “passagem de bastão” entre duas artistas fortemente ligadas à liberdade de expressão, sexualidade e identidade no pop.
A rivalidade alimentada pela imprensa com a ajuda das redes sociais acabou de vez com o clima de camaradagem selado em 2009 quando as cantoras simularam uma briga no Saturday Night Live (SNL).

Créditos da imagem: Dana Edelson/NBCUniversal via Getty Images
O que Madonna falou?
Inicialmente, Madonna evitou atacar diretamente Gaga. Mas em entrevistas posteriores, especialmente durante a divulgação do álbum MDNA em 2012, ela chamou “Born This Way” de “reductive”. Ou seja, algo como “simplista” ou “redutivo”. A declaração foi interpretada como uma crítica direta às semelhanças musicais.
Pouco depois, durante a turnê MDNA, Madonna chegou a misturar trechos de “Express Yourself” com “Born This Way” e ainda inserir “She’s Not Me” no medley — algo visto por muitos como uma provocação pública.
E a resposta de Lady Gaga?
Gaga tentou evitar confronto direto durante boa parte da situação. Em entrevistas, ela disse admirar Madonna e afirmou que receber comparações com a cantora era um “grande elogio”.
Mas a relação ficou claramente desconfortável por um período. Em um documentário posterior, Gaga chegou a comentar que a situação a afetou emocionalmente porque Madonna era uma referência importante para ela.
Apesar da polêmica, muitos críticos também destacaram que as duas músicas compartilham não apenas elementos melódicos, mas principalmente o mesmo espírito: canções pop construídas como manifestações de liberdade individual, identidade e autoaceitação. Veja abaixo os videoclipes das duas faixas.
Da celebração de 10 anos ao novo fôlego de Bloody Mary

Crédito da imagem: Divulgação/Lady Gaga
Em 2021, o álbum ganhou uma celebração oficial de 10 anos com releituras gravadas por artistas como Kylie Minogue, Big Freedia, Years & Years e Orville Peck. No mesmo período, a cidade de West Hollywood declarou 23 de maio como “Born This Way Day”, reforçando o vínculo do álbum com a cultura pop e com a comunidade LGBTQIA+.
Mais recentemente, “Bloody Mary” mostrou que o repertório do disco ainda tinha fôlego para conversar com novas gerações. A faixa, originalmente lançada em 2011, voltou a ganhar força depois de ser associada a vídeos inspirados na série Wednesday, levando o álbum novamente ao centro das conversas digitais.
Por que ainda importa
Quinze anos depois, Born This Way permanece como um retrato de uma artista em pleno domínio de sua linguagem. É um álbum grandioso, imperfeito, corajoso e cheio de personalidade — exatamente como boa parte dos clássicos pop que resistem ao tempo.
Para o público adulto contemporâneo, revisitar o disco hoje é perceber como Lady Gaga já apontava para a artista vocalmente poderosa e versátil que, anos depois, também brilharia em baladas, trilhas sonoras e projetos mais sofisticados. Born This Way não envelheceu como um álbum discreto. Envelheceu como uma declaração: sonora, visual e emocional.
Fonte: Antena 1












