Azzas 2154 perde nova liderança sênior com saída inesperada de Thiago Hering

Bloomberg Línea — O Azzas 2154 (AZZA3) anunciou na noite de quarta-feira (3) a saída de Thiago Hering dos cargos de diretor estatutário e CEO da unidade Basic a partir de outubro. A decisão marca mais um capítulo na reestruturação executiva que atinge a companhia desde a fusão entre Arezzo e Grupo Soma, efetivada em agosto de 2024.

A empresa formou um comitê de transição liderado por Gustavo Fonseca, executivo com 11 anos no grupo, segundo fato relevante divulgado.

O CEO Alexandre Birman e o sócio Roberto Jatahy também integram o comitê. A consultoria Heartman House foi contratada para acelerar iniciativas de crescimento da marca Hering, que consiste na unidade Basic.

No primeiro semestre, essa unidade de negócios apresentou receita bruta de R$ 1,25 bilhão, com crescimento de 13% na base anual – e equivalente a 18% do total do grupo.

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As ações do Azzas 2154 recuavam cerca de 1,80% perto das 16h desta quinta-feira (4), em sessão em que o Ibovespa subia quase 1% (veja mais abaixo).

Thiago Hering esteve à frente da tradicional marca têxtil desde 2021, quando sucedeu o pai, Fabio Hering. Sua saída representa o fim da gestão familiar direta na empresa fundada em 1880 em Blumenau. A família Hering mantém participação acionária na Azzas.

A decisão foi formalizada em ata do conselho de administração realizada por videoconferência.

Os conselheiros aprovaram os termos da saída por unanimidade e concederam quitação ampla ao executivo, ou seja, a empresa pagou todos os valores devidos: salários, bônus, benefícios, verbas rescisórias e eventuais participações nos lucros pendentes.

A quitação protege Hering de futuras cobranças relacionadas a decisões tomadas durante sua gestão, desde que tenham sido dentro da legalidade e do estatuto da empresa. Ambas as partes renunciaram ao direito de processar uma à outra por questões relacionadas ao período em que Hering atuou como diretor.

Esse tipo de acordo é comum em saídas de executivos de alto escalão, pois evita disputas judiciais futuras e permite uma transição mais limpa.

Rotatividade intensificada

A saída de Thiago Hering se soma a uma série de mudanças no comando da Azzas 2154.

Em agosto passado, Rafael Sachete anunciou a saída do cargo de CFO para assumir a liderança da divisão de calçados e bolsas. Eric Alencar, ex-CFO do Carrefour Brasil, assume a diretoria financeira neste mês de setembro, no próximo dia 10.

Rony Meisler, fundador da Reserva, deixou a companhia em dezembro passado após tensões com Birman.

As divergências entre os executivos se intensificaram após a fusão, com diferenças sobre autonomia e estilo de gestão. Ruy Kameyama, ex-CEO da brMalls, assumiu o comando da unidade de vestuário masculino.

Luciana Wodzik, executiva de longa trajetória na Arezzo, também deixou a liderança da divisão de calçados. A executiva havia construído toda a carreira dentro do grupo e foi promovida na reorganização pós-fusão. Sua saída surpreendeu o mercado pela proximidade com Birman.

Em abril, a empresa anunciou a saída de Cassiano Lemos (COO) e Marco Vidal (CHRO) em uma reestruturação que atingiu dezenas de funcionários. A medida fez parte da otimização da estrutura organizacional após a integração das operações. Gisela Dantas também deixou o cargo de CMO após um ano no grupo.

Conflitos entre controladores

As mudanças executivas ocorrem em meio a relatos de desentendimentos entre Birman e Jatahy. Os controladores do Azzas enfrentaram divergências sobre modelo de gestão e autonomia das unidades de negócio. As tensões chegaram ao ponto de as conversas necessitarem da mediação por advogados no passado recente.

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Segundo relatos de fontes à Bloomberg Línea, Birman tem estilo mais centralizador, o que conflita com executivos acostumados a maior autonomia.

Jatahy, fundador do Soma, mantinha perfil mais agregador e concedia liberdade aos gestores das marcas. As diferenças de personalidade impactaram a integração das culturas empresariais.

Em junho, os controladores anunciaram uma trégua e redesenharam a governança.

Pedro Parente deixou a presidência do conselho, substituído por Nicola Calicchio, ex-presidente da McKinsey na América Latina.

O número de cadeiras do conselho foi reduzido de nove para sete membros. Um comitê de estratégia foi criado para operacionalizar sinergias.

Impacto nas operações

O turnover de executivos de alto escalão gerou preocupações sobre a capacidade do grupo de retenção de talentos e a continuidade operacional.

Analistas questionaram a capacidade de formar sucessores internamente. A perda de executivos com profundo conhecimento das marcas pode levar a desafios para manutenção da identidade dos negócios.

A transição na liderança da Hering representa um teste para a nova governança da Azzas.

Gustavo Fonseca assume interinamente a operação enquanto a empresa busca um sucessor definitivo. O executivo possui experiência na unidade Fashion & Lifestyle.

A contratação da consultoria Heartman House, por outro lado, sinaliza um foco na aceleração do crescimento da Hering. A profissionalização da gestão poderia em tese impulsionar a performance da unidade Basic.

“O Azzas 2154 enfrenta pressão na geração de caixa, com queima de R$ 130 milhões no segundo trimestre devido a menores prazos com fornecedores”, escreveu o analista Rodrigo Gastim, do Itaú BBA, em relatório divulgado em agosto.

Ele escreveu que o mercado deverá monitorar duas questões no segundo semestre: aumento nas devoluções de produtos e potenciais impactos das tarifas americanas sobre exportações.

“O sentimento predominante é de esperar para ver, com o mercado buscando evidências mais claras de que a alavancagem operacional através da diluição de despesas administrativas se materializará nos próximos trimestres”, escreveram os analistas Luiz Guanais, Yan Cesquim e Pedro Lima, do BTG Pactual, em relatório divulgado nesta quinta sobre a saída de Hering.

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Os analistas do BTG citaram ainda que investidores permanecem cautelosos sobre o momentum de crescimento de vendas no segundo semestre, particularmente nos segmentos Basic e Calçados.

Diante dos desafios, as ações negociam com desconto considerado atrativo, com múltiplo de 7,4x o lucro estimado para 2026. O papel acumula alta de cerca de 15% em 2025, mas tem queda de 30% em 12 meses.

O Itaú BBA tem recomendação outperform – equivalente a compra – para o papel, com o preço-alvo de R$ 53. O BTG tem recomendação de compra também com R$ 53 como preço-alvo. A ação fechou a quarta-feira a R$ 33,60.

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