Bloomberg Línea — A inteligência artificial (IA) industrial promete ser mais abrangente do que os modelos baseados em linguagem natural, fortemente dependentes de idiomas como o inglês. Esta é a visão da diretora global de pesquisa em IA Industrial da Siemens, Olympia Brikis.
Apesar do avanço significativo de modelos criados para interpretar e recriar a linguagem humana, como o ChatGPT, por exemplo, esse tipo de tecnologia ainda apresenta algumas barreiras para determinadas tarefas.
“Quando se trata de engenharia e dados físicos do mundo real, o desafio será menor, porque os padrões que usamos na indústria são universais em todos os idiomas”, disse a executiva em entrevista à Bloomberg Línea.
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Brikis é mestre em Ciências da Computação pela Universidade Ludwig-Maximilians, de Munique, na Alemanha, e desde 2015 leciona sobre inteligência artificial, além de atuar como consultora da Comissão Europeia para a área.
Ela conta que sua jornada na área da IA não foi linear. “Comecei estudando matemática, não sabia que acabaria programando ou escrevendo códigos.”
Conforme estudava matemática, ela percebeu que a resolução de problemas do mundo real usando os conceitos de pensamento analítico era sua grande motivação.
No final da graduação, Brikis acabou mudando o curso para Ciências da Computação e também estudou, em paralelo, filosofia. “Além do campo técnico, eu sentia que precisava ampliar as minhas perspectivas, pensar os problemas de maneira mais holística.”
Olympia Brikis, diretora global de pesquisa em Inteligência Artificial Industrial da Siemens: “Quando se trata de engenharia e dados físicos do mundo real, o desafio será menor”. Foto: Empresa/Divulgação
Para a executiva, o desenvolvimento de sua carreira em torno da IA acabou sendo coerente. “Agora, olhando para trás, vejo que matemática, filosofia e ciências da computação convergem em torno da IA — o campo onde essas três disciplinas se encontram”, avalia.
Ela acrescenta que o salto na sua carreira para a IA industrial, também chamada de IA física, foi guiado principalmente pelo fato de ela ter feito um estágio na Siemens durante o seu mestrado.
Em meados de 2017, quando o campo da IA possuía ainda menos mulheres nesse tipo de pesquisa, Brikis chegou à Siemens para atuar em automação e engenharia. “Cheguei à empresa com toda uma bagagem, mas conheci uma indústria onde a IA praticamente não era usada”, afirma.
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Neste contexto, ela explica que a indústria no geral era uma “slow adopter” de IA. “No setor de consumo, víamos muito mais a adoção de IA, mas a indústria era um ambiente muito conservador para esse tipo de tecnologia, havia pouquíssimos exemplos reais de implementação”, diz.
Na Siemens, ela lidera o desenvolvimento da próxima geração de IA – incluindo modelos generativos – aplicada a operações, automação, engenharia, eletrificação e mobilidade, com foco em modelos capazes de compreender sistemas físicos complexos e operar com segurança em ambientes regulados.
Em sua avaliação, existe um consenso de que a próxima fronteira da IA é o mundo físico, mas não será trivial trazer essa tecnologia para o ambiente industrial.
Segundo a executiva, antes mesmo da popularização do ChatGPT já existia a aplicação da chamada “narrow AI” (IA estreita ou limitada, utilizada em segmentos como de indicação de compras ou filmes) na indústria. Ela explica que diferentes modelos – de manutenção ou previsão preditiva – são aplicados a determinadas máquinas de fábricas ou tipos específicos de rede de energia.
“Essas aplicações existem há muito tempo. A Siemens já vem criando soluções desse tipo para os clientes”, esclarece.
O que mudou desde a popularização do ChatGPT, em meados de 2022, foi a evolução para um modelo de IA que resolve tarefas que não foram “ensinadas”, indo além do treinamento.
Brikis observa que a IA generativa funciona bem para linguagem, vídeo e imagens, modalidades com muitos dados já inseridos na internet. No entanto, para particularidades da indústria como leitura de sensores, séries temporais, diagramas técnicos, esquemas elétricos, entre outros, a LLM ainda não entende profundamente.
“Dizemos na Siemens que esses modelos ainda não falam a linguagem da engenharia e da manufatura.”
Alguns especialistas argumentam que modelos de vídeo já começam a entender o mundo físico. “Isso é verdade em certa medida, mas para aplicações reais, a exatidão exigida é muito maior. O engenheiro precisa de precisão absoluta.”
Vantagem da IA física
Diferentemente dos modelos de linguagem, na indústria há poucos elementos textuais. “A maior parte [dos dados] é composta de números. Nas simulações, há ainda menos dependência de idioma, não é como ocorre na geração de imagens, por exemplo”, diz a executiva. “Quando construirmos modelos industriais fundamentais, eles provavelmente serão mais universais e menos dependentes da língua humana”, acrescenta.
Para Brikis, a transformação decorrente da IA industrial será enorme. “A IA física é como se fosse uma inteligência com ‘corpo’, que vai interagir com o mundo real, tomar decisões neste corpo. Para tanto, precisaremos de muito mais hardware: sensores, infraestrutura, dispositivos que permitam que a IA veja, ouça e toque”, esclarece.
Outra mudança significativa está relacionada à infraestrutura. Hoje, a maior parte da computação de IA acontece em grandes data centers. Já com a IA física, a “inferência” (processo em que a máquina, já treinada, aplica o conhecimento adquirido a novos dados para gerar previsões, decisões ou conclusões em tempo real) estará por toda parte: desde fábricas até casas e carros. “Isso aumenta muito a demanda por energia e computação localizadas.”
Atualmente, quando o modelo LLM roda no computador, isso ocorre através de um data center, que pode estar muito distante. “No futuro, a IA física rodará em milhares de dispositivos pelo mundo”, diz.
O benefício, aponta a especialista, é a automação acelerada. “Tarefas antes difíceis de automatizar finalmente poderão ser cobertas pela IA física.”
No entanto, para os treinamentos, os países ainda precisarão investir em “fábricas de IA”. Com a natureza mais distribuída da IA física, contudo, as barreiras de adoção à tecnologia devem diminuir, permitindo a implantação mais localizada, caso a caso.
No caso da Siemens, ela aponta que as soluções de IA industrial incluem visão computacional para inspeção de qualidade, análise de dados, manutenção preditiva e assistência baseada em IA no ciclo completo de engenharia, da concepção à manufatura. “Seguimos desenvolvendo modelos cada vez mais potentes”, diz.
Disseminação da IA física
Na visão de Brikis, a IA generativa já reduziu drasticamente as barreiras à inovação. “Tarefas que exigiam uma equipe grande e muito investimento agora podem ser prototipadas por uma única pessoa com ferramentas avançadas”, explica.
No entanto, ela alerta que a barreira só cairá de fato se as pessoas usarem as ferramentas. “Os dados mostram que poucos realmente usam.”
Sobre uma eventual substituição da mão de obra – de engenheiros principalmente, no caso da indústria – ela afirma que o medo ainda existe.
“Não quero ignorá-lo. Mas pessoalmente vejo como uma oportunidade, os engenheiros sempre têm mais trabalho do que conseguem executar”, destaca. Em sua avaliação, tornando o trabalho mais rápido, o engenheiro não ficará sem tarefas. “O projeto avançará mais rapidamente. O risco real é para quem não adotar essas ferramentas, esses sim ficarão para trás.”
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