SAN FRANCISCO — Em 25 de maio de 2015, Sam Altman mandou um e-mail para Elon Musk propondo um “Projeto Manhattan para IA”. A ideia era criar um laboratório de pesquisa no Vale do Silício capaz de desenvolver uma inteligência artificial extremamente poderosa e compartilhá-la com o mundo “por meio de algum tipo de organização sem fins lucrativos”.
Musk respondeu naquela mesma noite dizendo que a proposta “provavelmente valia uma conversa”. Antes do fim do ano, os dois empreendedores de tecnologia fundaram a OpenAI, uma entidade sem fins lucrativos que mais tarde daria o pontapé no boom global de IA com o lançamento do ChatGPT.
Quando o chatbot da OpenAI finalmente surgiu, Musk já tinha deixado a organização, depois de uma disputa de poder com Altman e outros dirigentes do laboratório. Em 2024, ele processou a OpenAI, alegando que Altman se aproveitou do seu dinheiro e traiu o acordo original ao colocar o lucro à frente do interesse público.
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Na próxima segunda-feira, começa a seleção do júri no tribunal federal de Oakland, na Califórnia, em um julgamento que vai decidir se Musk foi mesmo, como ele sugere, o “financiador ingênuo” de Sam Altman. O caso deve expor desavenças pessoais e discussões altamente técnicas que vêm moldando o desenvolvimento da IA. Musk, Altman e outros nomes pesados do setor — como Satya Nadella, CEO da Microsoft, e Mira Murati, ex-diretora de tecnologia da OpenAI — devem depor ao longo do processo, que pode se estender por várias semanas.
Musk pede mais de US$ 150 bilhões em indenizações da OpenAI e da Microsoft, principal parceira da empresa. Ele também quer que a Justiça afaste Altman do conselho da OpenAI e reverta a mudança societária que transformou a companhia em um negócio com fins lucrativos.
O desfecho do caso tem potencial para embaralhar a corrida por IA na indústria de tecnologia. A OpenAI, que virou uma das empresas mais influentes do planeta, pode sair duramente enfraquecida justamente no momento em que parece se preparar para um dos maiores IPOs da história. Se Musk vencer, rivais como Google, Anthropic e até concorrentes internacionais, caso da chinesa DeepSeek, tendem a sair ganhando.
Se Musk perder, Altman deve consolidar ainda mais o controle sobre uma empresa que se tornou sinônimo de turbulência interna. E a OpenAI, que já reúne mais de 4.000 funcionários em escritórios espalhados pelo mundo, ficará livre para tocar seu plano de expansão de data centers — um projeto que pode consumir centenas de bilhões de dólares.
“Isso é só uma frente de uma guerra total entre bilionários por dinheiro, apoio político e, no fim das contas, a liderança absoluta em IA”, diz Oren Etzioni, pesquisador veterano de inteligência artificial e cofundador do Allen Institute for AI e da startup Vercept.
No processo, Musk afirma que a OpenAI — hoje avaliada em cerca de US$ 730 bilhões, operando como empresa com fins lucrativos supervisionada pela ONG original — abandonou a missão humanitária em troca de lucro. A OpenAI rebate e diz que essa narrativa não se sustenta.
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E-mails anexados ao caso mostram que o próprio Musk tentou transformar a OpenAI em uma empresa comercial antes de sair, em 2018. Quando o boom de IA tomou forma, ele fundou seu próprio laboratório com fins lucrativos, a xAI. Hoje, a empresa está sob o guarda-chuva da SpaceX, que pode abrir capital já neste ano, em uma oferta que pode chegar a US$ 1,75 trilhão.
A briga entre Musk, 54 anos, e Altman, 41, lembra cismas que vêm se repetindo no setor de IA. Várias vezes, pesquisadores de ponta se juntaram para construir sistemas poderosos e depois se dividiram por discordar sobre o melhor caminho, fundando novas empresas.
“Não é comum ver empresas do Vale do Silício partindo para uma estratégia de terra arrasada nos tribunais, mas Elon é um caso à parte”, afirma Anupam Chander, professor de direito e tecnologia na Faculdade de Direito da Universidade Georgetown. “Quando o homem mais rico do mundo processa você, é natural ficar preocupado, mesmo se achar que está completamente certo.”
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Um júri de nove pessoas vai decidir sobre as acusações de Musk contra a OpenAI. Se ele vencer, caberá à juíza Yvonne Gonzalez Rogers — a mesma que comandou o processo da Epic Games contra a Apple, sobre o controle da App Store do iPhone — definir o valor das indenizações e outras medidas.
Nos bastidores do Vale do Silício, a expectativa é de um julgamento cheio de cenas de impacto.
Shivon Zilis, ex-conselheira da OpenAI e mãe de quatro filhos de Musk, está na lista de testemunhas. Também devem depor Helen Toner, Tasha McCauley e Ilya Sutskever, três integrantes do conselho que, em 2023, surpreenderam o mercado ao demitir Altman — decisão que acabou revertida cinco dias depois, após a pressão de funcionários e investidores. Eles dispensaram Altman justamente porque não confiavam que ele colocaria o interesse da humanidade acima da pressa por resultados.
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Mira Murati, que ajudou Altman a voltar ao comando da OpenAI, mas mais tarde foi apontada como peça importante na trama que levou à sua queda, também deve falar ao tribunal. Antes da rápida saída de Altman, ela levou ao conselho diversas queixas sobre o jeito de ele administrar a empresa, segundo pessoas a par das conversas.
Musk alega no processo que Altman e Greg Brockman, presidente e cofundador da OpenAI, agiram de forma deliberada para manipulá-lo e enganá-lo. Segundo ele, os dois garantiram que a OpenAI seguiria um caminho mais seguro do que o de gigantes orientadas pelo lucro, como Google e Microsoft — e, com isso, o convenceram a doar dezenas de milhões de dólares à entidade sem fins lucrativos.
A ação pede que a OpenAI pague dezenas de bilhões de dólares em indenizações. Em uma atualização recente, Musk mudou o pedido para que esse dinheiro vá para a própria organização sem fins lucrativos ligada à OpenAI, e não para ele.
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“Ele está pedindo que a Justiça devolva tudo o que foi tirado de uma organização de interesse público — e garanta que os responsáveis nunca mais possam fazer isso de novo”, disse Marc Toberoff, advogado de Musk, em comunicado.
A OpenAI afirma que Musk só quer travar a empresa enquanto tenta emplacar seu próprio projeto de IA.
Documentos do processo indicam que, em 2017, Jared Birchall, chefe do family office de Musk, registrou uma empresa chamada Open Artificial Intelligence Technologies, que seria justamente uma versão com fins lucrativos da OpenAI.
“As próprias palavras e ações dele falam por si”, escreveu a OpenAI em um documento enviado ao tribunal. “Elon não só queria, como de fato criou, uma estrutura com fins lucrativos como novo modelo proposto para a OpenAI.”
c.2026 The New York Times Company
Fonte: Info Money













