Perto dos usuários – e do fundo do mar: como a geografia determina a corrida dos data centers no Brasil

Metade dos data centers da América do Sul estão no Brasil – 206 de 420 (49%). Para dar uma ideia: o Chile, segundo colocado no ranking, fica bem atrás, com 66 unidades.

O continente todo, de qualquer forma, vem recebendo projetos novos. Na Argentina, a OpenAI e a Sur Energy anunciaram um projeto de US$ 25 bilhões para um data center de IA. No Paraguai, que tenta virar um polo digital usando a energia de Itaipu, a X8 Cloud fala em investir US$ 50 bilhões em 30 anos para erguer um novo complexo.

Mas o Brasil tende a continuar bem à frente, e não só pelo poderio econômico.

“O Paraguai não tem tanta energia disponível, nem cabos submarinos – o Brasil, sim”, disse Christopher Torto, CEO da operadora de data centers Ascenty, durante um anúncio de novos investimentos da companhia. 

A geografia dessa expansão, hoje concentrada em São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará, é definida por dois fatores. Um, razoavelmente óbvio: estar perto dos centro urbanos; outro, nem tanto: ficar próximo dos cabos submarinos, que são os hubs da infraestrutura global de telecomunicações. 

É disso que vamos falar aqui, na segunda reportagem desta série do InvestNews sobre o Brasil na corrida global por data centers.

A razão de ser dos data centers

Toda atividade digital depende de dados: uma compra online, um vídeo no TikTok, uma corrida de aplicativo. Essas operações geram e consomem informações o tempo todo – registros de pagamento, mensagens, localização, histórico de navegação. 

Tudo isso precisa ser armazenado, organizado e processado em algum lugar. No caso, data centers.

E data centers têm dois tipos de cliente. Um é o chamado enterprise. São as empresas comuns – pode ser uma varejista, uma companhia aérea, um hospital. A demanda deles não costuma ser tão grande. Pode ser saciada por alguns racks – os armários onde ficam os servidores. 

O outro tipo de cliente são as big techs : AWS, Microsoft, Google, Oracle, ByteDance, que trabalham com quantidades astronômicas de dados. São as chamadas hyperscales. Elas alugam salas e salas de equipamentos. Quiçá, o prédio todo.

Mas a estrutura é sempre a mesma. Todo data center é, na essência, uma concentração de processadores, energia, refrigeração e internet. Mas tem um fator que diferencia um projeto de outro: a localização.

Infográfico da anatomia de um data center: subestação, salas, racks e capacidade de servidores.
Ilustração: Daniela Arbex

A demanda local

Nem todo data center topa um relacionamento à distância. Alguns deles funcionam melhor quando estão mais perto dos usuários. É o caso das estruturas usadas por bancos, meios de pagamento, bolsa de valores, redes sociais, streaming e chatbots de IA.

Esses serviços demandam respostas instantâneas. E, quanto menor a distância entre o usuário e o servidor, menor o atraso na transmissão dos dados. No mundo das telecomunicações, esse atraso é chamado de latência.

“Há 15 anos, a gente consumia mais de 90% do nosso conteúdo vindo de Miami. Hoje, menos de 70% vem de lá. Porque a maioria dos players já trouxe o tráfego de dados para cá, para ficar próximo do usuário”, diz Victor Arnaud, presidente da Equinix Brasil.

Pegue o exemplo do Pix: ele demanda uma cadeia extensa de verificações obrigatórias. Em poucos segundos, o banco precisa checar o saldo e o limite do cliente, avaliar o risco de fraude, comunicar a transação ao Banco Central e receber a confirmação da instituição de destino. 

Em 2025, foram 79,8 bilhões de transações via Pix. Segundo o banco central, 99% delas foram concluídas em até 4,6 segundos.

Não daria para fazer isso se os dados precisassem atravessar oceanos.

Não só. Essas operações envolvem dados financeiros, sujeitos a regras rígidas de segurança do Banco Central. Nesses casos, o processamento tende a permanecer dentro do país de qualquer forma. 

É essa lógica, da proximidade usuário-empresa-servidor, que ajuda a explicar por que São Paulo concentra a maior parte do setor de data centers no país – sozinha, a região metropolitana abriga 59 unidades, segundo o Data Center Map. Ali perto, na região de Campinas, são mais 26. 

E a conectividade

Se São Paulo explica a concentração atual do setor, Rio de Janeiro e Ceará ajudam a entender a próxima disputa do mercado: a tentativa de posicionar o Brasil como ponto de circulação internacional de dados.

E essa disputa se decide, em boa medida, no fundo do mar. Cabos submarinos são fios de fibra óptica do tamanho de uma mangueira de jardim que cruzam o oceano ligando continentes. Por eles passam mais de 95% do tráfego internacional de internet.

Para data centers que operam fluxos internacionais, estar perto de onde esses cabos chegam à terra firme reduz a latência da operação e o custo de transmissão. No litoral brasileiro, dois pontos concentram esse tráfego: Praia Grande, no litoral paulista, e Fortaleza.

Mapa-múndi mostra a rede global de cabos submarinos de internet, responsável por transportar mais de 95% do tráfego internacional de dados. Linhas coloridas conectam continentes pelos oceanos Atlântico, Pacífico, Índico e Ártico.
Ilustração: João Brito

A capital cearense recebe mais de 16 sistemas de cabos submarinos. Isso faz dela, de certa forma, a cidade brasileira mais próxima da América do Norte, da Europa, da Ásia.

Resultado: o Ceará tem hoje 12 data centers em operação, o 4º maior mercado do país. E será sede do maior projeto anunciado pelo setor no Brasil até agora: o complexo desenvolvido para atender a ByteDance, dona do TikTok, com investimentos estimados em R$ 200 bilhões.

Já o Rio de Janeiro funciona como um caso híbrido. Por lá, são 23 data centers. De um lado, concentra demanda corporativa – puxada por empresas de óleo e gás, telecomunicações e pelo sistema financeiro. De outro, também ganhou importância como ponto de conectividade internacional.

A cidade reúne oito cabos submarinos e recebeu investimentos em infraestrutura de telecomunicações durante os Jogos Olímpicos de 2016. Parte dela acabou reaproveitada pelo mercado de data centers.

É ali, na região do Parque Olímpico, que a operadora de data centers Elea desenvolve o Rio AI City, complexo anunciado com 1,5 GW de capacidade prevista – sozinho, mais do que toda a capacidade atual dos data centers em operação no Brasil, hoje perto de 950 MW.

Na próxima reportagem desta série, vamos mapear os principais data centers já em operação no país, os projetos anunciados para os próximos anos – e entender como a demanda de big techs e da inteligência artificial está mudando o perfil dessa infraestrutura.

Fonte: Invest News

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