Estamos em 2040. A Grande Tempestade — um evento solar capaz de causar danos devastadores à civilização em uma escala não vista desde o século XIX — está em rota de colisão com a Terra.
No espaço, onde orbitam os satélites geoestacionários, meia dúzia de satélites do tamanho de ônibus escolares se abre e começa a liberar bário, lítio ou sódio. Em poucos minutos, a luz solar transforma esse material em um escudo de gás ionizado que desacelera a gigantesca nuvem de plasma que avança em direção ao planeta.
Na superfície, o que poderia ser uma catástrofe global — capaz de derrubar redes elétricas inteiras — se transforma apenas em um espetáculo noturno para quem olhar para o céu e observar a aurora boreal.
Até o nome parece ficção científica: StormWall. Mas especialistas em clima espacial afirmam que a ideia pode funcionar e ajudar a mitigar um evento que, segundo estimativas, ocorre uma vez por século.
Os três cientistas que idealizaram o projeto afirmam que uma coalizão internacional poderia construir o sistema usando tecnologias já existentes ou que devem chegar ao mercado nos próximos anos.
Cálculos preliminares indicam que o custo poderia chegar a dezenas de bilhões de dólares. Ainda assim, com a crescente dependência de eletrônicos e o aumento da infraestrutura em órbita — de satélites de internet a centros de dados para treinamento de inteligência artificial —, o investimento pode ser plenamente justificável, afirma Brian Walsh, professor associado de engenharia da Universidade de Boston e um dos criadores do projeto.
“Uma tempestade solar centenária pode provocar apagões gigantescos em continentes inteiros”, diz Walsh. Segundo ele, um evento dessa magnitude também poderia danificar centros de dados espaciais e sistemas de defesa antimísseis.
“Se o custo for menor do que enviar pessoas à Lua, quando as pessoas fizerem as contas isso fará sentido em um futuro muito próximo”, acrescenta.
O vento solar
Há décadas, cientistas estudam a interação entre a magnetosfera da Terra — gerada pelo núcleo rico em ferro do planeta — e as ejeções de massa coronal emitidas pelo Sol.
As partículas carregadas do chamado vento solar são constantemente lançadas em direção à Terra, mas a maior parte é desviada pela magnetosfera, que funciona como um escudo protetor.
Uma parcela dessas partículas é direcionada aos polos magnéticos do planeta. Quando a atividade solar se intensifica, elas se tornam visíveis na forma das auroras boreal e austral. Essa atividade costuma seguir ciclos de aproximadamente 11 anos.
“Esse é um processo que ocorre todos os dias, várias vezes ao dia”, afirma Allison Jaynes, física e professora da Universidade de Iowa. “Quando acontece em grande escala é que surgem os efeitos negativos.”
O último evento solar realmente disruptivo ocorreu em março de 1989, quando uma tempestade derrubou a rede elétrica da província canadense de Quebec por nove horas.
Em 2012, uma supertempestade solar mais poderosa do que qualquer outra observada em pelo menos 150 anos passou muito perto da Terra.
Já em 2024, próximo ao pico do atual ciclo solar, a tempestade solar Gannon obrigou operadores da rede elétrica da Nova Zelândia a ativar medidas de mitigação. O mesmo evento provocou falhas de GPS durante um período crucial de plantio nas Dakotas e no norte de Minnesota, causando prejuízos estimados em US$ 1 bilhão para agricultores.
Um airbag para a magnetosfera
A ideia do StormWall é reforçar as defesas da magnetosfera quando uma grande ameaça solar estiver se aproximando.
“Pense nele como um airbag”, diz Daniel Welling, professor da Universidade de Michigan e coautor da proposta.
O sistema só seria acionado quando todas as demais medidas de proteção fossem consideradas insuficientes. E, como um airbag, seria de uso único.
“Depois de usá-lo, toda a coluna de direção precisa ser substituída e a seguradora declara perda total do carro”, brinca Welling.
“Em teoria, deveria funcionar”, afirma Ian Cohen, chefe da área de física solar e espacial do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, que não participou da pesquisa.
O desafio, segundo ele, é que os especialistas ainda não conseguem prever o clima espacial com a mesma precisão com que preveem o clima na Terra.
Há poucos sensores no espaço e os processos que desencadeiam tempestades solares são muito mais complexos.
Para que o StormWall funcione, os cientistas precisariam detectar rapidamente sinais de uma ejeção de massa coronal particularmente perigosa e acompanhar sua trajetória tanto a partir da Terra quanto por meio de satélites de observação no espaço profundo, explica Walsh.
Depois disso, um painel internacional teria de aprovar a operação e autorizar o acionamento do sistema.
Será preciso um foguete gigantesco
Existem diversos desafios de engenharia para tornar o projeto operacional, afirma Cohen.
Um dos maiores custos seria o lançamento. O sistema exigiria o envio de cerca de 380 toneladas de material ionizável — lítio, bário ou sódio — para uma altitude de aproximadamente 35 mil quilômetros acima da superfície terrestre.
Isso equivale a uma órbita cerca de 68 vezes mais alta do que a dos satélites Starlink, da SpaceX.
Essa altitude é crucial porque é nesse ponto que o material ionizado poderia seguir o que os pesquisadores chamam de “rodovias naturais” do espaço, fornecendo cerca de seis horas de proteção antes de se dispersar.
Atualmente, colocar uma carga desse tamanho em órbita geoestacionária é praticamente impossível, já que seriam necessários muitos lançamentos.
A massa transportada pelo StormWall seria várias vezes superior à de um satélite geoestacionário convencional, que já exige os foguetes mais poderosos do mundo.
A SpaceX está desenvolvendo a nave Starship, projetada para transportar grandes cargas para missões espaciais profundas por meio de reabastecimento em órbita, tecnologia que ainda não foi totalmente testada.
A empresa prevê iniciar operações regulares em órbita baixa ainda este ano, mas não está claro quando terá capacidade para alcançar as órbitas exigidas pelo StormWall.
Outra opção é o foguete chinês Long March 9, que deverá ter capacidade semelhante, embora seu voo inaugural esteja previsto apenas para o início da década de 2030.
Questionado sobre quando o StormWall poderia se tornar realidade, Welling afirma que, mesmo no cenário mais otimista, a fase de pesquisa exigiria pelo menos mais cinco anos.
“Você não quer um airbag que exploda. E também não quer um airbag que infle pouco”, diz.
Mesmo que o projeto custe US$ 100 bilhões, esse valor representa apenas um décimo do que as empresas de tecnologia devem gastar na construção de infraestrutura para inteligência artificial apenas no próximo ano.
E, sem um airbag espacial, uma tempestade solar suficientemente forte teria potencial para transformar todos esses centros de dados em pilhas inutilizáveis de aço e silício.
Traduzido do inglês por InvestNews
Fonte: Invest News










