O bilionário investimento da Volkswagen em carros ‘feitos para a China’ vai dar certo?

Em um gigantesco laboratório de testes repleto de pirâmides de espuma, a Volkswagen está colocando à prova um dos novos carros que desenvolveu especialmente para o mercado chinês.

Mas o maior teste ainda está por vir: os motoristas chineses vão querer comprá-los?

Os veículos avaliados no amplo centro de desenvolvimento da Volkswagen em Hefei fazem parte de uma nova geração de modelos focados na China, nos quais a montadora aposta para recuperar sua posição no maior mercado automobilístico do mundo.

A Volkswagen liderou o mercado chinês durante décadas, e o país chegou a responder por mais da metade de seu lucro anual. Nos últimos anos, porém, sua posição se deteriorou rapidamente diante da concorrência feroz das fabricantes chinesas de veículos elétricos, que oferecem tecnologia digital mais avançada.

Para recuperar terreno, a Volkswagen tentou blindar sua operação chinesa dos projetos excessivamente centrados na Europa e da lentidão nas decisões da matriz alemã. A empresa investiu US$ 3,5 bilhões em instalações de desenvolvimento de última geração em Hefei e firmou parcerias com diversas empresas locais de tecnologia.

Agora, os primeiros carros produzidos sob a estratégia “na China, para a China” começam a chegar às ruas.

O sucesso desses veículos será um teste decisivo para o futuro da Volkswagen no país. Também servirá como indicador para outras marcas ocidentais na China, onde os consumidores demonstram preferência crescente por fabricantes locais.

“Bem-vindos à academia da indústria automotiva, onde os ciclos tecnológicos são mais curtos, a competição é mais intensa e as expectativas dos consumidores mudam mais rápido do que em qualquer outro lugar”, afirmou o CEO da Volkswagen, Oliver Blume, durante uma visita recente ao país.

Unyx 07

A empresa planeja lançar mais de 20 novos modelos na China neste ano, começando pelo Volkswagen ID. Unyx 07.

O sedã, cuja produção começou em janeiro em Hefei, foi o primeiro Volkswagen equipado com computadores centrais de alta capacidade, que permitem oferecer níveis mais elevados de autonomia e recursos baseados em inteligência artificial.

Em um teste recente pelas ruas de Hefei, o carro dirigiu sozinho em meio ao trânsito intenso de rodovias e em um estacionamento subterrâneo. Um motorista de segurança mantinha as mãos no volante, conforme exigido pela legislação chinesa.

Para abrir uma janela, por exemplo, bastava dar um comando ao assistente digital do veículo, sem necessidade de apertar botões — um recurso já comum em carros chineses mais modernos.

A Volkswagen desenvolveu a tecnologia de direção autônoma em parceria com a empresa chinesa Horizon Robotics. Os modelos que serão lançados ainda este ano terão uma versão mais avançada, capaz de circular em ruas urbanas.

As parcerias são um elemento central da estratégia da montadora alemã para alcançar os novos concorrentes chineses.

Em 2023, a Volkswagen adquiriu cerca de 5% da startup chinesa de veículos elétricos Xpeng. Desde então, a empresa tem utilizado a expertise da companhia no desenvolvimento dos sistemas eletrônicos presentes no ID. Unyx 07 e em outros dois veículos que serão lançados neste ano.

A mudança representa uma inversão histórica. Durante décadas, a Volkswagen fornecia tecnologia para suas joint ventures na China e recebia royalties de alta margem. Agora, são as empresas chinesas que fornecem conhecimento tecnológico e colhem os benefícios.

A Xpeng ajudou a “acelerar” o processo de recuperação tecnológica da Volkswagen, segundo Thomas Ulbrich, diretor de tecnologia da Volkswagen China e responsável pelo centro de desenvolvimento de Hefei.

A instalação no leste da China ocupa uma área equivalente a 18 campos de futebol e abriga equipamentos monumentais, incluindo um laboratório de compatibilidade eletromagnética — uma enorme sala revestida por pirâmides pontiagudas para minimizar interferências em testes eletrônicos.

Segundo a Volkswagen, reunir todas as instalações de teste necessárias para desenvolver um carro na China reduz o tempo de desenvolvimento em 30%, permitindo uma resposta mais rápida às demandas locais.

Durante uma visita recente, uma plataforma de testes simulava condições extremas de estrada e reduzia o período de validação de durabilidade de 30 para apenas 10 semanas. O equipamento chegou a Hefei antes mesmo da sede alemã da Volkswagen.

Os lucros da Volkswagen na China despencaram à medida que a empresa perdeu participação de mercado e aumentou investimentos em desenvolvimento local e parcerias. A expectativa é que as operações chinesas gerem menos de US$ 500 milhões de lucro neste ano, ante cerca de US$ 5 bilhões há uma década.

Em uma atualização recente aos investidores, a empresa afirmou que 2026 deverá marcar o ponto mais baixo do ciclo, com os investimentos começando a gerar retorno a partir de 2027, embora sem repetir os níveis da era dourada anterior à pandemia.

A recuperação dependerá, em última instância, do número de consumidores chineses dispostos a comprar os novos veículos.

Em um evento realizado antes do Salão do Automóvel de Pequim, em abril, a Volkswagen apresentou quatro novos veículos elétricos ao som de tambores chineses e apresentações culturais locais.

Entre eles estava o Volkswagen ID. Unyx 09. A montadora, primeira marca global a entrar na China nos anos 1980, criou a submarca Unyx em 2024 para atrair consumidores mais jovens.

“Os consumidores chineses costumavam olhar para a Volkswagen e pensar em qualidade. Agora pensam em algo velho”, afirma Michael Dunne, CEO da consultoria automotiva Dunne Insights.

A empresa também exibiu o novo Audi E7X, que traz o nome Audi escrito por extenso no capô, em vez dos tradicionais quatro anéis. A reformulação busca conquistar novos clientes para uma marca historicamente associada a autoridades governamentais.

Embora os novos carros representem um enorme avanço em relação à geração anterior, analistas afirmam que eles ainda não colocam a Volkswagen na vanguarda da tecnologia automotiva chinesa. Sistemas autônomos da Huawei, por exemplo, já operam em estradas não pavimentadas, enquanto a tecnologia da Volkswagen só chegará plenamente às ruas urbanas mais adiante neste ano.

“A Volkswagen já queimou todos os seus fogos de artifício. Minha pergunta é: ela está pronta para lançar a próxima rodada? Está preparada para investir novamente em pessoas, capacidade e tecnologia? Porque é isso que os chineses fazem todos os dias”, diz Thomas Luk, consultor baseado na China e ex-consultor da McKinsey em Stuttgart.

Os novos modelos também chegam a um mercado difícil. Em abril, as vendas de automóveis na China caíram pelo sétimo mês consecutivo.

As vendas de veículos elétricos foram particularmente fracas após o fim dos subsídios governamentais. Ironicamente, a Volkswagen voltou a liderar o mercado chinês no primeiro trimestre graças à força de suas vendas de veículos com motores a combustão.

A resposta da empresa é a mesma adotada por muitas concorrentes chinesas: exportar. A Volkswagen pretende vender seus veículos elétricos desenvolvidos na China não apenas no mercado local, mas também no Sudeste Asiático, Oriente Médio e América do Sul.

A montadora afirmou não ter planos de comercializar esses modelos na Europa, onde possui muitas fábricas, nem nos Estados Unidos, onde eles enfrentariam fortes restrições.

Ainda assim, a estratégia chinesa já produz efeitos na Europa. As contratações em Hefei foram acompanhadas por cortes de empregos na Alemanha, enquanto a queda dos lucros e das receitas de licenciamento vindas da China forçou a companhia a reduzir custos em diversas áreas.

“Desenvolver carros na Europa para a Europa e depois levá-los ao resto do mundo: esse modelo de negócios chegou ao fim”, afirmou Blume.

Entre em contato com Stephen Wilmot pelo e-mail stephen.wilmot@wsj.com

Traduzido do inglês por InvestNews

Fonte: Invest News

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