Antes da IA, os data centers eram meros galpões. Agora, são como siderúrgicas. Entenda

Você não contrata um data center por metro quadrado. Contrata por megawatts.

Quem aluga capacidade em um desses está, na prática, comprando a garantia de que esses servidores vão funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana. 

Esta é a terceira reportagem do InvestNews sobre o Brasil na corrida global por data centers. Nas reportagens anteriores, vimos que garantir esse funcionamento ininterrupto demanda energia. Muita energia. 

Hoje, nada requer tanto poder computacional quanto os modelos de inteligência artificial. Consequentemente, nada demanda tanta energia também. 

A seguir, conheceremos alguns dos principais data centers em operação no Brasil. E vamos como a demanda das IAs está transformando esses empreendimentos.   

Dentro e fora dos data centers

Quem caminha pelas ruas do centro de São Paulo provavelmente já passou, sem perceber, por um data center. É o SP1, da Equinix. 

Pouca coisa o diferencia de um prédio corporativo convencional. De estranho ali, só as enormes grades de ventilação distribuídas pela fachada. 

A Equinix é uma gigante americana de data centers. O negócio dela é hospedar a infraestrutura digital de outras empresas. No Brasil, a especialidade da companhia não é exatamente armazenar dados, mas conectá-los. Seus prédios funcionam como pontos de encontro onde bancos, operadoras, provedores de internet e plataformas digitais trocam dados entre si.

Por isso um prédio no coração de São Paulo, fisicamente próximo de boa parte das empresas, bancos e operadoras da cidade – o que reduz o tempo de resposta das conexões.

Um dos clientes da companhia, a B3, opera a alguns quarteirões dali. 

Esse não é, porém, o modelo mais comum de data center. Em geral, essas estruturas lembram mais fábricas do que prédios comerciais. 

É o caso, por exemplo, do complexo de Vinhedo (SP), da Ascenty, a maior operadora de data centers na América Latina. A planta tem 46 mil m² de área total e comporta 7,3 mil racks – os armários onde ficam os servidores. 

Para manter tudo isso rodando sem pifar, empreendimentos desse tipo demandam estruturas gigantescas de energia e ventilação. 

Ali, existe uma palavra de ordem: redundância. Tudo tem um plano B – e, às vezes, um plano C. 

A energia, por exemplo: para garantir energia constante, o complexo de Vinhedo construiu uma subestação conectada diretamente à rede da CPFL, concessionária da região. Se a luz pisca, sistemas de nobreak entram automaticamente em ação para manter a operação funcionando. Depois de alguns minutos, quem assume são dezenas de geradores a diesel que, juntos, conseguem sustentar toda a estrutura por até 48 horas.

Mais calor e energia

Seja num prédio ou num galpão, os data centers no Brasil, hoje, são desenhados para atender à demanda da computação tradicional – app de delivery, a transferência via Pix, o vídeo do Youtube.

Individualmente, essas operações consomem até que pouca energia. O que dá escala é o volume – bilhões de operações ao mesmo tempo.

A inteligência artificial muda essa lógica. Cada operação individual de um modelo de IA exige um esforço computacional dezenas de vezes maior do que uma transação convencional, porque os modelos rodam em chips especializados: as GPUs. 

Uma GPU de última geração, como a H100 da Nvidia, consome até 700 watts de potência. Sete vezes mais do que um processador comum.

“Um rack que exigia 3 kW num data center corporativo. Com a chegada da nuvem, foi para 15 kW. E agora, com a IA, vai para 100 kW por rack”, diz Marcos Siqueira, head de estratégia da Ascenty. 

Um único rack assim ligado por 24 horas consome energia suficiente para carregar 50 carros elétricos. E um data center de grande porte, 150 MW, tem 1.500 desses racks. É energia para suprir uma cidade de 1,2 milhão de habitantes.

Isso tem duas consequências imediatas. A primeira, naturalmente, é energética: para a Agência Internacional de Energia, os data centers de IA já se assemelham, para o sistema elétrico, como grandes consumidores industriais – tipo fundições de alumínio.

A outra consequência é térmica: o calor gerado por um servidor é proporcional à energia que ele consome – já que quase toda a eletricidade que entra no chip vira calor.

A solução é turbinar os sistemas de resfriamento. Hoje, boa parte deles ainda usa corredores de ar frio para controlar a temperatura dos servidores. Mas projetos mais novos vêm adotando sistemas de liquid cooling, refrigerado a água. Boa parte dos sistemas a ar usa torres de resfriamento e outros sistemas que dependem de água. A diferença, no caso do liquid cooling, é que o H2O passa a ser o agente direto de resfriamento, o que torna o processo mais eficiente.

A base é uma água tratada – sem minerais e com aditivos para evitar corrosão e proliferação de microrganismos. Ela circula por tubos encostados nos chips para puxar o calor diretamente da fonte.

A próxima geração de data centers

Lá fora, essa nova geração de data centers já está em operação. O caso mais emblemático é o Colossus, da xAI, empresa de IA de Elon Musk.. O complexo foi instalado numa antiga fábrica da Electrolux em Memphis, no Tennessee. Começou a funcionar em 2024 com 100 mil GPUs H100, da Nvidia, usadas para treinar o Grok.

No Brasil, esse tipo de estrutura existe só no mundo das ideias, por ora. Mas é o que orienta a nova leva de investimentos do setor.

Em maio, a Ascenty anunciou R$ 6 bilhões em novos data centers voltados à inteligência artificial no Brasil. O plano prevê quatro unidades na região de Campinas, com 150 MW de capacidade total. Segundo a companhia, os projetos já estão totalmente pré-locados.

Outro desses projetos é o Scala AI City, da Scala Data Centers. O projeto prevê um distrito de data centers em Eldorado do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, voltado a cargas de inteligência artificial. A primeira fase terá 54 MW de capacidade de TI.

E o maior deles até agora, com 200 MW anunciados, é o foco da próxima reportagem desta série: o data center do TikTok, no Ceará.

Fonte: Invest News

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