Navio chinês é atacado em novo capítulo de crise em Ormuz

Guarda Revolucionária do Irã tem retaliado escoltas dos EUA a embarcações de vários países, que se tornam efeitos colaterais

As tensões no estreito de Ormuz aumentaram drasticamente depois das tentativas dos Estados Unidos de escoltar navios comerciais, com a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã lançando uma série de ataques contra navios mercantes de diversos países.

A CMA CGM, 2ª maior empresa de transporte marítimo de contêineres do mundo, declarou em 6 de maio que seu pequeno navio porta-contêineres, o San Antonio, foi atacado no dia anterior enquanto transitava pelo estreito, resultando em ferimentos na tripulação e danos à embarcação.

Em 4 de maio, um grande navio-tanque de produtos químicos, pertencente a uma empresa chinesa, foi atacado na costa do porto de Al Jeer, nos Emirados Árabes Unidos, na entrada do estreito de Ormuz. O convés da embarcação pegou fogo. No momento do ataque, o navio ostentava um aviso “CHINA OWNER & CREW” (Proprietário e Tripulação Chineses).

Uma fonte familiarizada com o armador disse à Caixin que esta foi a 1ª vez que um navio-tanque de petróleo chinês foi alvo de um ataque, acrescentando que foi “psicologicamente difícil de aceitar”.

Diversos navios comerciais foram atacados no estreito de Ormuz e em águas adjacentes de 3 a 4 de maio. O ataque começou em 4 de maio, quando um VLCC (navio petroleiro de grande porte) de 300 mil toneladas, operado pela ADNOC (Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi), foi atingido enquanto navegava pela via marítima.

Os Emirados Árabes Unidos relataram que a embarcação foi atingida por 2 drones e condenaram o ataque iraniano como um ato de “pirataria”. No dia seguinte, o HMM Namu, um navio cargueiro de 38.000 toneladas pertencente a uma empresa de navegação sul-coreana, foi atacado próximo ao porto de Umm Al Quwain, nos Emirados Árabes Unidos. O ataque causou uma explosão e um incêndio, levando a tripulação a emitir o pedido de socorro conhecido como “Mayday”, o mais grave.

TRÁFEGO MARÍTIMO

Sob a saraivada de ataques contínuos, o tráfego de embarcações pelo estreito de Ormuz caiu para quase zero. Segundo a Diaodubao, uma plataforma de digitalização marítima operada pela COSCO Shipping Technology, nenhuma embarcação comercial transitou pelo estreito de 5 a 6 de maio, com apenas um pequeno navio de passageiros omanita registrando movimentação.

Um analista de uma instituição marítima internacional disse à Caixin que o ataque a um petroleiro chinês serve como um importante sinal do aumento das tensões regionais. O analista declarou que a intensificação repentina dos ataques do Irã contra embarcações comerciais no estreito e nas águas adjacentes foi provocada pelo lançamento do Projeto Liberdade pelos EUA e suas subsequentes operações de escolta militar.

Em 3 de maio, o presidente dos EUA, Donald Trump (Partido Republicano), anunciou que os EUA iniciariam operações de direcionamento no estreito de Ormuz na manhã de 4 de maio, horário local, para “guiar” os navios presos para fora da hidrovia.

Trump caracterizou a iniciativa, denominada Projeto Liberdade, como uma “operação humanitária”. A Axios informou que, a partir de 4 de maio, a Marinha dos EUA auxiliaria embarcações comerciais, incluindo as de bandeira norte-americana, na passagem pelo estreito, oferecendo orientações sobre como evitar minas e estando pronta para intervir caso o Irã lançasse um ataque.

ESCOLTAS E CONFRONTOS

Em 4 de maio, o Alliance Fairfax, um navio cargueiro de grande porte com bandeira dos EUA e pertencente à gigante do transporte marítimo Maersk, saiu com sucesso do golfo Pérsico pelo estreito de Ormuz sob escolta da Marinha dos EUA. Foi a 1ª embarcação comercial a transitar pelo estreito sob proteção militar norte-americana.

Em comunicado à Caixin, a Maersk afirmou que as Forças Armadas dos EUA entraram em contato recentemente com a Maersk Line Limited, uma subsidiária da empresa, oferecendo-se para proteger o Alliance Fairfax em sua saída do golfo.

Depois de desenvolver e coordenar em conjunto um plano de segurança abrangente com as Forças Armadas dos EUA, a Maersk Line Limited aprovou a travessia. A embarcação deixou o golfo Pérsico sob escolta norte-americana. A Maersk expressou sua gratidão às Forças Armadas dos EUA.

Depois da bem-sucedida operação de escolta, a agência de notícias iraniana Fars informou, em 4 de maio, que 2 mísseis iranianos “atingiram um navio de guerra norte-americano” naquele dia, incapacitando a embarcação e forçando-a a retornar e deixar a área. Autoridades do Comando Central dos EUA negaram categoricamente as alegações iranianas, esclarecendo que nenhum navio de guerra norte-americano havia sido atingido.

Brad Cooper, chefe do Comando Central dos EUA, declarou à imprensa em 4 de maio que, depois do início do Projeto Liberdade pelos EUA, o Irã disparou múltiplos mísseis de cruzeiro e drones contra navios da Marinha dos EUA e embarcações comerciais sob sua “proteção”. Em resposta, helicópteros de ataque Apache e SH-60 Seahawk dos EUA atacaram as embarcações iranianas.

Cooper afirmou que as forças norte-americanas afundaram 6 pequenas embarcações iranianas que tentavam impedir a navegação comercial no estreito de Ormuz. Cooper disse que os ataques norte-americanos foram uma “ação defensiva”. Ele também confirmou que nenhum navio da Marinha dos EUA ou embarcação de bandeira norte-americana foi atingido durante o fogo cruzado.

AMPLIAÇÃO DA ZONA DE CONFLITO

Em uma ação retaliatória, a agência de notícias Tasnim, afiliada à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, informou em 4 de maio que o Irã havia estabelecido uma nova “zona de controle marítimo” no estreito de Ormuz.

A área designada abrange as águas territoriais de Omã e dos Emirados Árabes Unidos, incluindo o Porto de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos. Conectado aos campos de petróleo do golfo Pérsico por meio de oleodutos, Fujairah é atualmente o principal terminal de exportação de petróleo bruto dos Emirados Árabes Unidos, e petroleiros da China e de outras nações dependem exclusivamente do porto para carregar petróleo bruto dos Emirados Árabes Unidos.

Simultaneamente, o Irã retomou seus ataques ao porto de Fujairah. O escritório de imprensa de Fujairah confirmou em 4 de maio que um incêndio começou na zona industrial petrolífera do emirado, provocado por um ataque de drone iraniano. O Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos declarou: “Reservamo-nos o direito a uma resposta abrangente e legal ao ataque”.

Naquele dia, um oficial militar iraniano declarou à imprensa, a respeito do incêndio de grandes proporções nas instalações petrolíferas de Fujairah, que o Irã não havia premeditado o ataque ao local.

Em vez disso, o oficial disse que os incidentes foram resultado do aventureirismo militar dos EUA, afirmando que as forças norte-americanas estavam tentando abrir um “canal ilegal” para permitir a passagem de navios por uma rota de navegação restrita no estreito, e que os militares dos EUA deveriam ser responsabilizados.

ESFORÇOS DIPLOMÁTICOS

Em 6 de maio, Wang Yi reuniu-se com Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã, em Pequim. Wang disse que a China acredita que uma cessação completa das hostilidades é urgente, que reacender uma guerra é inaceitável e que persistir nas negociações é particularmente vital.

A China apoia o Irã na salvaguarda de sua soberania e segurança nacionais e aprecia a disposição do Irã em buscar uma solução política por meio de canais diplomáticos.

Em relação ao estreito, Wang observou que a comunidade internacional compartilha a preocupação comum com o restabelecimento da normalidade e da segurança da passagem, e a China espera que as partes envolvidas atendam rapidamente a esses fortes apelos globais.

Sobre a questão nuclear, a China expressou apreço pelo compromisso do Irã de não desenvolver armas nucleares, ao mesmo tempo em que afirmou que o Irã tem o direito legítimo ao uso pacífico da energia nuclear.

A China defende que os países do golfo e do Oriente Médio detêm seus próprios destinos, incentiva o Irã e outros Estados do golfo a dialogarem para alcançar relações de boa vizinhança e apoia o estabelecimento de uma arquitetura regional de paz e segurança caracterizada pela participação conjunta, interesses compartilhados e desenvolvimento comum.


Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pela Caixin Global em 7.mai.2026. Foi traduzida e republicada pelo Poder360 sob acordo mútuo de compartilhamento de conteúdo.



Fonte: Poder 360

Compartilhe este artigo