Mais mulheres trabalham na Arábia Saudita, mas qualidade dos empregos ainda é limitada

Bloomberg Línea — Nas ruas da capital da Arábia Saudita, em Riad, não é difícil encontrar mulheres ocupando postos de trabalho, como de motoristas de carros de aplicativos, uma cena que até 2018 era proibida.

O país, que vive uma monarquia absolutista desde 1932, com regras rígidas sobre a atuação feminina na sociedade, tem, aos poucos, ‘afrouxado’ algumas de suas regras mais duras.

A taxa de participação feminina na força de trabalho entre sauditas chegou a 36,3% no primeiro trimestre de 2025, acima dos 36,2% registrados no terceiro trimestre de 2024, segundo dados da General Authority for Statistics. No mesmo período, a taxa de desemprego entre os sauditas caiu para 10,5%.

O avanço no período ajuda a explicar por que o Fundo Monetário Internacional (FMI) passou a considerar que a participação feminina já está “confortavelmente acima” da meta original de 30% fixada para 2030. Com o aumento da presença de mulheres no mercado, o próprio governo elevou a ambição e agora mira algo próximo de 40% até o fim da década.

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Para especialistas ouvidos pela Bloomberg Línea durante a Global Labor Market Conference, realizada em janeiro em Riad, capital do país, o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, embora mais expressiva nos últimos anos, precisa ser analisada também sob a ótica da qualidade das vagas criadas.

“É algo realmente impressionante o crescimento da participação feminina no emprego nos últimos seis ou sete anos”, disse Barbara Petrongolo, professora da Universidade de Oxford.

Segundo ela, a taxa “praticamente dobrou” nos últimos anos, movimento favorecido pelo fato de o país ter partido de uma base baixa e por mudanças regulatórias que ampliaram direitos das mulheres, como mobilidade e autonomia econômica.

Esse avanço está ligado a uma série de reformas implementadas a partir de 2017. Relatórios do Banco Mundial apontam que o país tem removido restrições ao trabalho feminino, ampliado proteções contra discriminação, equiparado regras previdenciárias e fortalecido direitos de mobilidade e residência.

Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Para Bettina Schaller, presidente da World Employment Confederation, países que estruturam uma estratégia clara para o mercado de trabalho tendem a apresentar resultados mais consistentes.

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“Os países que têm uma visão clara para o mercado de trabalho e para o desenvolvimento do país costumam ter melhores resultados”, disse.

Sem citar um programa específico voltado às mulheres sauditas, ela afirma que a Arábia Saudita passou a ser vista como um exemplo de planejamento de força de trabalho como política econômica, com metas bem definidas, e execução coordenada, fatores que facilitam a implementação das reformas.

Uma leitura mais otimista aponta que mulheres passaram a ocupar vagas em setores historicamente dominados por homens no país.

O Banco Mundial observou que, após as reformas, houve maior entrada feminina em áreas como construção, manufatura e entregas — ocupações anteriormente consideradas mais fechadas ou pouco acessíveis.

“Quando você libera o potencial das mulheres no mercado de trabalho, a produtividade aumenta”, disse Schaller.

Petrongolo, no entanto, chama atenção para um ponto menos visível desse fenômeno.

Segundo ela, o crescimento do emprego feminino parece ter se concentrado sobretudo entre mulheres de menor escolaridade e em postos fora dos setores tradicionalmente femininos, o que levanta dúvidas sobre a qualidade dessa nova onda de ocupação.

“Não podemos esquecer o topo da distribuição de qualificação no mercado de trabalho”, afirmou, ao questionar por que mulheres altamente educadas, um grupo numericamente relevante no país, ainda não encontram oportunidades na mesma proporção.

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A preocupação se sustenta nos dados mais amplos do mercado.

Um estudo recente do FMI mostra que, entre 2017 e 2024, a participação feminina entre os sauditas subiu quase 18 pontos percentuais, enquanto o desemprego das mulheres caiu de 32,4% para 13,1% em média em 2024. No primeiro trimestre de 2025, esse indicador já estava em 11,9%.

Segundo Petrongolo, o diferencial salarial entre homens e mulheres aumentou com a entrada acelerada de mulheres no mercado — possivelmente refletindo uma concentração em postos de menor remuneração.

Segundo ela, o gap salarial teria passado de cerca de 12% para 33% no país.

Além disso, parte das desigualdades de gênero persiste porque as mulheres continuam assumindo de forma desproporcional responsabilidades domésticas e atividades de cuidado.

Embora esse fenômeno seja observado em diversas economias, ele tende a limitar a mobilidade profissional e restringir opções de carreira — especialmente em um país que historicamente restringiu a participação feminina de certos espaços.

Além disso, o sistema de tutela masculina, ainda parcialmente em vigor, limita decisões como casamento e questões familiares, refletindo a interação entre legislação local e interpretações da sharia.

Nele, mulheres precisam de “autorização” de um tutor masculino, seja pai, marido ou irmão, para realizar certas atividades, como se casar.

Em 2019, houve uma atualização dessa regra com base no programa do governo, o Vision 2030, e mulheres com mais de 21 anos passaram a poder tirar passaporte para viajarem sozinhas, mas em outras práticas isso ainda não mudou, caso de casamento, divórcio e custódia sobre a guarda dos filhos.

No caso saudita, o desafio é ainda mais sensível porque a abertura econômica convive com traços conservadores na organização social, segundo as especialistas.

“Muitas carreiras foram desenhadas para trabalhadores sem responsabilidades familiares”, disse Petrongolo.

Esse desenho, segundo ela, ainda penaliza interrupções e exige jornadas rígidas — fatores que podem dificultar a permanência feminina em ocupações de maior prestígio e renda.

O pano de fundo dessa mudança é o redesenho do mercado de trabalho saudita dentro do Vision 2030, programa do governo lançado em 2016.

Em relatório recente, o Banco Mundial descreveu o processo como uma transformação acelerada e mais inclusiva do capital humano, impulsionada por reformas legais e trabalhistas que facilitaram a entrada de mais mulheres — inclusive casadas e mães — na força de trabalho.

A próxima barreira a ser superada na Arábia Saudita será uma ainda mais complexa: a de demonstrar que a inserção de mais mulheres no mercado de trabalho se traduz em carreiras ao longo prazo, melhor remuneração e maior presença feminina nos níveis mais altos da hierarquia de empresas, segundo as especialistas que falaram à Bloomberg Línea.

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