Lenovo, Dell, Nokia: boom de data centers ressuscita dinossauros da tecnologia

Elas andavam fora do radar, mas voltaram com tudo em 2026. Dell, Nokia, Lenovo e outras estrelas do passado passam por valorizações exuberantes, de carona nos gastos com data centers.

A corrida para montar infraestrutura de IA disparou a demanda por servidores, memória, equipamentos de rede e até chips mais antigos. O resultado é um rali nas ações que tenham qualquer tipo de exposição a esses segmentos. A última onda alcançou nomes icônicos da tecnologia dos anos 1990.

Além de Dell, Nokia e Lenovo, outras que voltaram a brilhar neste ano são Micron, Intel, Texas Instruments e Cisco Systems.

Essas s sete ações sobem, em média, 158% em 2026, somando US$ 1,7 trilhão em valor de mercado.

“Há uns seis meses começamos a perceber que a construção da infraestrutura de IA está realmente se espalhando, e há uma escassez enorme, principalmente no segmento mais ‘sem graça’ de hardware, em que a expansão de capacidade foi muito limitada nos últimos anos”, disse Yan Taw Boon, gestor de portfólio na Neuberger Berman. “Mas a demanda está explodindo — de CPUs comuns a equipamentos de rede, componentes passivos, armazenamento e memória.”

De velhas fabricantes de celular a uma reinventada produtora de chips para calculadora, veja a seguir algumas das ações retrô da tecnologia que estão protagonizando uma volta triunfal:

Dell

As ações da Dell saltaram 33% na sexta-feira, sua maior alta diária da história, depois que a fabricante de hardware — mais conhecida pelo negócio de computadores pessoais — divulgou um balanço com forte demanda por seus servidores de IA.

A disparada pode lembrar os anos de auge da Dell, quando a ação subiu mais de 200% por três anos seguidos no fim dos anos 1990. Mas, depois de perder mais de 80% do valor com o estouro da bolha pontocom, a companhia foi fechada em 2013. A Dell voltou à bolsa no fim de 2018 e hoje vale US$ 125 bilhões a mais do que o pico de US$ 148 bilhões registrado em março de 2000.

O balanço estrondoso é prova de que a Dell é “o mais recente ‘dinossauro’ da tecnologia a ganhar uma nova vida como potência da IA”, disse Emmanuel Valavanis, da Forte Securities.

Lenovo

A Lenovo Group Ltd. se apresentou ao mundo com a compra da divisão de computadores pessoais da International Business Machines Corp. (IBM), em 2005, ficando com os direitos da icônica linha de notebooks corporativos ThinkPad e estabelecendo a base para se tornar, mais tarde, a maior fabricante de PCs do mundo.

Embora a indústria de PCs venha em declínio estrutural há anos, a aposta da Lenovo em produtos e serviços de IA ajudou a empresa chinesa a crescer a receita em 20% no último ano, com quase 40% das vendas totais vindo agora dessas linhas de negócio.

As ações da Lenovo subiram 105% em maio, atingindo recorde histórico e cravando o melhor mês em mais de um quarto de século. Os papéis são os de melhor desempenho no índice de referência Hang Seng, de Hong Kong, com alta de 159% no ano — mais que o triplo do retorno da segunda ação mais valorizada.

Nokia

A Nokia sofreu dois baques seguidos nos anos 2000: primeiro o boom de telecomunicações que virou crise, e depois o negócio de aparelhos celulares, atropelado pela ascensão dos smartphones. De um pico de valor de mercado de € 300 bilhões (US$ 349 bilhões), a ação chegou a cair 98% até 2012.

Depois de vender o negócio de telefones móveis para a Microsoft em 2014, a Nokia se reinventou em torno do negócio menos glamouroso dos equipamentos de rede para telecomunicações. A retomada atual foi reforçada pela compra, em 2025, da Infinera, especialista americana em redes ópticas, bem no momento em que os data centers de IA elevavam a demanda por conexões mais rápidas entre clusters de processamento.

As ações da finlandesa sobem mais de 124% no ano, a quarta melhor performance do Stoxx Europe 600. Ainda assim, o papel não retomou as máximas da era pontocom e está cerca de 80% abaixo do recorde de fechamento.

Cisco Systems

Poucas empresas representam tão bem o renascimento das ações de tecnologia “veteranas” quanto a Cisco, fabricante de equipamentos de rede que foi o rosto da bolha pontocom e chegou a ser, brevemente, a empresa mais valiosa do mundo em 2000.

A companhia se reinventou, saindo das redes tradicionais para a infraestrutura de IA, e o sucesso nessa nova era ficou evidente nos resultados divulgados no começo do mês, com projeção robusta de receita para o quarto trimestre fiscal e um plano de corte de vagas para mirar mais fortemente em IA.

Os números foram o sinal mais recente de que a tendência de crescimento está em alta, somando-se à inflexão na demanda relacionada à IA registrada no ano passado, que ajudou a ação a voltar aos níveis recordes e a finalmente superar o pico de março de 2000.

Os papéis sobem 56% em 2026 e estão a caminho de superar o índice Nasdaq 100 pela maior margem anual desde 2006.

Intel

A Intel foi praticamente dada como morta pelos investidores há menos de dois anos, depois que sucessivos problemas de fabricação transformaram a antiga liderança da empresa no setor de semicondutores em lembrança distante.

A volta por cima foi turbulenta, com quatro CEOs diferentes na última década. O atual, Lip-Bu Tan, foi celebrado por Wall Street ao ser nomeado no ano passado, só para meses depois ter sua demissão pedida pelo presidente Trump — que rapidamente voltou atrás e acabou costurando uma participação do governo americano na companhia.

Na sequência, a Nvidia fez um investimento de US$ 5 bilhões, e a ação disparou de novo em março, quando a Intel anunciou que seus novos chips Xeon estão sendo usados em alguns sistemas da Nvidia. O papel chegou a recorde no mês passado, depois de uma projeção de vendas que pulverizou as expectativas de Wall Street.

Neste mês, o Wall Street Journal noticiou que a Intel chegou a um acordo preliminar com a Apple para fabricar alguns chips usados em seus aparelhos — informação vista como prova de que sua aposta em foundry (fundição de chips) começa a dar frutos. As ações sobem 211% no ano, no caminho do melhor desempenho da história.

Texas Instruments

A empresa, com sede em Dallas, no Texas, foi uma fornecedora dominante, nos anos 1990, dos chips que convertem sinais do mundo real em 0s e 1s, componente essencial para equipamentos de telecomunicações e celulares. Mas a demanda murchou com a desaceleração da expansão das telecomunicações, e a ação caiu mais de 85% do pico ao fundo entre 2000 e 2002.

Depois de um começo lento da era ChatGPT, num momento em que lidava com demanda oscilante de clientes dos mercados automotivo e industrial, as vendas da companhia ganharam força à medida que mais chips passaram a ser necessários para sustentar servidores de IA, que exigem mais densidade de potência. A divisão de data center hoje gera mais de US$ 1 bilhão em vendas por ano, total que cresceu mais de 60% em 2025.

As ações da Texas Instruments sobem 76% no ano e caminham para o melhor desempenho anual desde 2003.

Micron

A Micron entrou neste mês para o clube das empresas com US$ 1 trilhão em valor de mercado, quase 50 anos depois de ter sido fundada no porão de um consultório odontológico em Boise, Idaho. A fabricante de chips de memória teve as ações em alta no fim dos anos 1990, ao se tornar uma das maiores produtoras do mundo após comprar o negócio de memória da Texas Instruments.

Do pico em julho de 2000 ao fundo em novembro de 2008, o papel perdeu mais de 98% do valor. A ação só renovou o recorde histórico no início de 2022.

Mas, no último ano, virou o símbolo das empresas que se beneficiam, na cadeia, do boom de gastos com IA. Como uma das principais fabricantes de memória de alta largura de banda (HBM), viu uma explosão de demanda muito acima da oferta. Os papéis subiram mais de 903% em 12 meses e bateram o recorde de menor tempo para sair de uma avaliação de US$ 500 bilhões para US$ 1 trilhão: apenas 48 pregões.

Colaboraram de Neil Campling e Ruhell Amin.

Fonte: Invest News

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