Meu filho de 8 anos, fanático por Lego, esperava ansioso a chegada pelo correio de dois novos conjuntos Lego Smart Play de Star Wars: a X-wing do Luke e o caça TIE do Darth Vader.
Ele tinha visto os comerciais de TV dos novos conjuntos, movidos por “peças inteligentes” que acendem quando os tiros de laser são disparados e soltam um coro de sons de motor de nave. Montou tudo empolgado, carregou as peças a noite inteira com todo o capricho e acordou cedo pra brincar.
Hoje em dia tudo parece ter chip: celular, painel de carro, as bolas da Copa do Mundo, até a sua torradeira. Pode botar a Lego na lista.
A Lego apresenta o Smart Play, lançado em março, como a mudança mais radical no badalado “sistema de brincar” da fabricante dinamarquesa desde 1978 — ano que marcou a estreia dos minifigures, os bonequinhos de Lego que “abriram a porta para o faz de conta”, segundo Tom Donaldson, vice-presidente sênior da empresa.
O Smart Play é mais uma “mudança de geração”, diz Donaldson, e a Lego planeja lançar centenas de conjuntos usando a tecnologia interativa.
No coração do novo sistema estão peças inteligentes recarregáveis e microprocessadores capazes de ler etiquetas digitais gravadas dentro de outras peças Smart Play. A tecnologia é o NFC — a mesma da maquininha do seu mercado: as peças com energia funcionam como a maquininha, e as peças com etiqueta são como o cartão que você aproxima pra pagar.
As peças inteligentes também detectam movimento, acendem, fazem efeitos sonoros que mudam conforme a brincadeira e, em alguns casos, percebem e “conversam” com outras peças. Os conjuntos de Star Wars com peças inteligentes custam de US$ 70 a US$ 160, e há ainda conjuntos mais baratos “compatíveis com Smart Play”, com as peças de etiqueta digital. Mês passado, a Lego revelou uma linha de Pokémon, que chega às lojas em agosto.
Como pai, achei refrescante ver a Lego usar chip a serviço de algo que não é um videogame ou outra atividade de tela. Já temos tentações de tela espalhadas pela casa de sobra, e meus filhos não precisam de mais uma.
Ao mesmo tempo, a Lego se equilibra na corda bamba: a empresa quer inovar para disputar a atenção das crianças com plataformas como YouTube, Roblox e Minecraft, mas não quer que a tecnologia roube a cena do seu produto principal.
“Do ponto de vista da criatividade, a brincadeira das crianças vai mudar de forma profunda com essas peças inteligentes. Elas vão brincar para fazer as peças fazerem a coisa legal e os barulhos”, diz Josh Golin, diretor-executivo da Fairplay, uma organização sem fins lucrativos que defende menos telas e menos publicidade no entretenimento infantil. “Toda vez que a peça faz mais, a imaginação da criança faz menos.”
Consigo enxergar esse ponto. Os efeitos sonoros do Smart Play substituem os barulhos de explosão e os “pew-pew” que normalmente saem da boca do meu filho.
Por outro lado, manter de pé a sensação de construir algo, de ter a paciência e o cuidado de seguir as instruções e de se orgulhar do resultado, ao mesmo tempo em que se acrescenta um toque animado de tecnologia, me pareceu uma coisa boa.
A origem do Smart Play ajuda a entender essa aposta da Lego nos chips.
Em 2018, a Lego estava patinando. Em março daquele ano, a empresa informou que as vendas do ano anterior haviam caído 8%, a primeira queda em mais de uma década. A companhia tinha acabado de cortar 1.400 empregos, e o presidente do grupo Lego, Niels B. Christiansen, disse ter um único objetivo: “estabilizar o negócio”.
Uma equipe de designers da Lego fez uma viagem de carro pelo meio-oeste americano no verão de 2018, visitando dezenas de casas em Madison (Wisconsin), Minneapolis e arredores. Nas salas de brinquedo das famílias, os pesquisadores observaram crianças pequenas brincando com conjuntos de Lego e voltaram com três conclusões.
Primeiro, as crianças estavam sedentas por experiências sociais, diz Sam Coates, vice-presidente da Lego que participou da viagem. Segundo, queriam “protagonismo”, a ideia de que suas ações mudam o que acontece. E, por fim, deram sinais de que queriam “surpresas gostosas”. Em outras palavras, queriam poder criar uma história nova toda vez que voltassem aos seus conjuntos.
As crianças deveriam se sentir como “o diretor do novo filme de Star Wars que você está criando”, diz Coates. As peças e etiquetas servem para “botar a ação pra rodar, ligar o filme lá dentro e estimular a criança a continuar”, acrescenta.
A Lego botou o pé na água interativa em 2024, com os conjuntos do Super Mario. Eles traziam peças que tocavam trechos da icônica música-tema e soltavam o efeito sonoro de moedinha sendo coletada conforme os personagens do Mario se moviam.
A Lego diz que o Smart Play é mais elaborado do ponto de vista tecnológico e maior em escala. Ele funciona como uma “plataforma”, ou seja, as peças inteligentes são intercambiáveis entre os conjuntos e podem assumir funções diferentes. Os novos conjuntos de Pokémon vão se reconhecer, para que as crianças possam “batalhar”, com direito a efeitos de luz e rugidos e sons de luta próprios de cada criatura.
Há um risco, porém, de o tiro da Lego sair pela culatra e de os pais não gostarem de pagar caro por um brinquedo que, no fundo, tem só uns bipes e barulhinhos a mais.
A receita que manteve a Lego bem-sucedida por tanto tempo é o caráter de pôr a mão na massa dos brinquedos, e não qualquer tecnologia nova embutida neles, diz Dan Klitsner, inventor e consultor de brinquedos, mais conhecido por ter criado o Bop-It em 1996.
“As crianças gostam mesmo de coisas que se mexem e que são físicas”, diz Klitsner. “O importante é que isso não substitua a brincadeira física. Você quer que a tecnologia dê vida a quem está brincando e que dê pra brincar junto. Se o Smart Play conseguir isso, vai durar bastante.”
Num encontro de amiguinhos, meu filho e um colega também apaixonado por Lego montaram uma batalha espacial épica com as naves do Smart Play. Durou uns 30 minutos e foi uma graça de ver. De lá pra cá, ele mal tocou nos conjuntos — que seguem expostos, em lugar de destaque, na prateleira.
Fonte: Invest News












