O impacto nos mercados da guerra no Oriente Médio está longe de se limitar aos combustíveis: com efeitos também sobre o fornecimento de fertilizantes, a guerra pressiona o agronegócio global e deve se alastrar sobre as safras brasileiras. Com a escalada das tensões no fim de semana, o setor volta a temer que a turbulência piore.
A região do conflito é responsável pelo fornecimento de cerca de 20% dos produtos químicos usados na agricultura do mundo inteiro, desafiando principalmente quem depende de importação. O Brasil traz de fora de 85% a 90% dos fertilizantes que usa, segundo estimativas de especialistas no setor, gerando preocupação sobre a inflação de alimentos. E produtores precisam comprar agora os fertilizantes da safra que será plantada no segundo semestre.
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“No curto prazo, o impacto sobre o agronegócio brasileiro se dá principalmente via aumento de custos. A possibilidade de substituição de fornecedores existe, mas é limitada no curto prazo. O mercado global de fertilizantes depende de cadeias logísticas complexas”, explica Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos.
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Dependência por fertilizantes
O protagonismo do Oriente Médio no fornecimento global de fertilizantes como a ureia, enxofre e amônia, se deve à abundância e ao baixo custo de sua principal matéria-prima, o gás natural.
Por meio de reações químicas, as moléculas do gás são quebradas para a extração do hidrogênio, que é combinado sob alta pressão com o nitrogênio retirado do próprio ar atmosférico para sintetizar a amônia, que servirá de base para a fabricação da ureia sólida.
Como os países da região abrigam as maiores reservas de gás natural do planeta, eles conseguem dominar essa cadeia e produzir esses insumos em alta escala e baixo custo. No Brasil, a extração de gás natural tem um custo alto, o que levou ao fechamento das empresas de fertilizantes nacionais, explica Marcello Brito, diretor da FDC-AgroAmbiental.
Aumento de custos no agro e inflação
O fechamento do Estreito de Ormuz compromete o fluxo do fornecimento de fertilizantes, e os produtores já estão de olho no calendário. Segundo Brito, se a passagem abrir em maio, haverá pressão nos custos e preços mais altos na safra do segundo semestre, mas provavelmente não faltará volume. Mas, se não abrir até esse prazo, além dos reflexos nos preços, haverá redução do volume entregue.
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“Embora outros países possam cobrir essa demanda, não será na velocidade e no custo anteriores”, explica o profissional da FDC-AgroAmbiental. “O impacto inflacionário sobre alimentos continuará nos próximos meses, mesmo que o conflito termine, até que os fluxos se regularizem, o que pode levar meses ou até ultrapassar este ano”, afirma. “As commodities como soja, milho e açúcar tendem a subir de preço, mas o custo de produção sobe mais rápido do que o preço de venda, comprimindo as margens”, avalia.
Essa compressão já é medida pelo mercado financeiro. Bruno Fonseca, analista de Fertilizantes e Insumos no Rabobank Brasil, explica como essa conta chega no bolso do agricultor: “O impacto que temos observado no nosso Affordability Index do Rabobank, que mede o poder de compra dos produtores, é uma deterioração deste poder de compra dadas as altas nos preços dos adubos sem que as commodities acompanhem o movimento. Pelo fato de consumir tanto a ureia quanto o fósforo (principais impactados pelo conflito), o produtor de milho tem visto o seu poder de compra diminuir bastante”.
Busca por fornecedor esbarra em protecionismo
Diante desse cenário, o Brasil buscou novos fornecedores, mas o movimento esbarra em um mercado já retraído. “Após o início do conflito na Ucrânia, o Brasil foi bastante hábil em acessar outras fontes para os produtos. Acredito que estes canais continuam ativos e neste momento de oferta reduzida, serão essenciais para garantir o acesso dos produtores brasileiros a esses produtos”, afirma Fonseca. “Mas, infelizmente, no curto prazo, não há muitas alternativas para o Brasil a não ser importar ao preço corrente”, diz o analista.
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A dificuldade se intensifica porque outros parceiros comerciais também estão adotando posturas defensivas. A China, por exemplo, que é fornecedora de fertilizantes para o Brasil, já está fechando os canais de exportação para evitar problemas internos.
“A China, prevendo que poderá haver um desabastecimento, já proibiu a exportação de alguns fertilizantes. Ou seja, garantem o fornecimento interno primeiro. Todo mundo está sofrendo da mesma forma, os impactos são globais”, diz Brito.
Olhando para os dados mais recentes da balança comercial, Andrea destaca que a exportação do Brasil de adubos ou fertilizantes químicos caiu 17,25% no trimestre encerrado em março de 2026, frente ao mesmo período de 2025.
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“Mesmo que o conflito terminasse de forma rápida, uma parcela do aumento de preços já seria inevitável, impulsionada justamente por esse encarecimento imediato da logística e pela forte pressão inflacionária no curtíssimo prazo. Ou seja, o baque inicial já está repassado aos custos”, diz Andrea.
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Gargalos logísticos e o risco de escassez
Mesmo que a passagem marítima seja reaberta definitivamente em breve, há danos estruturais nas zonas de conflito que devem demorar anos para serem revertidos, afetando a oferta global.
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“Diversas instalações e unidades produtivas de petróleo, de gás e de distribuição estão danificadas ou simplesmente destruídas. A reconstrução de toda essa estrutura não acontece do dia para a noite. O exemplo mais emblemático é uma jazida de gás natural no Golfo Pérsico dividida entre o Irã e o Catar. A reconstrução vai levar de 3 a 5 anos. Mesmo que o conflito se encerre agora, você vai ter ainda uma pressão sobre os preços a ser digerida”, avalia Felippe Serigati, coordenador do mestrado profissional em Agronegócio do FGVAgro.
Além disso, o tempo de resposta do comércio exterior não opera na mesma velocidade dos anúncios políticos. Brito explica que os armadores não devem fazer a liberação dos navios bloqueados enquanto não tiverem “certeza absoluta que não tem risco”. Além da complexidade de retirar embarcações que já estão carregadas na região de conflito, é preciso aguardar a chegada e o carregamento de novos navios.
“Não é como nas compras online de aplicativo, que chega no dia seguinte. O produtor lá em Roraima tem que pedir, o navio tem que sair do Oriente Médio com o produto, chegar em Santos ou Paranaguá, subir de caminhão… é uma logística complexa que leva meses para acontecer”, diz. Para ele, não há expectativa de regularização dos fluxos normais de abastecimento no curto prazo.
Fonte: Info Money













