Quando os mercados de previsão (prediction markets) ainda eram pouco mais do que uma ideia em Wall Street, a cofundadora da Kalshi, Luana Lopes Lara, encontrou inspiração em um lugar improvável: o ventre de Kylie Jenner.
Era o início de 2018, e a internet fervilhava com especulações sobre uma possível gravidez de Jenner, a estrela de reality show que havia se tornado fundadora de uma marca de cosméticos. Lopes Lara fazia estágio na Five Rings, uma firma de trading de Nova York, onde aprendia a arte de formar mercados. Ela perguntou aos colegas o que achavam daquele burburinho — percebendo ali uma oportunidade para criar uma aposta diferente —, mas nenhum dos outros estagiários sequer tinha ouvido falar de Jenner.
“Eu era a única pessoa dizendo: ‘Meu Deus, acho que ela está grávida. Olhem essas coisas no Instagram’”, disse Lopes Lara em entrevista no escritório arejado e de paredes brancas da Kalshi, em Manhattan. “Eu pensava: ‘Quero apostar com vocês nisso’.” Jenner, de fato, estava grávida, informação que foi mantida em segredo até depois do nascimento da filha.
Aquele momento ficou com Lopes Lara — não pela fofoca, mas pela ideia de que milhões de pessoas poderiam estar formando convicções fortes sobre resultados incertos, sem ter onde colocar essa convicção.
Isso ajudou a definir sua trajetória profissional e levou Lopes Lara a fundar a Kalshi com seu colega de faculdade, Tarek Mansour, ainda naquele ano. Aos 30 anos, ela é hoje uma das mulheres mais jovens do mundo a se tornar bilionária por conta própria, com patrimônio estimado em US$ 2,6 bilhões. O que a move é uma visão segundo a qual deveríamos, essencialmente, poder apostar em qualquer coisa.
Como diretora de operações da Kalshi, boa parte do negócio está sob responsabilidade de Lopes Lara. Ela supervisiona engenharia, listagem de mercados e parceiros de liquidez, entre outras áreas, além de entrevistar a maioria dos novos contratados. Pode soar como rotina normal para a COO de uma startup, mas a Kalshi cresceu em ritmo acelerado no último ano, à medida que os mercados de previsão ganharam popularidade. Ao mesmo tempo, também passou a enfrentar uma forte reação política e regulatória.
A Kalshi foi avaliada em US$ 22 bilhões em sua rodada de captação mais recente, o dobro da avaliação atribuída por investidores em dezembro. A empresa tem 150 funcionários, ante apenas 35 um ano atrás.
Na mesma velocidade em que a Kalshi cresceu, suas controvérsias se acumularam. Quase todas derivam da sensação, compartilhada por uma parcela relevante de parlamentares, clientes e observadores atentos, de que a Kalshi e sua principal rival, a Polymarket, estão fazendo algo errado.
Alguns críticos dizem que permitir apostas em determinados eventos — como acordos comerciais internacionais, quem concorrerá a cargos públicos ou até quem comparecerá ao Super Bowl — abre espaço demais para que pessoas com informação privilegiada lucrem. Outros apontam questões éticas em torno da negociação de temas como guerra ou morte, ainda que nenhum dos dois seja explicitamente permitido na Kalshi.
Em fevereiro, com a eclosão da guerra no Irã, um mercado da Kalshi que acompanhava as chances de Ali Khamenei ser afastado do posto de líder supremo do país começou a disparar. Ele havia sido morto em um bombardeio, mas, em vez de encerrar o mercado como “Sim”, a Kalshi o congelou. Tecnicamente, a morte dele tornava o contrato inválido. Enquanto isso, a Polymarket enfrentava acusações de facilitar operações com informação privilegiada.
Nada disso pegou bem para o setor.
“É sempre muito estressante ler essas coisas”, disse Lopes Lara ao ser questionada sobre a reação dos clientes. “Foi aí que realmente falhamos. Não falhamos no desenho do mercado, não falhamos nas regras. Falhamos em deixar isso absolutamente claro para as pessoas.”
No fim, a Kalshi prometeu melhorar a forma como comunica suas regras em casos de morte e reembolsou todas as taxas e perdas líquidas relacionadas ao mercado de Khamenei, num total de US$ 2,2 milhões.
O domínio da empresa nos mercados esportivos também passou a ser alvo de escrutínio, à medida que apostadores comuns entraram na plataforma.
As apostas esportivas responderam por cerca de 80% do volume negociado em contratos de eventos da Kalshi nos últimos dias, quando incluídas apostas combinadas com múltiplos componentes, segundo um porta-voz da empresa. O número reflete não apenas a popularidade crescente da plataforma, mas também a demanda gerada por rivalidades intensas em ligas de futebol americano, beisebol, basquete e futebol.
A Kalshi movimentou um recorde de US$ 17,9 bilhões em volume nocional total negociado no mês passado, segundo dados compilados por usuários na Dune Analytics.
“O que antes estava limitado a um punhado de localidades agora está disponível em quase todos os cantos do país — muitas vezes diretamente no celular”, disse a senadora republicana Marsha Blackburn, do Tennessee, em uma audiência no Senado em 20 de maio sobre a indústria da Kalshi. “Embora os mercados de previsão representem inovação financeira em vários setores, há preocupações reais de que eles funcionem de maneira muito parecida com as apostas esportivas tradicionais, sem a fiscalização de reguladores estaduais e procuradores-gerais.”
Madrugadora
Lopes Lara cresceu no Brasil e treinou como bailarina antes de seguir carreira nos negócios. Naquela época, media a comida que consumia até a fração de um quarto de morango, contou certa vez à Bloomberg Radio. Hoje, continua em boa forma, mas sua dieta é muito menos restritiva: um bowl de steak do Chipotle está entre suas comidas favoritas, com arroz, queijo, sem feijão, e chips quebrados por cima.
Ela fazia esse pedido com frequência quando a Kalshi travava uma disputa com seu regulador, a Commodity Futures Trading Commission, durante o governo Biden. A CFTC havia contestado a possibilidade de a Kalshi oferecer contratos ligados a disputas eleitorais para o Congresso, o que levou a empresa a processar o órgão em 2023. A Kalshi venceu o caso a tempo da eleição de 2024.
A Casa Branca de Trump tem sido mais favorável, mas a Kalshi ainda enfrenta embates legais em pelo menos 19 Estados que contestaram seu direito de oferecer apostas esportivas e outros produtos a seus moradores. No Arizona, isso resultou em acusações criminais contra a empresa.
Segundo Lopes Lara, a Kalshi não tem medo de levar essas disputas judiciais até a instância máxima.
“Se tiver que ir para a Suprema Corte, pode ir para a Suprema Corte”, disse ela em um evento da empresa em março. “Estamos muito, muito confiantes de que estamos certos e não há problema nenhum nisso. Também não somos estranhos a processos.”
Lopes Lara planeja celebrar seu casamento na Islândia no ano que vem. Ela tem uma golden retriever chamada Lola, a quem é muito apegada, e segue religiosamente uma rotina diária descrita assim: acorda às 5h45, passa uma hora na academia e depois trabalha no escritório da Kalshi, no Meatpacking District, em Nova York, até 22h ou 23h.
Colegas dizem que seu uniforme no escritório é casual: muitas vezes roupas com a marca da Kalshi, às vezes uma camiseta para fãs de história de um site chamado Echos of Antiquity, e tênis. Ela raramente usa maquiagem e diz que não tem bolsa de grife.
O escritório em si é salpicado de piadas internas e referências à presença crescente da Kalshi na cultura popular e entre celebridades. Há uma foto emoldurada dos atores Eddie Murphy e Dan Aykroyd no filme “Trading Places”, de 1983, em alusão a uma regra mais recente que proíbe negociação com informação privilegiada. Em outro ponto, há uma imagem de um episódio de “South Park” que retrata os mercados de previsão como corruptos, mas também reflete uma espécie de zeitgeist em torno da indústria na cultura pop.
Um vídeo feito do lado de fora do Madison Square Garden que viralizou recentemente durante as finais da NBA — em que um torcedor diz: “Meu prefeito é muçulmano. Meus bagels são judeus. Meu Christian Dior. Knicks em quatro!” — foi falado em um microfone com a marca da Kalshi. A Kalshi fechou recentemente um acordo de vários anos com a arena, assumindo o saguão do sexto andar. E o atual namorado de Jenner, o ator Timothée Chalamet, é um torcedor devoto dos Knicks que acaba de assinar seu próprio contrato publicitário com a Kalshi. Os dois têm sido vistos sentados na primeira fila, torcendo pelo time da cidade dele.
Tudo isso faz parte de um plano ambicioso para que a Kalshi se torne um nome presente nas conversas cotidianas de mais pessoas, em vez de uma startup fazendo coisas incomuns. Seu nome significa “tudo” em árabe.
“Meu papel na empresa é nos empurrar para fazer as coisas, ir rápido, pegar o que pudermos e crescer o máximo que pudermos”, disse Lopes Lara.
Aluna da primeira fila
Lopes Lara lançou a Kalshi ao lado de Mansour, presidente-executivo da empresa, durante um hackathon do Vale do Silício. Os dois se conheceram enquanto cursavam engenharia no Massachusetts Institute of Technology, onde se tornaram inseparáveis, segundo um de seus professores.
“Ela se sentava na primeira fila em todas as aulas”, disse Peter Kempthorne, que ensinou estatística aos dois. “Com muitos alunos do MIT, pode acontecer de eles não se envolverem nas aulas, mas ela estava totalmente engajada em aprender o máximo que pudesse.”
Segundo Kempthorne, Lopes Lara se concentrava em como poderia aplicar novas tecnologias, como machine learning, a ideias estatísticas clássicas. Mais tarde, ela e Mansour estreitaram laços em estágios juntos, incluindo passagens pela Five Rings e depois pela Citadel, onde o hedge fund ofereceu uma sessão de treinamento de duas horas sobre mercados de previsão.

“Vimos todos os aspectos e lados dos mercados de previsão de que gostávamos”, disse Lopes Lara. “Esse foi apenas um dos motivos pelos quais decidimos dizer: ‘vamos largar nossos empregos extremamente bem pagos e tentar fazer isso’.”
Ao que tudo indica, eles são pessoas muito diferentes. Enquanto Mansour costuma ser o rosto público da Kalshi — reunindo-se com investidores, aparecendo na TV ou circulando entre formuladores de política pública —, é Lopes Lara quem toca a empresa nos bastidores. Suas tarefas diárias variam bastante, embora ela passe muito tempo com a equipe de mercados revisando as apostas que a Kalshi escolhe listar e avaliando como tornar a operação mais eficiente.
A Kalshi tem mais de 500 modelos de apostas já trabalhados por essa equipe. Eles refletem as próprias previsões da bolsa sobre tudo o que pode acontecer no mundo.
Essas previsões então geram contratos regulados vinculados a resultados específicos. A empresa revisa constantemente pedidos de usuários e monitora plataformas de redes sociais em busca de novos temas. Também usa um modelo de inteligência artificial desenvolvido internamente para agregar as principais notícias do dia, analisar concorrentes e fazer outras recomendações.
“Pensamos nos mercados quase como uma fábrica”, disse Lopes Lara. Ela planeja contratar mais 50 pessoas até o fim do ano, observando que, “hoje em dia, com IA, cada engenheiro vale por cinco”.
Novos negócios
Lopes Lara tem alguns objetivos centrais à medida que a Kalshi continua crescendo e se desenvolvendo. A empresa tem uma base fiel de usuários de varejo — cerca de 2 milhões —, mas precisa avançar no mercado institucional e também fora dos Estados Unidos.
A próxima grande atualização será a negociação com margem, que a Kalshi espera lançar ainda este ano. Esse produto, combinado ao novo esforço de negociação em bloco, é voltado diretamente a grandes operadores que trabalham em hedge funds, empresas e outras entidades profissionais.
A expansão internacional é mais difícil.

A primeira iniciativa internacional da Kalshi teve foco no Brasil, por meio de uma parceria com a corretora local XP Inc. anunciada em março. No mês seguinte, o governo brasileiro decidiu proibir o acesso a sites de mercados de previsão por preocupações com apostas ilegais. A recepção tem sido parecida em muitos outros países, onde governos concluíram que mercados de previsão não são uma inovação na negociação de derivativos financeiros — como dizem seus donos —, mas apostas, pura e simplesmente.
Lopes Lara se reúne com a equipe jurídica da Kalshi toda semana para examinar estratégias e resultados. A Kalshi jamais pedirá uma licença de apostas, disse ela, mesmo que isso permitisse acesso a mercados importantes dos quais hoje está restrita, como o Reino Unido e partes da Europa.
“Queremos ter uma bolsa e uma câmara de compensação centrais que concentrem toda a liquidez”, disse ela. Mercados fragmentados, em que traders só podem ser pareados com outros de sua região, estão fora de cogitação.
Laços com Jay-Z
A Kalshi sem dúvida tem amigos em lugares altos ajudando a abrir caminho.
Donald Trump Jr. é conselheiro da empresa, embora Lopes Lara destaque que o filho do presidente não participa de nenhuma discussão regulatória. Há também Jay-Z, o músico e empresário, que é conselheiro e investidor por meio da MarcyPen, firma de venture capital que ele cofundou. Seus laços com a Kalshi ainda não haviam sido noticiados.
Quando Jay-Z visitou os escritórios da empresa no início deste ano, funcionários pediram conselhos sobre mercados da Kalshi relacionados à música, disse Lopes Lara.
Embora ela própria não possa negociar na Kalshi por causa das regras da empresa, Lopes Lara às vezes imagina como faria isso. Ao planejar um casamento ao ar livre, por exemplo, uma de suas primeiras ideias foi criar um mercado sobre se choveria naquele dia.
“Podemos planejar tudo isso do lado de fora, mas começa a chover, você move para dentro e gastou todo esse dinheiro com a estrutura externa”, disse ela. “À medida que os mercados de previsão se tornarem mais populares e as pessoas os aceitarem e entenderem, veremos muito mais desses usos.”
Fonte: Invest News












