Como a maior Copa da história criou uma espiral de preços abusivos

A Copa do Mundo que começa em junho na América do Norte deveria ser a edição mais espetacular do esporte mais popular do planeta. Prometia 48 seleções inéditas em 16 cidades, disputando 104 jogos do porte de um Super Bowl [talvez nem tanto em casos como Qatar X Bósnia ou Curaçao X Equador].

Isso significou a criação repentina de um mercado gigantesco: mais de 6 milhões de ingressos. Os torcedores ficaram no escuro sobre quanto pagariam ou quantos bilhetes teriam à disposição. Mas uma coisa logo ficou clara: estavam prestes a viver a Copa mais cara da história.

Quase todos os ingressos para a maior parte dos jogos começam na casa das centenas de dólares e chegam aos milhares. E o principal vilão tem sido o uso de preços dinâmicos, baseados na demanda, pela FIFA — uma variável que tornou a compra de ingressos estressante e imprevisível.

A enxurrada de queixas de torcedores foi tanta que, na quarta-feira (27), os procuradores-gerais de Nova York e de Nova Jersey intimaram a FIFA, exigindo que ela abra o jogo sobre suas práticas de venda.

“Ninguém deveria ser manipulado a pagar valores estratosféricos por um assento, e os torcedores precisam ter a garantia de que vão receber exatamente os ingressos que compraram”, disse a procuradora-geral de Nova York, Letitia James.

A FIFA não quis comentar as intimações.

Para quem conhece a FIFA, o preço deste torneio era previsível. Desde que a sede foi entregue a Estados Unidos, Canadá e México em 2018 — com três quartos dos jogos nos EUA —, a entidade enxerga o país como uma galinha dos ovos de ouro.

O poder de compra da nação mais rica do mundo só cresceu desde a Copa de 1994, e o apetite americano por eventos premium disparou no pós-pandemia. A FIFA chegou pronta para esse momento lucrativo. Na preparação para o torneio, adotou uma abordagem radicalmente diferente para gerar e usar receita.

Há não muito tempo, a FIFA mantinha os ingressos da Copa em preços razoáveis, pensando no torcedor raiz. Agora, está usando o coquetel poderoso de uma Copa em solo americano para encher o cofre com dinheiro que pretende redistribuir aos seus 211 países-membros.

A meta declarada da FIFA é faturar US$ 11 bilhões (R$ 55 bi) — recorde absoluto.

“A FIFA tirou a Copa do torcedor comum e está vendendo para quem pagar mais”, disse Davie Hood, escocês que desembolsou US$ 1,8 mil (R$ 9 mil) por três ingressos, um para cada jogo da fase de grupos da Escócia. Ou seja: R$ 3 mil por assento.

E isso foi só o começo da conta. Hood e milhares de outros torcedores escoceses ficaram tão chocados com o preço da hospedagem em Boston que reservaram quartos em Providence, em Rhode Island. Também contrataram uma frota de ônibus escolares para chegar ao estádio em Foxborough, Massachusetts — para escapar dos US$ 95 (R$ 475) cobrados por pessoa em um ônibus especial saindo de Boston.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, diz que a entidade apenas cobrou o que o mercado está disposto a pagar. Segundo ele, é melhor abocanhar essa receita do que deixá-la nas mãos de cambistas. A FIFA afirma já ter vendido 90% dos cerca de 6 milhões de ingressos disponíveis.

Com essa grana, a FIFA prevê distribuir um recorde de US$ 2,7 bilhões (R$ 13,5 bi) pelo mundo nos próximos quatro anos. O valor cresceu oito vezes na década em que Infantino comanda a entidade — e não há dúvida de que essa generosidade consolidou seu poder. O presidente da FIFA é eleito a cada quatro anos pelas 211 associações-membro, cada uma com direito a um voto. Infantino pretende disputar a reeleição no ano que vem.

“A FIFA está apenas cumprindo seus objetivos estatutários, que é investir no desenvolvimento do futebol”, afirmou um porta-voz da entidade. “Qualquer alegação em contrário é infundada.”

Diante do clamor global pelos preços, a FIFA anunciou no fim do ano passado que reservaria uma cota de ingressos a US$ 60 por jogo. Eles foram distribuídos às federações de cada país-participante, para serem repassados aos torcedores mais fiéis. Mas a oferta é minúscula: apenas mil por jogo, ou 104 mil no total — dos 6 milhões disponíveis.

E, a menos de duas semanas do pontapé inicial, sinais de alerta começaram a aparecer para o comércio local, que esperava um boom. Dezenas de partidas ainda têm assentos à venda. Os preços de jogos menos cobiçados caíram, e muitos turistas simplesmente não apareceram.

Cerca de 80% dos hoteleiros das cidades-sede afirmaram que as reservas estão abaixo das projeções iniciais, segundo pesquisa recente da American Hotel and Lodging Association. Complica o cenário o fato de esta ser a Copa mais espalhada da história, com sedes que vão de Vancouver a Boston e Cidade do México.

Os hoteleiros “começaram a ficar com um pé atrás” quando perceberam o tamanho do deslocamento que os torcedores teriam que fazer para acompanhar seus times, disse Steve Nicholas, sócio-diretor da Noble Investment Group, que tem hotéis em sete cidades-sede americanas. (A Alemanha, por exemplo, joga a fase de grupos em Houston, Toronto e Nova Jersey.)

Barreiras de visto e tensões geopolíticas também estão “derrubando significativamente” a demanda internacional, segundo a associação hoteleira.

Na esfera municipal, os contratos da Copa jogam quase toda a conta financeira no colo dos organizadores locais, com pouca ajuda da FIFA. Resultado: uma alta generalizada de preços para cobrir custos. Nenhum caso gerou mais revolta do que o do bilhete de trem de Nova York ao MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey: o valor saltou de US$ 12,90 para US$ 150 nos dias de jogo, antes de as autoridades cederem e baixarem para US$ 98.

“A FIFA trabalhou de forma colaborativa com as cidades-sede para reduzir custos e dar flexibilidade, inclusive dispensando certas obrigações de organização”, afirmou um porta-voz da entidade.

Em 1994, era a própria FIFA que segurava as rédeas. O então presidente da Federação Americana de Futebol, Alan Rothenberg, à frente da organização local da Copa, havia proposto vender todos os ingressos da final no Rose Bowl por US$ 1.000 — e a FIFA pisou no freio.

“Eles disseram que não queriam chatear os torcedores”, contou Rothenberg.

Desta vez, alguns americanos já se conformaram com a sangria.

“É uma oportunidade única em uma geração para eles faturarem o máximo possível”, disse Ray Loyola, torcedor da região de Seattle que gastou US$ 3 mil (R$ 15 mil) em quatro ingressos para o jogo EUA x Austrália em 19 de junho.

“Mas isso não torna a coisa mais fácil de engolir.”

Escreva para Rachel Bachman em Rachel.Bachman@wsj.com

Traduzido do inglês por InvestNews

Fonte: Invest News

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