Com a demanda global por cobre em forte expansão, uma das maiores mineradoras do mundo enfrenta uma situação delicada.
A estatal chilena Codelco, por muito tempo a espinha dorsal da indústria de mineração do Chile e uma fonte crucial de receitas para o governo, luta para administrar uma dívida de US$ 25 bilhões e o menor nível de produção em 28 anos. A empresa também enfrenta uma série de controvérsias, entre elas um acidente fatal e investigações sobre números de produção inflados.
Essas dificuldades aumentaram a preocupação de que o modelo da Codelco não esteja conseguindo capturar os benefícios dos preços do cobre próximos de máximas históricas, impulsionados pela inteligência artificial e pela transição energética, que elevam o consumo do metal. Também reacenderam um debate que, há poucos anos, seria praticamente impensável: a Codelco precisa abandonar suas ambições de crescimento e abrir mais espaço para o capital privado?
A questão ganhou ainda mais urgência desde que o conservador de linha-dura José Antonio Kast assumiu a Presidência do Chile no início deste ano, marcando a guinada mais acentuada à direita desde a ditadura de Augusto Pinochet, meio século antes.
Mesmo no novo governo chileno, poucos políticos defendem a desnacionalização da Codelco, o que torna improváveis mudanças radicais. Criada na década de 1970, quando o Chile tomou o controle de grandes minas de empresas americanas, a Codelco tornou-se um símbolo da soberania econômica do país. A companhia ocupa hoje um lugar quase sagrado na história política chilena, tendo sobrevivido à onda de privatizações promovida durante o regime de Pinochet.
Mas, com o mercado de cobre caminhando para um enorme déficit de oferta, formuladores de políticas públicas e representantes da indústria discutem formas de reformular a mineradora para reduzir o endividamento e melhorar os retornos. As alternativas vão da venda de ativos e redução de investimentos à ampliação de joint ventures e do compartilhamento de infraestrutura. Se o Chile não agir, a Codelco corre o risco de perder grande parte de um aumento histórico da demanda por cobre que levou os preços do metal a níveis recordes.
“Sem cobre, não há IA, aparelhos de ar-condicionado, veículos elétricos nem economia moderna”, afirmou em entrevista no mês passado o bilionário do setor de mineração Robert Friedland, cuja I-Pulse Inc. começou recentemente a trabalhar com a Codelco em uma nova tecnologia para britagem de rochas. “A Codelco continua extremamente importante.”
O escrutínio sobre a Codelco se intensificou ao longo do último ano.
No fim de julho de 2025, um desmoronamento em El Teniente, a mina mais lucrativa da Codelco, matou seis trabalhadores no acidente de mineração mais fatal do Chile em décadas e interrompeu as atividades em áreas-chave do projeto de expansão.
Uma auditoria interna encontrou “inconsistências e ocultação” em relatórios técnicos relacionados a uma ruptura ocorrida na mesma mina dois anos antes, o que levou ao afastamento de três executivos. Promotores e órgãos reguladores investigam se essas falhas de comunicação em 2023 comprometeram a supervisão dos riscos antes do desmoronamento fatal do ano passado.
A Codelco também enfrenta diversas investigações sobre números de produção inflados que permitiram à empresa atingir metas de produção. Uma revisão interna revelou que a mineradora havia superestimado a produção de cobre de 2025 em quase 27 mil toneladas métricas, o equivalente a cerca de 2% do volume produzido.
Os escândalos deram novo impulso ao debate de longa data sobre a necessidade de uma reforma mais profunda da Codelco.
O caso da supercontagem da produção coincidiu com a chegada do presidente do conselho Bernardo Fontaine, economista e empresário nomeado por Kast em maio. Fontaine e ministros do alto escalão fizeram críticas incomumente duras ao desempenho da Codelco sob o comando do ex-presidente do conselho Máximo Pacheco e prometeram reformular as operações, as finanças e a governança corporativa da empresa.
Ao comentar a superestimação da produção que resultou no pagamento de bônus, o ministro da Economia e Mineração, Daniel Mas, afirmou que a companhia está “fora de controle”, declaração que provavelmente gerou preocupação entre parceiros do setor privado e detentores de mais de US$ 20 bilhões em títulos internacionais.
Leia mais:Como uma crise do cobre se aproxima justamente quando a inteligência artificial explode: Análise Rápida
O debate evidencia os desafios enfrentados pela indústria chilena de cobre, cuja produção está estagnada apesar de mais de US$ 100 bilhões em investimentos em mineração na última década, segundo estimativas do Conselho de Mineração do país. Os problemas da Codelco surgem em um contexto de aumento da dívida pública e persistência de déficits fiscais no Chile, reduzindo a capacidade do governo de sustentar as necessidades de investimento da companhia.
Essas limitações têm impacto muito além do Chile. Segundo a BloombergNEF, a diferença entre a demanda e a produção de cobre deve aumentar para 7 milhões de toneladas até 2035.
O rápido crescimento da demanda também esbarra na queda do teor de minério, no envelhecimento das minas e na escassez de novos projetos. O Chile exemplifica esse desafio, segundo Kwasi Ampofo, chefe de metais e mineração da BloombergNEF (BNEF).
Com base no modelo de oferta de longo prazo da BNEF, a produção chilena deverá cair de cerca de 5,4 milhões de toneladas atualmente para aproximadamente 4,2 milhões de toneladas até 2050, à medida que as minas existentes se esgotam. A Codelco está particularmente exposta porque suas minas estão cada vez mais profundas e complexas, exigindo investimentos de capital mais elevados.
Os teores de minério da companhia — indicador da quantidade de metal contida na rocha extraída — estão diminuindo, elevando os custos e reduzindo o volume de cobre que pode ser recuperado. A Codelco produz cobre a um custo mais de 50% superior à média das três maiores mineradoras globais do metal. Ao contrário de outras grandes produtoras, a estatal permanece fortemente concentrada em um único país.
Ao mesmo tempo, a demanda por cobre proveniente da inteligência artificial, dos data centers e do setor de defesa deve praticamente triplicar até 2040, acrescentando, em conjunto, 4 milhões de toneladas métricas de demanda anual, segundo um estudo da S&P Global.
Além disso, o consumo pode aumentar após a guerra entre EUA e Irã, à medida que o aumento das tensões geopolíticas reforça os investimentos em eletrificação, energias renováveis, inteligência artificial e defesa, escreveram analistas do Goldman Sachs Group Inc., entre eles Samantha Dart, em relatório enviado a clientes no mês passado.
“Consideramos que os investimentos nas envelhecidas redes elétricas do Ocidente são uma prioridade de segurança nacional, devido ao papel crítico que desempenham para a inteligência artificial e a segurança energética”, afirmaram.
O Chile continua sendo o maior produtor mundial de cobre, mas sua participação na produção global caiu de mais de um terço em meados dos anos 2000 para menos de um quarto atualmente. No centro desse declínio está a Codelco, cuja produção permanece cerca de 30% abaixo do nível projetado há duas décadas.
Os indicadores de endividamento da companhia estão entre os piores do setor, embora a empresa conte com o respaldo do Estado e seja classificada pela S&P Global Ratings como grau de investimento. Enquanto o Chile debate como revitalizar sua campeã nacional, o desfecho ajudará a determinar se o mundo conseguirá colocar no mercado oferta suficiente de cobre para atender à demanda.
Fonte: Invest News












