Aegea deixa IPO para 2027 após revisão de balanços e tenta reconstruir confiança

Tecnicamente, está certa: não houve impacto em caixa, nem quebra de covenants – cláusulas de dívida que obrigam o cumprimento de metas financeiras, sob risco de antecipação do pagamento.

Mas, na prática, o episódio mexe com algo mais difícil de reconstruir: a confiança. E isso deverá reordenar os próximos passos da companhia, começando pelos planos de uma oferta pública inicial de ações (IPO) ainda neste ano.

A reapresentação dos balanços financeiros, dizem os executivos da Aegea, envolveu uma mudança profunda na forma de reconhecer receitas, provisões e despesas financeiras, aproximando os números contábeis da geração de caixa.

O efeito foi imediato: lucro menor, patrimônio reduzido e uma leitura mais conservadora da rentabilidade. No consolidado, o lucro líquido de 2024 caiu de R$ 2,4 bilhões para R$ 1,8 bilhão, uma redução de quase R$ 600 milhões, enquanto o patrimônio líquido encolheu cerca de R$ 5 bilhões, para R$ 6,4 bilhões.

Não se trata de um ajuste trivial. Revisar cinco anos de resultados é, por definição, admitir que a fotografia anterior não refletia com precisão o desempenho econômico do negócio. Sem usar esse termo, a própria companhia reconheceu a necessidade de reforçar controles e melhorar a qualidade das informações financeiras.

“Com o crescimento acelerado, a complexidade da operação aumentou e exigiu uma evolução mais rápida dos nossos processos e controles internos”, afirmou André Pires Dias, CFO da Aegea, em uma indicação de que a estrutura da empresa não acompanhou o ritmo de expansão.

Embora não diga diretamente, a revisão dos balanços teria ocorrido por exigências da auditoria, a KPMG, durante a preparação das informações para um potencial IPO. Só que esse processo de reset contábil acabou ganhando uma dimensão maior do que a companhia previa.

O resultado foi um atraso na divulgação dos números e um abalo na confiança de investidores, justamente no momento em que a empresa buscava se aproximar do mercado. 

Esse movimento já começou a aparecer nos preços: debêntures da companhia passaram a ser negociadas com prêmios significativamente maiores no mercado secundário, enquanto bonds no exterior chegaram a cair para cerca de 73% do valor de face, refletindo a piora na percepção de risco. 

Em paralelo, Fitch e S&P cortaram a nota de crédito da empresa, o que deve encarecer o custo de captação de dinheiro da Aegea no mercado.

Efeitos

Sob este cenário, o IPO, que já vinha sendo tratado como “opcional” neste ano, tende a ficar ainda mais distante. Embora a companhia mencione 2027 como um horizonte possível, a prioridade agora passa a ser reconstruir a credibilidade das informações financeiras e estabilizar a percepção de risco – dois pré-requisitos básicos para qualquer tentativa de listagem.

O episódio também deve pressionar a avaliação de crédito da companhia, elevando o custo de captação. O impacto mais imediato, aliás, tende a aparecer justamente no custo de capital.

Mesmo sem efeitos sobre o caixa, a revisão deve aumentar a percepção de risco por parte de credores e investidores, o que pode se traduzir em dívida mais cara. Isso tem implicações diretas para a estratégia da Aegea, que depende da emissão de dívida para competir em leilões e expandir sua carteira de concessões.

Movimentos como uma eventual participação na privatização da Copasa, por exemplo, passam a depender de uma equação mais delicada entre dívida e capital próprio.

Antes da revisão, a companhia já indicava a necessidade de manter a alavancagem em torno de 3 vezes o resultado operacional (Ebitda) e de buscar alternativas de capitalização para disputar ativos mais intensivos em investimento. 

Hoje, esse indicador está em 3,78 vezes, ante 2,96 vezes um ano antes, encostando no limite que a própria empresa considera confortável e mais próximo dos covenants de dívida, que é de 4 vezes o Ebitda.

Esse processo já havia começado no início do ano, quando a Aegea levantou cerca de R$ 1,2 bilhão junto aos acionistas, com destaque para o fundo soberano de Singapura (GIC), que ampliou sua participação. À época, a capitalização foi apresentada como suficiente para “equacionar” a estrutura de capital.

À luz dos eventos recentes, porém, o aporte ganha uma nova leitura: mais do que preparar a empresa para crescer ou acessar o mercado, pode ter funcionado como um reforço preventivo diante de ajustes que ainda não eram públicos.

Embora a revisão seja negativa, a Aegea segue com sócios fortes — além do GIC, há também Itaúsa e Equipav — e continua sendo a maior companhia privada de saneamento do país, com histórico agressivo em leilões e crescimento relevante nos últimos anos.

Superado o impasse sobre o balanço, a prioridade agora passa a ser convencer investidores de que os números, enfim, contam a história completa.

Fonte: Invest News

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