Na despensa de um prédio de apartamentos em Havana, de frente para o mar, alguém havia pintado na parede um dos raros sinais de dissidência visíveis em qualquer lugar de Cuba. Poderíamos imaginar a mão que fez isso tremendo de ansiedade e pressa. O manifestante escolheu um estratagema para se proteger no momento da acção: desenhou os dois caracteres chineses para a palavra “liberdade”, tal como os manifestantes pró-democracia de Hong Kong os tinham proclamado e escrito na sua resistência ao domínio da China. A referência passou despercebida aos olhos sempre atentos dos censores cubanos. Em duas semanas de viagem pela ilha, não houve muitos outros sinais tão claros nas suas intenções.
A vigilância constante de vários agentes, uns mais discretos que outros, dificulta qualquer forma de intercâmbio com os cubanos. Esses agentes estão sempre vigilantes e prontos para intervir. Na verdade, a sua presença tornou-se uma característica absoluta da vida quotidiana do país. Assim, ao sair da capital, pela estrada que acompanha o litoral, aquela palavra “liberdade” soava estranha, como um grito estrangulado. Muitas pessoas confessaram o seu medo de falar em público, ou mesmo de falar abertamente, inclusive quando faziam críticas honestas e fundamentadas ao Partido Comunista durante estes tempos de colapso nacional.
Partindo de Havana de bicicleta, procurámos descobrir o estado de uma nação no meio de uma crise histórica, com um quarto da sua população a fugir voluntariamente em menos de cinco anos. Ao mesmo tempo, todo o peso do gigante americano, com a intenção de lhe fazer mal, pressiona Cuba como um urso pardo sentado no seu pescoço.
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Fonte: Le Monde











