As rodadas secundárias ainda têm um estigma no Brasil. Diferentemente das primárias, onde os investimentos vão integralmente para o caixa da startup, nas secundárias os sócios e fundadores embolsam parte do dinheiro – e com isso, há quem acredite que os fundadores possam perder o mesmo empenho de antes. Contudo, segundo os fundadores de duas startups que lideraram algumas das maiores rodadas nacionais nos últimos anos, esse estigma não poderia estar mais errado.
“É um daqueles assuntos do mercado em que o pensamento de muitos chega a ser contraintuitivo. Eles pensam que, quando o fundador faz a secundária e põe o dinheiro no bolso, ele vai ‘largar a mão’. Na verdade, o que acontece é o contrário”, disparou o CEO da Omie, Marcelo Lombardo, em painel durante o South Summit Brazil, em Porto Alegre.
“À medida que você constrói uma empresa e ela começa a ficar mais e mais relevante, 99,9% do seu patrimônio está em ações dessa empresa, e isso pode tornar o fundador mais conservador nas suas decisões, porque você está com todos os ovos na mesma cesta. Você pode ter menos coragem de tomar, às vezes, as medidas necessárias ou duras para continuar colocando a sua empresa no caminho do crescimento. Então, uma secundária pode ser do interesse do próprio investidor”, completa o executivo.
Em setembro, Marcelo participou da maior rodada de uma startup brasileira em 2025, quando a Omie levantou US$ 150 milhões em um deal liderado pelo fundo suíço Partners Group, que fez um aporte secundário de US$ 100 milhões por 15% no negócio. Foi a segunda venda secundária na história da companhia.
Na visão de Pedro MacDowell, fundador e CEO da QI Tech, a empresa abordou o momento da secundária de forma bem pragmática e alinhada com o seu “DNA de fintech”. Segundo o fundador, a rodada só veio depois que a empresa começou a gerar resultados. A empresa já operava no breakeven depois de um ano de operação e, quando chegou ao patamar de unicórnio em 2024, já era mais do que lucrativa.
“Nenhum fundador sério monta uma empresa somente com o dinheiro em mente. Todo empreendedor tem o sonho de construir algo e ver aquilo dando certo. A secundária nada mais é do que uma oportunidade de reduzir um pouco do meu risco e ter segurança. Eu não preciso ter 100% do meu capital alocado na empresa para estar comprometido com ela”, pontua.
Continua depois da publicidade
Segundo Pedro, contar com fundos gringos (e mais acostumados com esse tipo de transação), como a General Atlantic e o Fundo Soberano de Cingapura (GIC), também ajuda. “São fundos que sabem negociar, alinhar expectativas e manter o engajamento”, afirma.
As afirmações dos executivos encontram respaldo em um estudo recente divulgado pela Spectra. De acordo com o report, em 82% dos casos, a venda de uma fatia secundária representa menos de 10% da participação do fundador da startup. Na prática, é um percentual pequeno, o que mantém o empreendedor alinhado com as metas de longo prazo.
“Os fundadores não fazem venda de uma fatia apenas pelo dinheiro. É um mix de preço atrativo, alinhamento estratégico e desejo de paz financeira”, diz a consultoria em seu levantamento.
Continua depois da publicidade
Alinhamento e longo prazo
Outro ponto trazido por Marcelo Lombardo foi o das stock options. Segundo o CEO da Omie, cerca de 20% a 30% do quadro da companhia tem participação no negócio, e isso serve como um mecanismo valioso de alinhamento e motivação dos colaboradores, especialmente em posições de liderança.
“Em todo evento de liquidez, uma parte é reservada para distribuir entre os funcionários que têm ações”, afirma o executivo. “Fazemos também reuniões periódicas comunicando sobre o valor das ações que cada um possui. Isso reforça o valor das ações, motiva o time e retém talento”, avalia.
No fim das contas, tanto para Pedro quanto para Marcelo, tudo se resume a um jogo de longo prazo. Aliás, segundo o CEO da Omie, quem pensa em um exit logo na primeira oportunidade está no ramo errado.
Continua depois da publicidade
“Se você está construindo uma empresa pensando no exit, coisas horríveis vão acontecer, antes ou depois da sua saída. Você tem que criar uma empresa com o objetivo de trazer valor para seu cliente, gerar um produto sólido e um negócio duradouro”, finaliza.
Conteúdo produzido por Startups.
Fonte: Info Money













