Bloomberg Línea — Quando Carlos Gil Moreira Ferreira defendeu seu doutorado em Amsterdã, em 2001, o câncer de pulmão era tratado com quimioterapia e os resultados eram pouco promissores: a sobrevida mediana não passava de oito meses, segundo estudo publicado no New England Journal of Medicine em 2002.
O que ele pesquisava, sob orientação de Giuseppe Giaccone, então uma das maiores referências mundiais no campo, eram as marcas genéticas que tornam cada tumor único e que poderiam guiar tratamentos feitos sob medida para cada paciente, segundo seu currículo na Plataforma Lattes.
Agora o pesquisador oncologista tem um novo desafio ao assumir de forma interina o comando da Oncoclínicas (ONCO3), o maior grupo oncológico privado do Brasil, em um momento financeiramente delicado.
As ações da empresa caíram cerca de 89% desde a abertura de capital na bolsa, em 2021, e a agência de classificação de risco Fitch rebaixou seus títulos em 26 de fevereiro para a categoria CCC-(bra), associada a risco elevado de inadimplência, segundo comunicado da própria agência.
Leia mais: Oncoclínicas busca ‘waiver’ de debenturistas para descumprir limite de alavancagem
Em comunicado divulgado na noite de quinta-feira (5), a Oncoclínicas informou que Carlos Ferreira foi eleito pelo conselho para o cargo de diretor-presidente até que o processo de sucessão do fundador e ex-CEO, Bruno Ferrari, seja concluído. Ferrari continuará como vice-presidente do conselho.
“Assumo a presidência com prioridade absoluta na execução do plano estratégico e na consolidação de uma gestão disciplinada, sustentável e orientada a resultados”, disse o novo CEO interino, segundo o comunicado oficial.
A Oncoclínicas precisa rolar aproximadamente R$ 1 bilhão em dívidas ao longo de 2026, segundo a Fitch, vender ativos e convencer credores de que tem valor além do passivo.
A estratégia para lidar com a situação financeira também está a cargo de Camille Loyo Faria, ex-CFO da Americanas durante sua recuperação judicial, que foi nomeada vice-presidente executiva responsável pela agenda financeira e operacional, segundo o mesmo comunicado.
“O foco é ampliar a geração de caixa, otimizar a alocação de capital e simplificar a estrutura organizacional”, afirmou Camille Faria no comunicado.
As ações da Oncoclínicas (ONCO3) registravam queda de 3% a R$ 2,08 por volta do meio-dia, em um dia de perdas no mercado.
Do laboratório ao setor privado
A trajetória que levou Carlos Gil do laboratório em Amsterdã à cadeira de CEO interino passa por instituições públicas, privadas e internacionais.
Carlos Gil se formou em medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 1992 e fez residência em oncologia clínica no INCA (Instituto Nacional de Câncer), no Rio de Janeiro, segundo seu currículo Lattes.
PerfilCarlos Gil Moreira Ferreira, novo CEO interino da Oncoclínicas: oncologista que passou 30 anos construindo redes de pesquisa clínica no setor público e privado, incluindo na rival Rede D’Or, antes de chegar ao comando da empresa(Divulgação/Oncoclínicas)
Ele retornou ao INCA, em 2002, onde ficou 13 anos. Nesse período construiu três estruturas que moldaram a pesquisa oncológica brasileira: o Banco Nacional de Tumores e DNA, repositório de amostras biológicas de pacientes; a Rede Nacional de Pesquisa Clínica em Câncer, que interligou hospitais públicos para realização de ensaios clínicos; e a Rede Nacional de Desenvolvimento de Fármacos Anticâncer, vinculada ao Ministério da Saúde.
Também integrou a Comissão Científica da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), segundo comunicado oficial da Oncoclínicas divulgado nesta sexta-feira (6).
Após a saída do INCA em 2015, o médico atuou por três anos no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, o IDOR, braço científico da Rede D’Or São Luiz (RDOR3), a maior rede hospitalar privada do Brasil.
Leia mais: Oncoclínicas enfrenta desafio de rolar R$ 1 bi em meio a troca de CEO e rebaixamentos
Desde que chegou ao grupo Oncoclínicas, em 2018, Carlos Gil estruturou uma rede de 381 estudos clínicos ativos em oito unidades distribuídas por sete estados.
As parcerias incluem o Dana-Farber Cancer Institute e o Massachusetts General Hospital, nos EUA, e a espanhola Medsir, na qual a Oncoclínicas detém participação acionária desde 2022, segundo comunicado da empresa de novembro de 2025. O grupo também conduz projetos de Real World Evidence em parceria com a indústria farmacêutica, sem especificar os parceiros.
Essa estrutura tem valor financeiro. Uma rede de pesquisa clínica ativa atrai patrocínio de laboratórios farmacêuticos e gera receita recorrente que não depende da assistência médica direta. Para credores que avaliam uma empresa com rating CCC-, é um ativo que pode ser monetizado ou usado como garantia.
Pesquisa científica reconhecida
O tumor de pulmão mata mais do que qualquer outro tipo no Brasil. São cerca de 30.000 novos casos por ano. A maioria dos diagnósticos chega tarde: quando a doença já se espalhou para outros órgãos. Por décadas, isso significava o tratamento de quimioterapia e pouco tempo de sobrevida.
O que Carlos Gil passou a carreira pesquisando foi outra lógica. Cada tumor de pulmão tem uma mutação específica que o faz crescer. Se for possível identificar essa mutação antes do tratamento, é possível usar um medicamento desenvolvido para bloquear exatamente aquela falha.
É o que a medicina chama de oncologia de precisão. Algumas dessas mutações têm siglas que viraram referência: EGFR, ALK, ROS1. Um paciente com a mutação ALK, por exemplo, pode responder a drogas que não funcionariam em outro paciente com o mesmo diagnóstico de câncer de pulmão. Carlos Gil estudou esses alvos desde o doutorado, sob orientação de Giaccone.
Sua produção científica inclui mais de 150 artigos em revistas internacionais indexadas, segundo o Lattes. Em 2023, ele assinou editorial no Frontiers in Oncology sobre terapias-alvo e sequenciamento genético em câncer de pulmão. No mesmo ano, o pesquisador foi coautor de análise no Expert Review of Pharmacoeconomics & Outcomes Research sobre desigualdades de acesso a esses tratamentos na América Latina.
Em 2020, a American Society of Clinical Oncology, a ASCO, maior sociedade de oncologia clínica do mundo, deu a Carlos Gil o Partners in Progress Award, segundo comunicado da SBOC (Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica).
O prêmio existe desde 2003 e reconhece pesquisadores com impacto em políticas de acesso ao tratamento do câncer. Carlos Gil foi o primeiro profissional fora dos Estados Unidos a recebê-lo. Entre 2022 e 2024, presidiu a própria SBOC.
Leia também
Fundador da Oncoclínicas deixa cargo de CEO sob pressão de investidores, diz fonte













