Oncoclínicas tem prejuízo de R$ 3,67 bi em 2025; auditoria alerta para risco de colapso

Bloomberg Línea — A Oncoclínicas (ONCO3) encerrou 2025 com prejuízo líquido consolidado de R$ 3,671 bilhões (R$ 10 milhões por dia), contra perdas de R$ 717 milhões em 2024, conforme demonstrações financeiras divulgadas na noite da quinta-feira (9).

O resultado foi impactado por duas perdas relevantes: R$ 430,9 milhões em aplicações financeiras bloqueadas no Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro, e R$ 861,9 milhões em recebíveis da Unimed do Rio de Janeiro, integralmente provisionados após a operadora de saúde deixar de honrar seus pagamentos.

“Esses dois eventos impactaram significativamente a dinâmica de fluxo de caixa de 2025 e o endividamento”, diz o relatório da companhia.

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A Deloitte, auditora independente da companhia, incluiu parágrafo de ênfase sobre incerteza relevante quanto à continuidade operacional, e o conselho fiscal, em parecer, alertou os acionistas para o risco de colapso financeiro.

Com as duas perdas combinadas, a posição de caixa da companhia despencou de R$ 2 bilhões no final de 2024 para R$ 518 milhões em dezembro de 2025, enquanto as dívidas com vencimento nos próximos 12 meses somam R$ 3,4 bilhões. Para cada real disponível em caixa, a empresa deve R$ 6,60 no curto prazo.

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A Oncoclínicas descumpriu duas regras financeiras previstas em seus contratos de dívida, os chamados covenants. O índice de alavancagem, que mede a proporção entre dívida líquida e resultado operacional, foi apurado em 4,27 vezes, acima do limite máximo de 3,5 vezes.

O índice de cobertura de juros, que mede a capacidade de pagar os encargos financeiros com o resultado gerado, ficou em 1,35 vez, abaixo do mínimo exigido de 1,75 vez.

O descumprimento dessas regras dá aos credores o direito de exigir o pagamento antecipado das dívidas. Como consequência contábil imediata, R$ 2,9 bilhões em dívidas que eram de longo prazo foram reclassificados para o curto prazo, agravando ainda mais o desequilíbrio entre o que a empresa tem e o que deve pagar.

A Deloitte não contestou os números apresentados, mas incluiu um alerta formal no relatório de auditoria: a continuidade da empresa depende do sucesso de negociações com credores e da captação de novos recursos.

A rede oncológica também informou que a Deloitte será substituída pela PwC como auditora independente para os próximos exercícios.

O parecer do conselho fiscal alertou os acionistas para a existência de incerteza relevante que pode colocar em dúvida a capacidade da empresa de continuar operando, e registrou ainda que os documentos foram entregues fora do prazo legal, já que a lei exige publicação pelo menos 30 dias antes da Assembleia Geral Ordinária, marcada para 30 de abril.

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A Oncoclínicas obteve acordos temporários com parte dos credores, suspendendo cobranças até 31 de maio. A companhia divulgou ainda que assembleias de debenturistas das 8ª e 10ª emissões, realizadas em março, não foram instaladas por falta de quórum, no contexto das negociações em curso com credores.

Desde o mês passado, a empresa também negocia com Porto Seguro e Fleury a criação de uma nova empresa que absorveria suas clínicas oncológicas, com aporte inicial de R$ 500 milhões. O prazo de exclusividade dessas negociações vence no próximo domingo (12), três dias após a divulgação do balanço.

Paralelamente, o fundo americano MAK Capital sinalizou interesse em aportar R$ 500 milhões, condicionado à troca do conselho de administração, que já foi dissolvido após a renúncia de seu presidente no último dia 6.

“O negócio da Oncoclínicas é sustentável e vem passando pelos ajustes necessários para voltar a apresentar resultados positivos e rentabilidade”, afirma o relatório da companhia.

O negócio em si ainda apresentou uma margem bruta de 31% (desempenho competitivo no setor) e receita de R$ 5,7 bilhões em 2025.

O problema é que a estrutura de dívidas acumulada nos anos de expansão da companhia, com despesa financeira anual de R$ 1,5 bilhão em juros, consumiu todo o resultado gerado.

Em paralelo ao ajuste financeiro, a companhia vendeu o Hospital Vila da Serra (Nova Lima) em novembro, assinou documentos para venda do UMC (Uberlândia) e do Hospital Marcos Moraes (RJ), e cancelou os projetos de cancer centers em São Paulo e Belo Horizonte.

A dissolução do conselho de administração, após a renúncia de seu presidente na última segunda (6), muda a dinâmica das negociações com Porto, Fleury e MAK Capital, e aumenta as chances de um acordo no nível da holding, o que preservaria mais valor para os acionistas, avaliou um relatório do J.P. Morgan, na terça (7), que manteve recomendação de venda para ONCO3. O papel acumula queda de 71% em 12 meses.

A teleconferência com investidores para comentar o resultado está marcada para 9h desta sexta (10).

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