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Fundada em 1838, a Charvet é a camisaria mais antiga do mundo. Sua relevância ao longo de quase dois séculos de história ajuda a explicar a ascensão da moda masculina de luxo — um setor avaliado em US$ 38,3 bilhões, com previsão de crescimento para US$ 61,1 bilhões até 2035.
Localizada na Place Vendôme, a marca se destaca pelo trabalho artesanal, materiais de alta qualidade e cortes impecáveis.
Recentemente, ganhou as manchetes ao firmar parceria com a Chanel, ao ser mencionada no desfile da Chanel, atraindo um novo público, incluindo mulheres e empresários da tecnologia.
A experiência de compra é exclusiva, exigindo presença física e várias visitas para camisas sob medida.
Com cerca de 100 funcionários, a Charvet também produz gravatas e outros artigos, preservando sua tradição e foco em detalhes.
A marca é reconhecida por sua discrição e aversão ao marketing ostentoso, mantendo-se relevante em um mercado em constante transformação.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Paris – São tempos áureos para a alta moda masculina. Avaliado globalmente em US$ 38,3 bilhões, o setor deve alcançar US$ 61,1 bilhões até 2035. Mais do que capitalizar essa aceleração, a camisaria parisiense Charvet ajuda a explicá-la.
No número 28 da Place Vendôme, eixo histórico do luxo europeu, a história parece suspensa desde 1838 – quando a marca foi fundada por Joseph-Christophe Charvet, filho do curador do guarda-roupa de Napoleão Bonaparte.
Ao longo de seus 188 anos, a Charvet manteve-se fiel ao trabalho artesanal, materiais de altíssima qualidade e cortes impecáveis. A grife muda pouco, mas muda o suficiente. Avessa a logotipos ostensivos, catálogos, campanhas publicitárias e embaixadores-celebridades, acompanha, com discrição, os hábitos contemporâneos. O luxo silencioso é sua proteção contra a obsolescência. E a exclusividade, o pilar de sua relevância.
Por isso, chamou a atenção quando, em outubro de 2025, no desfile de primavera/verão 2026 da Chanel Haute Couture, o diretor artístico Mathieu Blazy, recém-chegado à maison, levou à passarela três camisas cujas etiquetas traziam “Chanel — tecido e técnica Charvet”.
Era uma homenagem à estilista Coco Chanel que, como seu namorado Arthur Edward “Boy” Capel, era fã da loja da Place Vendôme. Em 1929, ao criar o figurino do balé Apollon Musagète, por exemplo, ela usou gravatas Charvet como cinto das túnicas das musas.
Com o desfile da Chanel, a marca obteve uma repercussão incomum em sua trajetória. Ganhou as páginas do The New York Times, Vanity Fair, Le Figaro… além do buzz nas redes sociais. E, assim, com peças a US$ 4,3 mil, a camisaria mais antiga do mundo foi apresentada ao público em geral. O objetivo nunca foi a superexposição de uma Kardashian ostentando um armário repleto de Charvet. Longe disso.
A grife, porém, não teria chegado onde chegou se não renovasse sua clientela. Depois da coleção de Blazy, por exemplo, a grife registrou um aumento no número de mulheres interessadas em suas camisas. Crescem também as encomendas feitas por empresários da tecnologia.
Rejuvenescer seus consumidores é fundamental, sobretudo agora, com a maior transferência de riqueza da história — até 2030, estimados US$ 3,5 trilhões devem sair das mãos dos baby boomers para as de seus herdeiros das gerações Y e Z.
Uma declaração dos irmãos Anne-Marie e Jean-Claude Colban, proprietários da Charvet, explicita a prioridade da marca: expandir sem comprometer a confiança de sua base histórica. Em uma de suas raras entrevistas, eles afirmaram à Business of Fashion sobre a parceria com a Chanel: “Nossos clientes se sentiram honrados e lisonjeados (…). Esta colaboração não os trai”.
Essa preocupação se traduz na experiência de compra. A aquisição de uma camisa Charvet requer presença física. Se for sob medida, o cliente deve ir à loja-ateliê várias vezes e passar um bom tempo por lá, para cerca de 30 tomadas de medidas e muitas provas.
Depois, é preciso esperar, em média, seis semanas para a peça ficar pronta. Um ritual que a maioria cumpre com prazer — e orgulho. Afinal, a Charvet é para poucos. No prêt-à-porter, custa entre € 500 e € 700. Feita por encomenda, de € 800 a € 1,5 mil.
O desfile da Chanel Haute Couture apresentou a Charvet ao público em geral (Foto: Instagram @charvet_official)
As camisas em parceria com a Chanel foram vendidas apenas pela casa de moda, a US$ 4,3 mil (Foto: Instagram)
“Ninguém no mundo jamais viu tais coisas! Rosas, azuis, lilases, em seda e em teia de aranha! Charvet é o maior artista da Criação”, anotou certa vez o escritor Marcel Proust (Foto: Divulgação/Charvet)
Quando a camisa é sob medida pode demorar até seis semanas para ficar pronta (Foto: Divulgação/Charvet)
A loja da Charvet é a mais antiga da Place Vendôme, eixo histórico do luxo parisiense (Foto: Instagram)
Contra o imediatismo do comércio online, a marca praticamente não existe no digital. O site traz apenas o endereço na Place Vendôme, os dias e horários de funcionamento e um link para o Instagram — cuja conta, criada em 2020, é pouquíssimo movimentada.
E assim a Charvet deve seguir. A empresa continua familiar, com cerca de 100 funcionários — aproximadamente 30 em Paris e o restante nas oficinas na região de Indre, a cerca de 270 quilômetros da capital. A camisaria é o centro da produção, mas Charvet também confecciona gravatas, lenços, pijamas e slippers, entre outros artigos.
A “glória de Paris”
Entrar no prédio de quatro andares, na esquina da Place Vendôme com a Rue de La Paix, é como voltar ao passado. Parte loja, parte ateliê, as mesas e estantes de madeira e a iluminação suave remetem à história centenária da marca.
São rolos e mais rolos de tecidos, cerca de 6 mil diferentes. Lisos, estampados, 400 texturas e tramas; uma profusão de cores — só de branco, são 100 tons diferentes. “Ninguém no mundo jamais viu tais coisas! Rosas, azuis, lilases, em seda e em teia de aranha! Charvet é o maior artista da Criação”, anotou certa vez o escritor Marcel Proust (1871-1922). Ele inclusive cita a marca em seu Em busca do tempo perdido.
A Charvet surgiu no auge do dandismo, quando as roupas masculinas se tornaram mais ajustadas e os coletes deixaram as camisas à mostra. Como primeira camisaria do mundo, já nasceu referência de luxo e logo conquistou reis, príncipes, presidentes, chefes de estado e a elite financeira e intelectual — e assim se mantém até hoje.
Na Exposição Universal de 1889, a mesma em que Gustave Eiffel apresentou sua torre, a marca recebeu medalha de ouro por representar a “glória de Paris”.
Em meados da década de 1960, os herdeiros de Charvet colocaram a loja à venda. O então presidente Charles de Gaulle ficou preocupado com a possível perda do “patrimônio” para um grupo americano.
O Ministério da Indústria então incumbiu Denis Colban de encontrar um comprador francês para a camisaria. Fornecedor de tecidos da marca, ele próprio adquiriu a empresa – hoje comandada por seus filhos.
“O rigor da Charvet com os detalhes, seja com os botões de madrepérola, seja com os reforços dentro das golas, é o que faz a diferença”, explica ao NeoFeed o especialista em luxo Benny-Lovhe Mateky, que já trabalhou como client advisor da Louis Vuitton, Hermès e Moncler, entre outras.
O cuidado é tanto que os alfaiates levam em conta até se o cliente usa ou não relógio, de modo a acomodar a manga da peça ao acessório. Nas camisas listradas, as linhas se mantêm casadas, sem desencontros ou descontinuidades. É como diz Mateky: “Existe uma camisa e existe a camisa Charvet”. Quem conhece, reconhece — e isso é o que importa.
Fonte: Neo Feed













