O setor de saúde suplementar no Brasil vive um momento de profunda reflexão. Após um período de intensa pressão sobre as margens, os dados mais recentes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) apontam para uma recuperação financeira expressiva, com um lucro líquido de R$ 11,1 bilhões em 2024, um aumento de 271% em relação ao ano anterior1.
A sinistralidade, que mede a relação entre as despesas assistenciais e as receitas, atingiu 82,2% no quarto trimestre de 2024, o menor índice para o período desde 2018, e continuou sua trajetória de queda em 2025.
À primeira vista, os números podem sugerir uma vitória da gestão. Contudo, um olhar mais atento revela um paradoxo preocupante: essa melhora nos balanços financeiros ocorre em um contexto de queixas crescentes sobre restrições de acesso, glosas excessivas, prazos extremamente alongados de pagamento, descredenciamento de prestadores e a manutenção de um modelo que, em sua essência, recompensa o volume em detrimento do valor.
A busca incessante pelo controle da sinistralidade, muitas vezes através de estratégias reativas como glosas e reajustes contratuais, tem gerado um cabo de guerra insustentável entre operadoras e prestadores, com o paciente no meio de um campo de batalha onde a eficiência real e a qualidade assistencial ficam em segundo plano.
Neste momento vale questionar: estamos realmente construindo um sistema mais sustentável ou apenas lubrificando as engrenagens de um modelo obsoleto já há tempos?
O paradoxo do custo vs. valor no modelo hospitalocêntrico
A raiz de grande parte da inflação de custos na saúde reside no modelo de remuneração predominante, o fee-for-service (FFS), especialmente quando aplicado ao ambiente hospitalar. Este modelo, que remunera por procedimento, cria um incentivo perverso: quanto mais complexo e demorado o cuidado, maior a receita para o prestador. A eficiência, a rapidez e a prevenção são, na prática, penalizadas.
Um hospital geral, com sua estrutura de custos massiva, depende da alta ocupação de leitos e da maximização do uso de seus recursos para manter sua saúde financeira, o que pode levar a um ciclo de internações e procedimentos que nem sempre representam o melhor valor para o paciente ou para a fonte pagadora.
É neste ponto que a cirurgia ambulatorial surge como uma solução disruptiva. As Unidades de Cirurgia Ambulatorial (UCAs), ou Ambulatory Surgical Centers (ASCs) na nomenclatura internacional, são estruturas enxutas e altamente especializadas, desenhadas para realizar procedimentos com segurança, qualidade e, crucialmente, com um custo drasticamente menor.
Um relatório recente da Trilliant Health, analisando dados de mais de 3.400 centros cirúrgicos e 2.600 hospitais nos EUA, revelou uma disparidade de custos impressionante para os mesmos procedimentos. Uma colonoscopia, por exemplo, custou em média US$ 1.179 em um ASC, contra US$ 3.633 em um hospital – uma economia de 67,5%. Para um reparo de hérnia, a diferença foi de US$ 3.241 (ASC) para US$ 7.414 (hospital).
Esses números demonstram que não se trata de uma economia marginal. A migração de volume para o ambiente ambulatorial representa uma oportunidade de bilhões de dólares em economia. A Associação Americana de Centros Cirúrgicos (ASCA) estima que o uso de ASCs já gere uma economia anual de US$ 37,8 bilhões para os seguros comerciais nos EUA.
O mais importante, como apontam diversos estudos, incluindo uma análise publicada no Annals of Surgery, essa economia não vem às custas de piores desfechos clínicos ou maiores taxas de readmissão, elas ocorrem com indicadores assistenciais substancialmente melhores2.

Estratégias de credenciamento inteligente e a força dos bundles
Para as operadoras de saúde no Brasil, a simples constatação de que as UCAs são mais custo efetivas não é suficiente. É preciso transformar essa informação em uma estratégia proativa. Isso passa por uma reengenharia do credenciamento, abandonando a lógica de uma rede extensa e indiferenciada para adotar um modelo de credenciamento inteligente, focado em parcerias com UCAs de alta performance.
Algumas operadoras já estão atentas a esse movimento e buscam negociações diretamente com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Ambulatorial (SOBRACAM), entidade que representa os hospitais cirúrgicos ambulatoriais no país. Uma negociação concentrada com a associação pode representar uma ampliação de rede com 42 prestadores de maior eficiência e menor custo, presentes em 9 estados e em franca expansão pelo Brasil.
A rede de associados da SOBRACAM está estrategicamente distribuída: a região Sudeste concentra 50% das instituições (21 unidades, sendo 14 em São Paulo), seguida pelo Nordeste com 26,2% (11 membros) e Centro-Oeste com 19% (8 membros). As regiões Norte e Sul, cada uma com uma instituição, sinalizam um potencial de expansão para essas áreas.
Essa estratégia se materializa através da adoção de modelos de remuneração baseados em valor, com destaque para os pagamentos por pacote (bundled payments). Diferente do FFS, o bundle remunera o episódio cuidado com um valor único e pré-acordado. Essa mudança transforma a relação entre operadora e prestador de uma transação adversarial para uma parceria estratégica, onde ambos são incentivados a buscar a máxima eficiência e o melhor desfecho para o paciente.
Um estudo publicado no JAMA Health Forum demonstrou que a implementação de bundled payments para cirurgias ambulatoriais de coluna foi associada a uma redução de quase 10% nos gastos para o Medicare3.
O papel da SOBRACAM como vetor de expansão
Nesse processo de transformação, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Ambulatorial desempenha um papel fundamental. Como entidade multidisciplinar, a SOBRACAM atua como um hub, conectando os diversos atores do ecossistema como cirurgiões, anestesistas, enfermeiros, gestores, indústria e fontes pagadoras. Ao promover eventos, cursos e a disseminação de protocolos e diretrizes, a sociedade cria um ambiente colaborativo para a troca de informações e experiências, acelerando a curva de aprendizado do mercado brasileiro.
Mais do que isso, ao ser a representante do Brasil na International Association for Ambulatory Surgery (IAAS), a SOBRACAM funciona como uma ponte para o que há de mais avançado no mundo, trazendo para o cenário nacional as melhores práticas e os modelos de sucesso já validados internacionalmente.
Esse intercâmbio é crucial para que o Brasil não apenas siga tendências, mas participe ativamente da vanguarda da cirurgia ambulatorial, fomentando o desenvolvimento de negócios e a criação de um mercado robusto e competitivo.
Encarar o dilema da sinistralidade exige mais do que ajustes contábeis. Demanda uma mudança de paradigma. A cirurgia ambulatorial, estruturada através de parcerias estratégicas e remunerada por valor, oferece às operadoras de saúde uma oportunidade única de sair da defensiva. Não se trata apenas de uma tática para reduzir custos, mas de um movimento estratégico para construir um ecossistema de saúde mais racional, previsível e sustentável.
Ao abraçar as UCAs e os modelos de bundled payment, as operadoras podem, finalmente, alinhar seus objetivos financeiros com a entrega de um cuidado de altíssima qualidade, transformando o desafio da sinistralidade em uma alavanca para a verdadeira inovação em saúde.
A jornada não é simples, mas os dados internacionais e as experiências bem-sucedidas em outros países demonstram que o caminho está pavimentado. Cabe agora aos líderes do setor a coragem de trilhá-lo, contando com o suporte de entidades como a SOBRACAM para acelerar essa transformação necessária e urgente.
Referências
1. Souza, A. A. de, & Enes, W. M. (2026). ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO-FINANCEIRO DAS OPSS-2017-2024. Boletim de Conjuntura (BOCA), 25(73), 136–152.
2. Friedlander, D. F., Krimphove, M. J., Cole, A. P., et al. (2021). Where is the value in ambulatory versus inpatient surgery?. Annals of surgery, 273(5), 909-916.
3. Kilaru, A. S., Ng, G. Y., Wang, E., et al. (2025). Savings Associated With Bundled Payments for Outpatient Spine Surgery Among Medicare Beneficiaries. JAMA Health Forum, 6(7), e251907.













