O Crescimento que Exige uma Nova Arquitetura

 

O mercado de Food Service sempre foi um palco de transformações, mas poucas mudanças foram tão sísmicas e rápidas quanto a ascensão do delivery. O que começou como uma conveniência se tornou um pilar estratégico, redefinindo a arquitetura de nossos espaços, a logística de nossas cozinhas e, fundamentalmente, a nossa relação com o cliente.

 

A pergunta que ecoa hoje não é mais “devo aderir ao delivery?”, mas sim: “estou preparado para o crescimento exponencial que ele exige?”

 

Os dados não deixam margem para dúvidas: o delivery é o motor de crescimento do setor. Globalmente, o mercado de entrega de comida online deve ultrapassar a marca de US$ 600 bilhões até 2030, conforme informações de Statista. Ainda segundo eles, no Brasil, o cenário é ainda mais dinâmico. Segundo projeções de mercado, a receita do delivery de comida online no país, que já é robusta, deve atingir cerca de US$ 21,18 bilhões em 2025 , com uma taxa de crescimento anual que se mantém acelerada. Este crescimento não é apenas um reflexo da mudança de hábito do consumidor, mas também do forte investimento das plataformas.

 

O iFood, por exemplo, que detém a maior fatia do mercado nacional, tem demonstrado um apetite voraz por expansão. A recente aquisição de startups e o plano de crescer em 5x a frente de Ads até  2030 sinalizam uma estratégia clara de domínio e de aprofundamento da relação com o ecossistema de restaurantes. A plataforma já anunciou um investimento massivo de R$ 17 bilhões no Brasil até 2026, visando aumentar o tráfego e fortalecer a parceria com os estabelecimentos. Estes números não são apenas estatísticas; são um alerta de mercado. Eles indicam que o volume de pedidos que passa pela sua porta (ou melhor, que não passa por ela) só tende a aumentar.

 

O crescimento do delivery impacta diretamente a operação física. Eu passo por isso em meus projetos.

 

Quando o dono de restaurante vem falar comigo, a primeira coisa que eu percebo é que não cabe mais espremer a logística de entrega em um “cantinho” improvisado da cozinha. A realidade é que a operação de delivery, com seus motoboys entrando e saindo, embalagens, pick-up points e a necessidade de agilidade, exige um fluxo de trabalho completamente diferente do salão.

 

É o que eu vi em um de meus projetos mais recentes, o Tom Yum, um restaurante de comida tailandesa em Porto Alegre. Eu fiz o projeto do restaurante principal e, agora, o cliente optou por criar uma área dedicada e apartada para atender exclusivamente ao delivery, pois ele já imagina que o volume de pedidos não cabe mais dentro da loja atual. Essa decisão estratégica é um divisor de águas.

 

Ele reconhece que o Salão é Experiência, pois o cliente presencial busca conforto, ambientação e o “algo a mais” que discutimos em artigos anteriores, e o fluxo constante de entregadores pode quebrar essa magia e o conforto acústico do ambiente. Além disso, a Cozinha é Eficiência, e a cozinha de delivery precisa de um layout otimizado para produção rápida e padronizada, focada em embalagem e expedição, e não em empratamento para o salão, pois o cruzamento de fluxos (salão vs. delivery) gera gargalos e erros.

 

A criação de Dark Kitchens ou, no mínimo, de áreas de produção e pick-up dedicadas, não é um luxo, mas uma necessidade operacional para quem busca escala e excelência em ambos os canais. Com o crescimento do volume, surgem os questionamentos cruciais: os restaurantes estão realmente preparados? A preparação vai além da infraestrutura física. Ela toca em dois pilares inegociáveis para o consumidor moderno.

 

O primeiro é a Segurança Sanitária: a distância física entre o preparo e o consumo exige um rigor ainda maior. O cliente não vê a cozinha, mas confia na sua marca. A embalagem, o selo de segurança, a temperatura de conservação e o tempo de entrega tornam-se extensões da sua cozinha. Demonstrar esse rigor — seja através de certificações visíveis, processos de embalagem transparentes ou parcerias logísticas de confiança — é um diferencial competitivo.

 

O segundo pilar é a Marca como Empresário Visionário: o consumidor valoriza o empresário que está atento às tendências e que investe para garantir a qualidade. Ao criar uma área dedicada ao delivery, você não está apenas otimizando a operação; você está enviando uma mensagem clara ao mercado: “Eu vejo o crescimento, eu invisto na qualidade e eu me preparo para o futuro”.

 

O delivery não é apenas um canal de vendas; é um novo modelo de negócio que exige uma mentalidade de inovação e adaptação constante. Para ser o lugar preferido do cliente, seja ele no salão ou em casa, é preciso ir além do óbvio e construir uma operação que seja tão robusta quanto a projeção de crescimento do mercado. A hora de planejar e investir é agora.

 

O futuro do Food Service está sendo entregue, e a excelência deve ser o seu pacote.

 

 

Sobre a Autora

Belisa Medeiros é arquiteta especialista em Concepção, Planejamento para Projetos de Restaurantes e pós graduada em Construções Sustentáveis. Sócia Proprietária na Empresa Belisa Medeiros Consultoria Gastronômica, empresa que oferece soluções completas para o setor do Food Service, desde o projeto até implantação. Atua com projetos de restaurante para refeições coletivas, hotéis, restaurantes
comerciais, cafeterias e demais áreas do setor.


Fonte: Rede Food Service

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