o alerta do Citi sobre a atividade econômica e o emprego no Brasil

Bloomberg Línea — Os números do mercado de trabalho brasileiro parecem contar uma história de solidez. A taxa de desemprego atingiu sua mínima histórica em dezembro de 2025, aos 5,3%, enquanto a massa salarial real seguia em expansão robusta de 6,4% ao ano.

Para quem olha esses indicadores de forma isolada, o Brasil parece atravessar um momento de vigor na economia. Entretanto, economistas do Citi, liderados por Leonardo Porto, apontam contradições nos números de atividade no país e alertam que os dados aparentemente positivos escondem uma realidade mais sombria.

Segundo eles, uma desaceleração já está em curso, tanto na atividade econômica quanto no mercado de trabalho, e tende a se aprofundar nos próximos meses.

“A economia doméstica permanece praticamente estagnada desde o segundo semestre de 2025 e deve enfraquecer ainda mais o mercado de trabalho daqui para frente, provavelmente interrompendo a tendência de queda da taxa de desemprego”, escrevem os economistas em um relatório intitulado “Don’t Be Fooled, a Slowdown is Underway in Activity and Labor Market” (Não se engane, uma desaceleração está em andamento na atividade e no mercado de trabalho), divulgado nesta quinta-feira (19) a clientes.

Leia também: Legacy espera piora no cenário local e está quase ‘zerada’ na bolsa, diz Felipe Guerra

Um dos sinais vêm do Produto Interno Bruto (PIB). Depois de um crescimento vigoroso no primeiro trimestre de 2025, com alta de 1,5% na margem, a economia brasileira perdeu fôlego de forma consistente, na visão dos economistas.

O crescimento caiu para 0,3% no segundo trimestre e recuou ainda mais para 0,1% no terceiro. Os indicadores mensais de atividade – produção industrial, insumos da construção civil, vendas no varejo e setor de serviços –, segundo o Citi, apontam para algo próximo de uma estagnação no quarto trimestre. O resultado aponta para um crescimento anual de 2,2% em 2025, na projeção do Citi, a ser confirmado pelo IBGE em março.

Dados do IBC-Br divulgados nesta quinta parecem confirmar a desaceleração, embora tenham ficado acima das projeções de economistas. Em dezembro, o índice de atividade econômica do Banco Central registrou recuo de 0,2% no mês em relação a novembro, ante uma expectativa de queda de 0,4% entre economistas consultados pela Bloomberg.

PIB x mercado de trabalho

O paradoxo, ressalta o Citi, é que, enquanto a atividade desacelerou, o desemprego seguiu caindo. A taxa de desocupação recuou de 5,9% em junho para 5,3% em dezembro, atingindo o menor nível da série histórica. À primeira vista, isso sugere um mercado de trabalho aquecido, mas os economistas do banco avaliam que essa leitura é enganosa.

A explicação está na taxa de participação da força de trabalho, que caiu de 62,4% em junho de 2025 para 61,9% em dezembro. Isso significa que menos brasileiros estavam ativamente buscando emprego no fim do ano.

Para o Citi, é essa saída de trabalhadores do mercado, e não a geração de postos de trabalho, que explica a queda do desemprego.

Leia também: Ata do Copom: BC reforça cautela e deixa em aberto tamanho dos próximos cortes

Se a taxa de participação tivesse se mantido estável no patamar de junho, o desemprego estaria em 5,9% em dezembro, não nos 5,3% registrados, de acordo com o Citi.

Quando o banco aplica a chamada Lei de Okun – modelo econométrico que relaciona desemprego e crescimento do PIB – substituindo o desemprego pelo nível de emprego, o resultado é que o emprego efetivo está abaixo do nível estimado pelo modelo desde o segundo trimestre de 2025.

Nessas condições, “o desempenho superior do mercado de trabalho em relação à atividade econômica desaparece”, dizem os economistas.

Consumo x massa salarial

O segundo paradoxo apontado pelo Citi envolve o consumo das famílias e a massa salarial real.

O consumo privado, que representa cerca de 64% do PIB brasileiro, desacelerou ao longo de 2025, passando de uma expansão de 2,2% ao ano no primeiro trimestre para apenas 0,9% no terceiro.

Leia também: Demanda do agro por hidrovias no Norte atrai fabricantes de motores e distribuidoras

Ao mesmo tempo, a massa salarial real – calculada pela multiplicação do salário real pelo nível de emprego – crescia 6,4% ao ano em dezembro, uma expansão robusta que deveria, em tese, sustentar um aumento do consumo mais acelerado.

Na avaliação dos economistas, o crescimento da massa salarial real estava sendo puxado, de forma crescente, pelos salários – que avançaram 5,0% ao ano – e não pelo emprego, que cresceu apenas 1,1% ao ano.

Para o banco, isso indica que o consumo das famílias tem reagido mais ao crescimento mais fraco do emprego do que ao aumento dos salários de quem já trabalha.

O Citi aponta ainda que, em um mercado de trabalho próximo do pleno emprego, como o Brasil parece estar agora, os aumentos de salário tendem a gerar um impacto menor no consumo das famílias, uma vez que o espaço para a criação de empregos está mais limitado.

Leia também

Menos Argentina, mais Brasil: bilionário aposta no país antes da alta de 17% do EWZ



Bloomberglinea

Compartilhe este artigo