Neste mês, devido ao Dia da Mulher, o debate sobre equidade em saúde feminina se intensifica — e poucos temas são tão emblemáticos quanto o câncer de mama. É o tumor mais incidente entre mulheres no Brasil, exceto o câncer de pele não melanoma, além de liderar a mortalidade por câncer na população feminina, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA).
É nesse contexto que um estudo de grande escala, realizado com mais de 65 mil mulheres no Estado de São Paulo, lança luz a um dos gargalos estruturais do sistema de saúde brasileiro: a desigualdade entre as redes pública e privada no diagnóstico e tratamento da doença.
Diagnóstico precoce ainda é um divisor de águas
Publicado na revista científica internacional Clinical Breast Cancer (Elsevier), o estudo “Determinantes relacionados à assistência médica no prognóstico do câncer de mama em São Paulo, Brasil: Uma coorte populacional” é coordenado por Gustavo Nader, médico titular do Departamento de Radioterapia do Hospital Sírio-Libanês, e reúne pesquisadores do Brasil, Canadá e Estados Unidos.
Trata-se de uma das raras análises populacionais de longo prazo capazes de quantificar, com rigor metodológico, o impacto do modelo dual brasileiro na sobrevida das pacientes.
A pesquisa utilizou dados da Fundação Oncocentro de São Paulo (FOSP), vinculada à Secretaria de Saúde do Estado, e avaliou 65.543 mulheres diagnosticadas entre 2000 e 2020. Parte delas foi atendida pelo SUS; outra, pela saúde suplementar.
Segundo Nader, o registro da FOSP é “particularmente robusto e representativo”, pela ampla cobertura populacional e padronização de notificações.
Os resultados evidenciam disparidades relevantes. Na saúde suplementar, 41% das pacientes foram diagnosticadas no estádio I da doença, enquanto no SUS o percentual foi de 21%. Já os casos avançados (estádios III e IV) foram significativamente mais frequentes na rede pública.
A diferença também se reflete na sobrevida global em dez anos. No estádio I, a taxa foi de 81,6% no sistema privado contra 77,5% no SUS. No estádio II, 74% versus 63,3%; no estádio III, 55,6% contra 39,6%; e no estádio IV, 7,6% frente a 6,4%.
A análise multivariada demonstrou que o tratamento no sistema privado esteve associado a uma redução de 41% no risco de morte.
“No contexto brasileiro, o estudo mostra que o sistema onde a paciente é tratada tem impacto mensurável na sobrevida, mesmo após controle para variáveis clínicas importantes”, afirma médico titular, que complementa: “em oncologia, tempo é prognóstico. O diagnóstico mais tardio observado no sistema público ajuda a explicar parte das diferenças encontradas.”
Gestão, acesso e os desafios estruturais do SUS

Os resultados refletem, em grande medida, o acesso desigual ao rastreamento para Daniel Buttros, mastologista e presidente da Comissão de Comunicação da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), também participante da pesquisa.
“Provavelmente, as mulheres atendidas por planos de saúde têm acesso mais facilitado à mamografia”, pontua Buttros.
Embora reconheça os avanços do SUS na ampliação do tratamento oncológico nas últimas décadas, o presidente destaca que os gargalos persistem, sobretudo no diagnóstico precoce.
Atualmente, a cobertura mamográfica pelo SUS atinge cerca de 33% da população-alvo no país — distante dos 70% considerados ideais para impacto populacional consistente.
Do ponto de vista da gestão, os achados extrapolam o campo clínico. Eles evidenciam como diferenças estruturais — acesso ao rastreamento, organização da linha de cuidado, tempo até o início do tratamento e infraestrutura assistencial — influenciam diretamente os desfechos oncológicos.
Em um sistema que se propõe universal, o estudo reforça que equidade não é apenas um princípio constitucional, mas um determinante concreto de sobrevida. No Mês da Mulher, os números deixam claro que enfrentar o câncer de mama passa, necessariamente, por enfrentar as assimetrias do próprio modelo de atenção à saúde no Brasil.
Para aprofundar esse debate e conhecer histórias de mulheres que estão moldando o futuro da saúde no Brasil, acesse a nossa série especial Mulheres na Saúde — uma curadoria de lideranças que influenciam estratégias, transformam organizações e impulsionam mudanças estruturais no setor.













