Mercado de vinho passa de R$ 21 bi no Brasil. E maior concorrência pressiona margens

Bloomberg Línea — O mercado de vinhos no Brasil voltou a crescer em 2025 e movimentou cerca de R$ 21,1 bilhões, segundo dados apresentados na terça-feira (10) na 11ª edição do seminário Adega Ideal, um dos principais eventos do trade da bebida no país.

O avanço foi de aproximadamente 9% em relação ao ano anterior, impulsionado pela recuperação do consumo após um período de ajuste de estoques.

O volume total de abastecimento chegou a 54,5 milhões de caixas de nove litros (12 garrafas de 750 ml), alta de 9% no ano, aproximando o mercado novamente dos níveis registrados no auge da pandemia.

Apesar da retomada, executivos do setor apontam que o crescimento vem acompanhado de um desafio estrutural. A oferta de vinhos cresce mais rápido que a demanda, pressionando preços e margens ao longo da cadeia.

“O crescimento do consumo não acompanha essa pressão de oferta”, disse Felipe Galtaroça, CEO da Ideal BI, consultoria responsável pela compilação de dados do setor, em entrevista à Bloomberg Línea. “Essa pressão de oferta gera estoque e derruba rentabilidade.”

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A análise da cadeia de distribuição apresentada no seminário aponta um aperto crescente nas margens do setor.

Segundo a Ideal BI, o aumento do volume de importações e a maior concorrência no varejo têm reduzido o chamado multiplicador de preço ao longo da cadeia, indicador que mede quanto o valor do vinho cresce entre a importação e o consumidor final.

Com mais oferta e pressão promocional nas prateleiras, especialmente nos supermercados, parte desse valor tem deixado de ser capturado por importadores e distribuidores.

O resultado é uma redução gradual da rentabilidade da cadeia, em um momento em que custos logísticos, financeiros e operacionais seguem elevados no país.

Enquanto a moeda brasileira perdeu mais de 50% de valor desde 2018 e a inflação somada atingiu 45%, o repasse de preços ao consumidor final foi de apenas 13%. “A cadeira absorveu a maior parte da elevação dos custos operacionais e de importação”, disse Galtaroça.

O cenário reflete uma combinação de fatores locais e globais. De um lado, o mercado brasileiro continua atraindo produtores estrangeiros em busca de novos consumidores. De outro, mudanças no comércio internacional e no ambiente regulatório tendem a intensificar a concorrência nos próximos anos.

Segundo Galtaroça, o Brasil passou a ganhar destaque entre vinícolas internacionais diante da desaceleração do consumo em mercados tradicionais, especialmente na Europa, e da maior atração do mercado brasileiro com a assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia.

“Os produtores europeus sofrem com queda de consumo na Europa e passam a olhar para o mercado brasileiro como oportunidade”, disse.

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O país ainda apresenta um dos maiores potenciais de expansão do mundo. O consumo médio permanece em torno de 3 litros por pessoa ao ano (entre adultos). O patamar é muito inferior ao observado em países europeus, onde pode passar de 50 litros per capita (caso de Portugal, primeiro do ranking global).

Mesmo assim, o crescimento enfrenta limitações estruturais. O vinho ainda ocupa um espaço secundário no orçamento da maior parte dos brasileiros, segundo o estudo.

“O vinho não é cesta básica, é um produto secundário”, disse Galtaroça. “Quando o consumidor paga mais caro na carne, no arroz ou no combustível, ele reduz o consumo de categorias que não são essenciais.”

‘Efeito Chablis’

Essa pressão ajuda a explicar por que o avanço do setor ocorre de forma desigual entre diferentes faixas de preço.

Enquanto os vinhos de entrada tendem a sofrer mais com a perda de poder de compra, as categorias de maior valor agregado mostram maior resiliência.

Dados apresentados no seminário indicam que o segmento super premium foi o que mais cresceu em faturamento no último ano, refletindo uma tendência de premiumização entre consumidores de maior renda.

“Quando falamos de um vinho de R$ 200, o consumidor normalmente sofre uma pressão econômica menor”, disse Galtaroça. “Ele continua buscando o objeto de desejo.”

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O segmento super premium (com caixas que custam mais de US$ 100 no exterior) foi o que mais cresceu em faturamento em 2025, com alta de cerca de 15%, consolidando-se como o principal motor de valorização do mercado. Já os vinhos classificados como premium (com caixas que custam entre US$ 50 e US$ 99,99 no exterior) tiveram expansão próxima de 10% no período.

Enquanto isso, as faixas de entrada registraram desempenho mais moderado. Os vinhos mais baratos (com caixas que custam até US$ 24,99 no exterior) houve uma queda de 3%

Segundo a Ideal BI, o movimento reflete uma tendência de premiumização do consumo, com parte dos consumidores disposta a pagar mais por rótulos de maior qualidade mesmo em um cenário econômico mais desafiador.

A dinâmica reforça o caráter aspiracional do vinho no país, ainda associado a momentos especiais ou a um consumo de status. “O vinho é um mercado de luxo e um mercado de status”, afirmou o executivo.

Isso se apresenta no mercado com o que foi chamado de “efeito Chablis”. O famoso vinho branco francês produzido na Borgonha foi um dos que tiveram maior crescimento de venda no país no ano passado, o que impulsionou uma alta de 10% na importação de vinhos do país.

Ainda assim, a França é apenas o 7º país em volume de vendas no Brasil. Entre os produtores dos vinhos consumidos no país, o Chile segue como principal fornecedor, seguido por Brasil, Argentina, Portugal, Itália e Espanha.

Mudanças nas regras

Além das mudanças no comportamento do consumidor, o setor acompanha transformações regulatórias que podem alterar a dinâmica competitiva.

A reforma tributária aprovada no Brasil deve simplificar a estrutura de impostos e reduzir diferenças de tributação entre estados, o que pode contribuir para maior padronização de preços no mercado.

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Ao mesmo tempo, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia — se implementado nos próximos anos — tende a reduzir gradualmente tarifas de importação, ampliando a presença de rótulos estrangeiros nas prateleiras brasileiras.

Segundo Galtaroça, essas transformações podem ampliar a competição e pressionar ainda mais a rentabilidade do setor.

“Todo mundo olha para o mercado brasileiro com potencial”, disse. “Mas é preciso equilibrar a relação entre oferta e demanda para que o setor continue saudável.”

Para ele, o próximo ciclo de crescimento do vinho no país dependerá menos da expansão acelerada do volume e mais da profissionalização da cadeia e da formação de novos consumidores.

“O mercado brasileiro é muito jovem”, disse. “Ele ainda está em crescimento, em profissionalização e em construção de cultura.”



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