Jovens britânicos sem emprego lotam filas de alistamento militar

Jovens britânicos em busca desesperada por emprego estão se alistando cada vez mais nas Forças Armadas, e o governo pretende explorar uma tendência que pode ajudar a enfrentar simultaneamente a crise de desemprego juvenil e o esvaziamento das tropas.

Uma conexão está se formando entre o desemprego jovem — agora no patamar mais alto em mais de uma década — e o volume de candidaturas às Forças Armadas. Novos dados mostram que as inscrições para a Marinha Real e a Força Aérea atingiram o maior nível em mais de cinco anos, em um momento em que 16% dos britânicos de 16 a 24 anos procuram trabalho. As candidaturas ao Exército também aumentaram nos últimos anos.

Em um vídeo publicado nas redes sociais pelo Ministério da Defesa em fevereiro, um jovem explicou por que se alistou na Marinha. “Comecei a universidade em 2017 e terminei durante a Covid: os empregos desapareceram, as oportunidades para recém-formados sumiram, então minha inscrição foi para os Fuzileiros Navais”, disse o jovem, sem ser identificado, citando também as oportunidades de viagem e esporte como fatores decisivos.

A escassez de vagas de nível inicial tem sido provocada pela retração das contratações por parte dos empregadores, que tentam absorver aumentos acentuados no salário mínimo e nos encargos trabalhistas, ao mesmo tempo em que a inteligência artificial automatiza funções-chave. Pela primeira vez, jovens britânicos têm mais chance de estar desempregados do que seus pares na União Europeia, com quase 1 milhão fora do mercado de trabalho ou do sistema educacional.

“O recrutamento militar entre jovens é impulsionado principalmente pela comparação entre os benefícios do alistamento e a atratividade das alternativas disponíveis lá fora”, afirmou Hilary Ingham, professora e chefe do departamento de economia da Universidade de Lancaster.

A mudança pode ajudar a preencher lacunas em um momento em que o Reino Unido enfrenta ameaças e demandas crescentes, da agressão russa à necessidade de ampliar sua presença militar no Ártico. O Exército encolheu de mais de 110 mil efetivos regulares em 1997 para pouco mais de 70 mil hoje — menor contingente desde a era napoleônica.

Oportunidades militares estão sendo ativamente promovidas em centros de emprego pelo país, com foco especial em regiões com alto desemprego juvenil. O governo lançou um programa-piloto na região de West Midlands — onde 9,6% dos jovens de 18 a 24 anos recebem benefícios ligados ao desemprego — no qual representantes militares ajudam a incentivar o alistamento. No mês passado, foi lançado um programa de “ano sabático” voltado a dar experiência e treinamento militar a menores de 25 anos.

Outras iniciativas incluem campanhas publicitárias e um serviço planejado para simplificar o processo de inscrição. O Ministério da Defesa também está reformando moradias militares e costuma destacar o reajuste salarial acima da inflação concedido ao pessoal das Forças Armadas no ano passado.

Os esforços têm surtido algum efeito: mais de 26% dos efetivos regulares do Reino Unido tinham menos de 25 anos, dois pontos percentuais acima do nível pré-pandemia, segundo as mais recentes estatísticas de diversidade das Forças Armadas, referentes ao ano encerrado em outubro. Quase 75% de todos os novos oficiais tinham entre 20 e 24 anos, alta de três pontos em relação ao ano anterior.

O ano passado também marcou a primeira vez desde 2021 em que o número de ingressantes nas Forças Armadas superou o de desligamentos. O Reino Unido registrou saída líquida de pessoal em todos os anos entre 1999 e 2024, com exceção de seis, sendo as baixas voluntárias o motivo mais frequente.

Uma revisão de defesa realizada no ano passado atribuiu essa “crise de pessoal” a “recrutamento e retenção deficientes, alojamentos precários, queda no moral e desafios culturais”. O documento recomendou um pequeno aumento no efetivo do Exército, e o governo prometeu elevar o número de tropas regulares em pouco menos de 3 mil, para 76 mil, no próximo mandato parlamentar.

Ainda assim, esse número ficaria abaixo dos 78 mil soldados regulares que o Reino Unido tinha em janeiro de 2023. O efetivo da Marinha e da Força Aérea também recuou ligeiramente desde então, mesmo diante dos desafios simultâneos de ampliar a presença no Ártico, preparar o envio de tropas à Ucrânia sob um eventual acordo de paz e proteger pessoal, bases e aliados no Oriente Médio contra drones e mísseis lançados pelo Irã e seus aliados.

Isso levou a uma mudança de tom por parte do governo. O primeiro-ministro Keir Starmer saudou um “novo contrato para unir o Reino”, que vai “das linhas de abastecimento às linhas de frente”.

Essa abordagem também significa que o governo está incentivando jovens a trabalhar no setor de defesa de forma mais ampla, incluindo novas parcerias entre universidades e indústrias do setor para enfrentar a escassez de competências nas áreas verde e digital.

O governo está colocando as Forças Armadas “no centro dos esforços para combater o desemprego”, afirmou Sarah Mills, professora de geografia humana na Universidade de Loughborough, que descreveu a estratégia como uma “mudança significativa”.

Fonte: Invest News

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