BEIRUTE — Enquanto Estados Unidos e Israel iniciavam uma ofensiva militar coordenada contra o Irã na madrugada de sábado, Teerã cumpriu rapidamente a promessa de retaliar, atacando interesses e aliados americanos em várias partes do Oriente Médio, em uma resposta ampla que eleva o risco de um conflito regional mais abrangente.
A agência semioficial iraniana Fars informou que mísseis iranianos tiveram como alvo instalações militares dos EUA, incluindo a base aérea de Al Udeid, no Catar; a base aérea de Ali Al Salem, no Kuwait; a base aérea de Al Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos; e o quartel-general da 5ª Frota da Marinha americana, no Bahrein. Israel, Jordânia e Arábia Saudita também foram atingidos nos ataques deste sábado.
Há semanas, à medida que os EUA reforçavam sua presença militar na região, autoridades iranianas vinham prometendo retaliar contra Israel e “transformar todos os interesses, bases e centros de influência americanos” em alvos.
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A resposta de sábado foi ampla, mas ficou abaixo da intensidade que muitos analistas esperavam.
Ainda é cedo para dimensionar totalmente o alcance da reação iraniana, mas os primeiros sinais indicam que ela tem sido mais difusa do que na guerra de 12 dias de junho passado, quando o Irã lançou quase 600 mísseis contra Israel.
Naquele conflito, forças americanas atacaram três instalações nucleares iranianas, mas Teerã demorou mais de um dia para responder, disparando mísseis contra a base aérea de Al Udeid, no Catar. A maioria foi interceptada, sem causar baixas.
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Os ataques foram vistos, em grande parte, como contidos e simbólicos, e o Irã havia alertado antecipadamente Estados Unidos e Catar. O então presidente Donald Trump chegou a agradecer a Teerã por demonstrar “moderação” e disse que era “hora de paz”.
A retaliação de sábado, ao atingir múltiplos interesses americanos em diversos países, aumentou a preocupação com uma eventual escalada do conflito, colocando em risco civis e infraestrutura em toda a região.
“Os iranianos estão respondendo espalhando a dor pela região e tentando impor custos a aliados e parceiros dos EUA que abrigam forças e bases americanas”, disse Dana Stroul, diretora de pesquisa do Washington Institute for Near East Policy e ex-subsecretária-adjunta de Defesa para o Oriente Médio.
Entre os países atingidos neste sábado estão os Emirados Árabes Unidos, onde o Ministério da Defesa informou ter interceptado vários mísseis lançados do Irã. Segundo a pasta, destroços caíram em um bairro residencial de Abu Dhabi, matando uma pessoa e causando danos materiais.
A agência estatal de notícias da Jordânia informou que as forças armadas do país interceptaram dois mísseis balísticos que entraram no espaço aéreo jordaniano, sem detalhar de onde foram lançados.
O Ministério da Defesa do Catar disse ter interceptado pelo menos duas ondas de ataques com mísseis. Em nota, o Ministério do Interior afirmou que não havia registro de vítimas ou danos em áreas residenciais.
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A Arábia Saudita também declarou ter interceptado ataques direcionados à capital, Riad, e à região leste, e classificou as ofensivas iranianas em seu território como “covardes”.
Em comunicado anterior neste sábado, o governo saudita já havia manifestado apoio a outros países árabes que sofreram ataques de retaliação e prometido ajudá-los.
O Estreito de Ormuz, corredor estratégico para o transporte marítimo global, foi “praticamente fechado”, segundo a Tasnim, agência ligada à Guarda Revolucionária, a força militar mais poderosa do Irã. A medida pode interromper uma das rotas mais vitais de escoamento de energia do mundo: cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados por via marítima passam pelo estreito.
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Sirenas soaram em todo o território israelense nas horas seguintes ao início dos ataques contra o Irã. A mídia local reportou mísseis iranianos na região de Tirat Carmel, no distrito de Haifa, onde um grande fragmento atingiu um prédio residencial, provocando danos estruturais e ferindo um morador.
Em Umm al-Fahm e em outra comunidade no norte de Israel, foram registradas lesões leves. Destroços e pontos de impacto também foram identificados em Jerusalém, Beit Shemesh, Kafr Manda, Kafr Harif e áreas do sul do país.
Segundo o serviço de emergência israelense Magen David Adom, não há registro de mortos em Israel, além de pessoas feridas enquanto se deslocavam para abrigos.
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O Irã também mantém o que chama de “Eixo da Resistência” por meio de grupos aliados em diferentes países do Oriente Médio, como os houthis no Iêmen e o Hezbollah no Líbano, que Teerã usa para ampliar sua influência e enfrentar rivais. Apesar de enfraquecidas, essas milícias ainda têm capacidade de atacar forças americanas e aliados regionais, o que pode ampliar o conflito para além das fronteiras iranianas.
Após ataques a um de seus redutos neste sábado, o Kataib Hezbollah — a mais poderosa milícia pró-Irã no Iraque — anunciou que irá retaliar. “Em breve começaremos a atacar bases americanas em resposta à agressão deles”, disse um dos líderes do grupo ao The New York Times.
O Hezbollah, por sua vez, condenou em comunicado os ataques de EUA e Israel ao Irã, mas não deixou claro se pretende entrar diretamente no conflito para defender Teerã.
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Os ataques deste sábado levaram ao fechamento de espaços aéreos em vários pontos da região.
Qatar Airways e Emirates anunciaram a suspensão temporária de voos de e para seus hubs em Doha (Catar) e Dubai (Emirados Árabes Unidos), respectivamente.
A autoridade de aviação civil da Síria informou que fecharia os corredores aéreos do sul do país por 12 horas a partir do meio-dia, com o tráfego redirecionado para rotas alternativas aprovadas, segundo comunicado.
As defesas aéreas e outras capacidades militares do Irã foram enfraquecidas durante a guerra do ano passado com Israel, reduzindo o nível de prontidão antes desta nova rodada de ataques. Ainda assim, especialistas avaliam que Teerã pode estar poupando parte de seu poder de fogo, esperando que a operação dure vários dias, como autoridades americanas já sugeriram.
“A política do Irã aqui é de resistência”, disse Ali Vaez, do International Crisis Group, acrescentando que o país tem alta capacidade de absorver perdas. “Se isso virar uma guerra de atrito, EUA e Israel têm mais chance de piscar primeiro do que o Irã.”
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.
Fonte: Info Money













