Inflação amena e emprego aquecido nos EUA sugerem Fed ainda cauteloso até junho

O dado ameno da inflação ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos em janeiro divulgado hoje — somado aos números do mercado de trabalho ainda aquecidos no início de 2026, publicados no início da semana – fortalece a tese de que o Federal Reserve manterá a prudência em suas reuniões de março e até mesmo em abril, segurando os juros na atual faixa entre 3,50% a 3,75%. Para os economistas, junho parece ser a data mais provável para um início de cortes.

Essa avaliação pode ser comprovada na observação do FedWatch, ferramenta da CME que acompanha as probabilidade que o mercado calcula para a política monetária: um possível corte de 0,25 p.p. em março está hoje com apenas 9,7% de chance, probabilidade que sobe para 28,1% em abril e para 50,2% em junho.

Segundo relatório do Departamento do Trabalho divulgado nesta sexta-feira (13), o índice de preços ao consumidor (CPI) subiu 0,2% no mês, ante 0,3% em dezembro. Em 12 meses, o índice ficou em 2,4%, abaixo dos 2,7% atingidos até o mês anterior.

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Para Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research,  os arrefecimento do índice cheio e também do núcleo da inflação são uma notícia positiva para o Federal Reserve. “No que se refere aos choques tarifários, os preços de bens duráveis seguem comportados e vêm desacelerando na comparação anual. Parte do impacto das tarifas tem sido absorvida pelas empresas, que optam por preservar margens ou competitividade, reduzindo o repasse imediato ao consumidor”, comenta.

Ele alerta, no entanto, que os preços dos serviços avançaram 2,9% nos últimos 12 meses, evidenciando que a inflação permanece mais resiliente nesse segmento. “Esta dinâmica e a recente elevação das médias móveis de três e seis meses do núcleo exigem cautela. O processo desinflacionário avança, mas em ritmo gradual e com heterogeneidade entre os componentes”, explica.

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A opinião de Sung é que os dados de janeiro, embora ligeiramente melhores do que o esperado, não alteram o plano de voo do Fed. “A autoridade monetária deve manter postura prudente, sobretudo diante de um mercado de trabalho que permanece equilibrado e ainda relativamente resiliente”, afirma.

“Em nosso cenário-base, projetamos que a inflação continue desacelerando de forma gradual ao longo do ano, encerrando 2026 entre 2,3% e 2,5%. Nesse contexto, avaliamos que o Fed poderá retomar o ciclo de cortes de juros no segundo trimestre de 2026”, prevê.

Dependente de dados

Claudia Moreno, economista do C6 Bank, destaca que a inflação acumulada em 12 meses continua elevada e acima da meta de 2% definida pelo Fed. E que o núcleo do CPI mostra que os preços de serviços seguem pressionados, com alta de 2,9% nos 12 meses até janeiro. “Já os preços de bens industriais, que subiram 1,1% no mesmo período, podem continuar sentindo os efeitos do aumento de tarifas comerciais imposto no ano passado pelo governo americano”, compara.

Como o próprio Fed frisou que estará dependente de dados para tomar suas decisões, Claudia sugere aguardar os dados de inflação e emprego que serão divulgados no mês para maior clareza sobre o cenário. “Por ora, nossa expectativa é de que os juros sejam mantidos no intervalo atual, de 3,5% a 3,75%, na reunião de março.”

A avaliação do Itaú é que, embora o CPI tenha vindo abaixo das expectativas, as estimativas para o núcleo do PCE [o indicador de inflação preferido pelo Fed] ainda apontam para riscos de alta. “Vemos um possível intervalo entre 0,35% e 0,49%, refletindo alta volatilidade em alguns componentes — como serviços médicos. Nossa estimativa preliminar é de 0,45%, nível ainda elevado e desfavorável para cortes de juros pelo Fed”, informou o banco.

Já André Valério, economista sênior do Inter, adverte que o dado do CPI americano continua subestimado devido aos ajustes técnicos necessários para lidar com a falta de coleta de preços durante o shutdown do governo americano em outubro. “Em particular, a inflação de aluguel está enviesada para baixo, especialmente na comparação anual, o que leva a uma estimativa do CPI anual mais baixa, e que deve perdurar até meados desse ano, devido à memória de cálculo”, explica

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Mas Valério admite que há poucos sinais de pressão inflacionária na economia americana. “O dado do payroll mais forte que o esperado, conjuntamente com a queda na taxa de desemprego, deve levar o Fed a manter a cautela na condução da política monetária, reforçando a visão dos membros do comitê de que o nível atual da taxa de juros esteja bem próximo ao considerado neutro, não sendo, assim, necessários novos cortes para o cumprimento do mandato duplo do Fed”, destaca.

Para o economista do Inter, a retomada de cortes nos juros nos EUA só deve acontecer a partir de junho, salvo uma desaceleração mais acentuada do mercado de trabalho. “Apesar do payroll forte de janeiro, os dados alternativos do mercado de trabalho apontam para uma desaceleração na margem, portanto, podemos ver tal desaceleração se manifestar nas próximas leituras do payroll, mas não a tempo de impactar a decisão de março, quando esperamos que o Fed mantenha os juros inalterados”, defende.

Na visão do Bradesco, as métricas subjacentes da inflação mostraram-se encorajadoras, apesar da persistência de algum repasse tarifário e da alta acima do previsto em determinados grupos de serviços. “Para o Federal Reserve (Fed), os dados provavelmente terão impacto limitado no curto prazo, mas reduzem parcialmente as preocupações com uma reaceleração substancial da inflação neste momento.”

Fonte: Info Money

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