Entenda o esquema investigado pela PF que liga Ciro Nogueira a Vorcaro

A Polícia Federal investiga um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e favorecimento político envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e Daniel Vorcaro. O caso integra a operação Compliance Zero, cuja nova fase foi deflagrada nesta 5ª feira (7.mai.2026).

Segundo a investigação, Vorcaro teria concedido vantagens econômicas ao senador em troca de atuação congressista favorável a interesses do grupo econômico ligado ao Banco Master.

A decisão do ministro André Mendonça afirma que os elementos reunidos apontam para “um arranjo funcional e instrumentalmente orientado para obtenção de benefícios mútuos, extrapolando relações de mera amizade”. Eis a íntegra da decisão (PDF – 298 kB).

O Poder360 procurou o senador Ciro Nogueira para perguntar se gostaria de se manifestar a respeito da investigação da Polícia Federal. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada a este jornal digital.

COMO FUNCIONOU O ESQUEMA, SEGUNDO A PF

A investigação descreve 4 frentes principais:

  1. atuação legislativa em favor do Banco Master;
  2. pagamentos mensais e benefícios pessoais;
  3. operação societária considerada irregular;
  4. uso de empresas para ocultar movimentações financeiras.

A EMENDA AO FGC

O principal episódio citado pela PF envolve uma emenda apresentada por Ciro Nogueira à PEC 65 de 2023. A proposta aumentava a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.

Segundo a investigação:

  • o texto foi elaborado pela assessoria do Banco Master;
  • enviado a Daniel Vorcaro;
  • impresso;
  • colocado em envelope destinado a “Ciro”;
  • entregue na residência do senador.

A PF afirma que o conteúdo apresentado no Senado reproduziu “de forma integral” a versão preparada pelo banco.

A decisão ainda reproduz mensagens atribuídas a Vorcaro nas quais ele afirma que a emenda: “Saiu exatamente como mandei”.

Segundo a investigação, integrantes do banco avaliavam internamente que a mudança poderia “sextuplicar” os negócios do Master e provocar uma “hecatombe” no mercado financeiro.

OS PAGAMENTOS MENSAIS

Outro eixo central da investigação envolve repasses periódicos atribuídos ao grupo de Vorcaro em favor do senador.

Segundo a PF, existia uma “parceria BRGD/CNLF”, usada para operacionalizar pagamentos mensais inicialmente de R$ 300 mil e depois elevados para R$ 500 mil.

As mensagens reproduzidas na decisão mostram conversas entre Felipe Cançado Vorcaro e Daniel Vorcaro:

“Oi, é para continuar pagando a parceria brgd/cnlf? 300k mes?”

Daniel responde:

“Sim”.

Depois, os investigadores citam outro diálogo:

“Cara eu no meio dessa guerra atrasou dois meses ciro?”

Na sequência:

“Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”

Para a PF, as mensagens indicam pagamentos contínuos ligados ao senador.

A COMPRA DE ATIVO DE R$ 13 MILHÕES

A investigação também aponta uma operação societária considerada suspeita.

Segundo a PF, a empresa CNLF Empreendimentos, ligada ao núcleo familiar de Ciro Nogueira, comprou 30% da Green Investimentos S.A. pagando R$ 1 milhão.

O problema apontado pela investigação é que essa fatia teria valor de mercado estimado em aproximadamente R$ 13 milhões.

Para os investigadores, isso representaria um “deságio expressivo” e uma vantagem econômica indireta ao senador.

A PF sustenta que a própria empresa gerava dividendos milionários. Em uma das mensagens citadas:

“Recebemos a distribuição anual da Trinity. 2,4 MM a nossa parte, 20% dos 12 MM totais distribuídos”.

Segundo os cálculos da PF, a empresa ligada ao senador poderia receber cerca de R$ 720 mil em dividendos em apenas um ano, fazendo o investimento praticamente se pagar rapidamente.

A investigação afirma ainda que a operação teria sido estruturada com “contrato de gaveta” para evitar mecanismos de fiscalização.

VIAGENS, HOTEL E IMÓVEL DE LUXO

A decisão também cita benefícios pessoais atribuídos ao grupo de Vorcaro em favor de Ciro Nogueira.

Segundo Mendonça, há indícios de:

  • custeio de viagens internacionais;
  • hospedagens;
  • restaurantes caros;
  • voos privados;
  • uso gratuito de imóvel de alto padrão;
  • disponibilização de cartão para despesas pessoais.

A decisão menciona hospedagens no Park Hyatt New York e gastos relacionados ao senador e à acompanhante dele.

Em um diálogo citado pela PF:

“Só uma pergunta rápida… eh pros meninos continuarem pagando conta dos restaurantes do Ciro/Flávia até Sábado?”

Daniel Vorcaro responde:

“Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”.

O QUE DIZ MENDONÇA

Na decisão, o ministro André Mendonça afirma que os elementos reunidos indicam, em tese:

  • corrupção passiva;
  • corrupção ativa;
  • organização criminosa;
  • lavagem de dinheiro;
  • crimes contra o sistema financeiro nacional.

Segundo o ministro, os investigados teriam capacidade de:

  • ocultar provas;
  • alinhar versões;
  • combinar estratégias defensivas;
  • interferir nas investigações.

Por isso, Mendonça determinou como medida cautelar que Ciro Nogueira fique proibido de manter contato com outros investigados da Operação Compliance Zero.



Fonte: Poder 360

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