Eleições em Hungria, Colômbia e Peru entram no radar do Planalto

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acompanha as eleições na Hungria, Colômbia e Peru como parte de um mesmo movimento global, visto como teste da influência externa –sobretudo dos Estados Unidos. 

A preocupação se amplia diante das próprias eleições brasileiras em outubro. A avaliação é que os casos ajudam a medir tendências políticas globais, como a capacidade de mobilização da direita e o alcance de influências externas em eleições.

No domingo (12.abr), a Hungria coloca em xeque 16 anos do primeiro-ministro Viktor Orbán (Fidesz, extrema-direita) e a capacidade americana de influenciar eleições. No mesmo dia, o Peru escolherá entre dezenas de candidatos durante um dos maiores reveses de governabilidade das Américas. Em 31 de maio, a Colômbia define o sucessor de Gustavo Petro (Pacto Histórico, esquerda) numa corrida que traça o rumo da esquerda no continente.

No Planalto, a leitura é que, apesar das diferenças entre os 3 casos, há 1 elemento comum: a disputa entre projetos políticos em um cenário internacional mais polarizado e com maior presença de atores externos.

HUNGRIA COMO ESTUDO DE CASO

A eleição húngara foi classificada pela revista Politico Europa como a mais importante da União Europeia em 2026.

Viktor Orbán tenta o 5º mandato consecutivo diante do desafio mais sério de sua trajetória: o ex-aliado Péter Magyar (Tisza, centro-direita), fundador do partido Tisza.

Orbán é referência para a direita global. Recebeu o argentino Javier Milei (La Libertad Avanza, direita) em março e o chileno José Antonio Kast (Partido Republicano, direita) em fevereiro.

Apesar disso, ele tenta equilibrar relações com diferentes polos de poder. Embora a Hungria integre a UE e a Otan, Orbán mantém proximidade com a Rússia de Vladimir Putin e diálogo político com o presidente dos EUA, Donald Trump (Partido Republicano).

A relação com Trump é marcada por afinidade ideológica e estratégia política, com convergência em temas como imigração, soberania nacional e críticas a instituições multilaterais.

A corrida ganhou dimensão geopolítica maior quando o vice-presidente dos EUA, JD Vance (Partido Republicano, direita), decidiu ir a Budapeste para participar de um comício ao lado de Orbán.

A visita converteu a eleição húngara num teste sobre a capacidade americana de influenciar processos eleitorais em outros países.

AMÉRICA LATINA EM TENSÃO

Já na América Latina, Peru e Colômbia entram no radar como exemplos de um ambiente regional mais instável.

No Peru, as eleições gerais serão realizadas durante um prolongado problema de governabilidade. O país teve sucessivas trocas de presidente nos últimos anos, o que, na avaliação do Planalto, fragiliza o ambiente institucional. 

A multiplicidade de candidaturas e a ausência de um favorito claro reforçam o risco de fragmentação e instabilidade política no país.

Entre os principais candidatos estão Keiko Fujimori (Fuerza Popular, direita), Rafael López Aliaga (Renovación Popular, extrema-direita), Carlos Álvarez (outsider populista) e Alfonso López Chau (esquerda). Também aparecem Jorge Nieto (centro), César Acuña (centro-direita) e Roberto Sánchez (esquerda).

No caso colombiano, o histórico recente de alternância de poder e a fragmentação política são vistos como fatores que ampliam a imprevisibilidade do processo eleitoral. 

Iván Cepeda (Pacto Histórico, esquerda) aparece como um dos nomes ligados ao campo governista. Do outro lado, a oposição se articula com candidaturas como Sergio Fajardo (centro) e Federico Gutiérrez (direita) –que despontam mais que Petro.

O resultado pode indicar o grau de resiliência de governos de esquerda na região diante de um ambiente político mais adverso.

Cenário doméstico

A escalada de tensão entre Estados Unidos e Venezuela já tinha sido um gatilho de que o cenário internacional iria impactar o ambiente político brasileiro em 2026.

Diante disso, auxiliares do presidente passaram a monitorar com mais atenção movimentos de atores brasileiros e agendas externas em temas sensíveis como soberania e segurança institucional.

A preocupação se soma ao monitoramento de declarações de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que, na visão do Planalto, têm buscado internacionalizar o debate político brasileiro.

São citados episódios recentes como a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na CPAC (Conferência de Ação Política Conservadora, na tradução do inglês). Na ocasião, o senador pediu monitoramento externo das eleições no Brasil e criticou decisões do Judiciário, especialmente no campo da liberdade de expressão.

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Reprodução/Youtube @CPACplus – 28.mar.2026

Flávio Bolsonaro em discurso na CPAC em 28 de março de 2026

A atuação de um dos irmãos de Flávio também é mencionada. O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) mora nos Estados Unidos e mantém interlocução frequente com líderes da direita americana. 

Esses movimentos, somados à reação política do tarifaço imposto pelos Estados Unidos, indicam para o Planalto uma tentativa de internacionalizar o debate doméstico e abrir espaço para pressão externa sobre instituições brasileiras.

Para isso, o governo Lula age com pílulas. Em 17 de abril, o presidente viaja à Europa. Em compromissos na Espanha e na Alemanha, vai incluir nas discussões debates sobre democracia, polarização e extremismo.


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Fonte: Poder 360

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