Efeito Ozempic e Copa do Mundo elevam o otimismo da JBS em 2026 – mesmo com margens em queda

Nos Estados Unidos, a Coca-Cola lançou uma bebida com proteína. A Starbucks colocou proteína no café. Na maior conferência do setor de alimentos, em Orlando, gigantes como Pepsi e Conagra disputaram espaço nas apresentações para mostrar seus novos produtos proteicos.

Quem resume a cena é Guilherme Cavalcanti, CFO (Chief Financial Officer) da JBS: “É a onda protein crazy. Todo mundo tentando adaptar seu portfólio para ter mais proteína, enquanto a JBS já nasce com a proteína”, diz o executivo em entrevista ao InvestNews.

A corrida tem um combustível poderoso vindo da indústria farmacêutica.

Mais de 15 milhões de americanos já usam medicamentos emagrecedores à base de GLP-1 (hormônio que regula a glicose no corpo, estimula a produção de insulina e promove a sensação de saciedade), como o Ozempic e o Wegovy, e a expectativa é que esse contingente dobre nos próximos anos.

E, conforme consomem tais medicamentos, as pessoas passam a comer menos, mas a priorizar o consumo de proteína, para evitar a perda de massa magra que vem acompanhada do emagrecimento.

No Brasil, a queda da patente da semaglutida – medicamento análogo do GLP-1 – no último dia 21 de março abre caminho para genéricos mais baratos do que os dois acima citados da Novo Nordisk — e, potencialmente, para uma expansão parecida do consumo orientado por proteína. A expectativa de consultorias de mercado é que o preço da dose do medicamento caia entre 30% e 50%.

Nos Estados Unidos, onde as canetas já têm maior adesão da sociedade, a ingestão de proteína virou tema de política pública.

Novas diretrizes alimentares foram estabelecidas, com a recomendação de elevar a ingestão diária de proteína de 1,1 grama por quilo de peso corporal para algo entre 1,6 e 2 gramas.

Isso significa que a demanda se manteve aquecida mesmo que o preço da proteína animal tenha ficado significativamente mais caro.

Antes da pandemia, a carne moída nos EUA custava cerca de US$ 4 a libra (correspondente a 0,4536 quilogramas); hoje, está em US$ 6,75. O peito de frango subiu de US$ 3 para US$ 4,14, e a carne de porco, de US$ 4 para US$ 4,50.

O diferencial de preço entre a carne bovina e as demais proteínas nunca foi tão grande — e, ainda assim, a JBS entregou receita recorde. “A demanda por proteína está muito forte. Mesmo com o aumento de preço, as pessoas continuam comprando”, diz o CFO.

Copa nos EUA e o mercado doméstico

A JBS quer capturar mais valor desse momento — e está colocando dinheiro nisso.

Friboi e Seara, as duas principais marcas do grupo no Brasil, patrocinam a transmissão da Copa do Mundo deste ano na transmissão pelo SBT, na bancada de Galvão Bueno.

O Mundial acontece de 11 junho a 19 julho nos Estados Unidos, no México e no Canadá, e os jogos do Brasil na primeira fase serão à noite, às 19h e às 21h30 — horários que não são tão atraentes como o do churrasco na tarde de domingo, mas que combinam com o jantar em casa com amigos.

“Copa do Mundo sempre movimenta a economia e vai ser uma aposta importante”, diz Cavalcanti. “O Brasil tem crescido, o desemprego está nos menores níveis. Com uma situação econômica favorável, isso vai proporcionar uma demanda igualmente favorável.”

O otimismo com o mercado doméstico apoia a estratégia das duas principais marcas do grupo.

Na Convenção de Supermercados no Rio de Janeiro, a Nielsen apresentou um comparativo: lojas que adotaram o programa Friboi+ — o modelo de açougue dentro do supermercado operado pela JBS — registraram faturamento 40% maior do que aquelas com açougue tradicional.

A Seara, por sua vez, tem ampliado as linhas de maior valor agregado.

Produtos com teor mais elevado de proteína, itens para air fryer e produtos clean label (com ingredientes naturais) crescem mais rápido em vendas do que itens tradicionais. Os investimentos em novas plantas devem ser concluídos ao longo de 2026, adicionando entre 10% e 13% de capacidade produtiva.

O boi que falta nos Estados Unidos

O otimismo com a demanda, porém, convive com um desafio concreto: o rebanho bovino americano está encolhendo, e não vai se recompor tão cedo. O ciclo do gado é lento por natureza — nove meses de gestação, seis meses no pasto, mais um período de engorda. Cavalcanti estima que a situação deve permanecer apertada por mais um ano e meio a dois anos.

O início de 2026 foi, segundo a companhia, o mais desafiador já visto na indústria em anos. Os spreads de janeiro e fevereiro entre o custo do gado e o preço dos cortes estiveram entre os piores já registrados. O abate de vacas de cria caiu de 3,9 milhões de cabeças em 2022 para 2,3 milhões em 2025 — quase metade.

Há fatores que podem trazer alívio. Cerca de 1,2 a 1,5 milhão de cabeças estão retidas no México por questões sanitárias, e concorrentes estão fechando capacidade. Mas a JBS não espera fechar plantas próprias — a diversificação geográfica é a sua resposta.

A Austrália vive momento de rebanho recorde, e o Brasil tem potencial de produtividade considerado pouco explorado: com 220 milhões de cabeças, produz 11 milhões de toneladas de carne por ano, quase o mesmo que os EUA com 84 milhões.

“Se o rebanho dos Estados Unidos não voltar para os níveis do passado, isso vai significar mais exportação do Brasil e da Austrália”, diz Cavalcanti.

Analistas do BTG Pactual projetam margem Ebitda negativa de 0,9% para a divisão de carne bovina americana em 2026. O Bank of America converge: espera recuperação significativa só em 2028.

Frango como risco

Se o boi americano é o problema conhecido, o frango é o risco que está no radar dos analistas. Nos últimos dois anos, as margens foram excepcionalmente boas, sustentadas por problemas genéticos que limitaram a oferta. Agora, esses gargalos se dissipam.

No Brasil, o alojamento de pintos cresceu entre 2% e 3% até fevereiro, e o plantel de matrizes aumentou 10% em 2025. O BTG projeta queda de margem EBITDA da Pilgrim’s de 15,2% para 12,6%, e da Seara de 17% para 12,6%. O Bank of America estima contrações de 2,5 pontos percentuais na Seara e 1,9 na Pilgrim’s, mas reconhece pouca convicção sobre o momento da correção.

De olho no S&P 500

Antes da listagem nos EUA, a JBS negociava a cerca de 5 vezes EV/Ebitda (enterprise value/resultado operacional). Hoje, o múltiplo avançou para 6,3 — mas ainda abaixo dos de Tyson (8,2) e Smithfield (7,3).

A razão do desconto era estrutural: a maioria dos fundos americanos não tem mandato do investidor para comprar ações na B3. “O mercado de fundos americanos que investem em empresas da SEC [Securities and Exchange Commission, o equivalente nos EUA da Comissão de Valores Mobiliários) é quatro vezes maior do que todos os mercados emergentes juntos”, diz Cavalcanti.

JBS estreia na NYSE, a Bolsa de Nova York
JBS estreou na NYSE, a Bolsa de Nova York, em junho de 2025 (Divulgação)

Desde a estreia em Nova York, investidores americanos passaram do equivalente a 49% para cerca de 70% do free float (as ações em circulação). O volume diário de negociação triplicou.

O próximo passo é entrar nos principais índices, o que tende a ampliar ainda mais a liquidez, dado o número de fundos que seguem tais benchmarks: o ingresso no Russell 2000 pode vir já em junho, com demanda estimada de 14 milhões de ações.

A meta de longo prazo é o S&P 500, que exige um valor de mercado de US$ 22,7 bilhões.

A Vanguard, com alguns dos maiores fundos passivos do mundo, possui US$ 24 milhões alocados em ações da JBS e US$ 2,4 bilhões na Tyson — cem vezes mais. Analistas do BTG Pactual estimam que a entrada no S&P 500 geraria US$ 3 bilhões em fluxo passivo para a companhia.

A JBS encerrou o quarto trimestre de 2025 com US$ 4,8 bilhões em caixa, sem vencimentos relevantes até 2031 e com 90% da dívida a taxas fixas.

O Bank of America testou um cenário de estresse com margens mínimas em três divisões ao mesmo tempo: a alavancagem subiria para 3,4 vezes — administrável para uma empresa com grau de investimento. A JBS anunciou o pagamento de dividendo de US$ 1,0 por ação para junho, e o BofA estima um yield médio de 7,7% entre 2026 e 2030.

“A nossa prioridade agora é consolidar a listagem, entrar nesses índices e fechar mais esse gap no múltiplo”, diz Cavalcanti. “E então, sim, será hora de pensar em crescer mais.”

Fonte: Invest News

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