Como bonecos gigantes de três metros de altura ganham vida no Carnaval

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Os bonecos gigantes do carnaval de Olinda, com alturas que variam de três a quatro metros, são carregados por foliões que enfrentam desafios físicos e climáticos durante os desfiles. O peso médio dos bonecos atualmente é de 20 a 30 quilos, e a tradição remonta a influências europeias, com o primeiro boneco brasileiro, Zé Pereira, criado em 1919.

O Homem da Meia-Noite, um dos mais icônicos, desfila desde 1932 e é considerado um calunga, representando figuras sagradas na cultura afro-brasileira. Além de desfiles, os bonecos também têm histórias de amor, como o romance entre o Homem da Meia-Noite e a Mulher do Meio-Dia, que resultou em filhos.

A Embaixada dos Bonecos Gigantes no Recife abriga figuras de celebridades, enquanto novos bonecos continuam a surgir, refletindo a cultura e a criatividade do carnaval.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Olinda — No mar de gente que lota as ruas do carnaval de Olinda, há figuras que inevitavelmente se destacam: os bonecos gigantes. Geralmente medindo por volta de três metros de altura — em alguns casos, chegando a até quatro metros —, eles ganham vida por meio de alguém disposto o suficiente para carregar a pesada estrutura desses colossos ao longo de alguns quilômetros, não raro em condições adversas.

Se os bonecos mais antigos poderiam pesar 40 quilos, hoje o peso médio fica entre 20 e 30 quilos, ainda que alguns passem disso, a depender da altura e dos adereços. E, tal qual os foliões mais animados, os gigantes acompanham os desfiles das agremiações do início ao fim.

Os trajetos não são necessariamente longos, mas são complexos, levando em consideração que isso é feito por alguém carregando e movimentando os bonecos nas subidas e descidas do Sítio Histórico de Olinda, principalmente nos dias mais quentes.

Morador de Olinda, Marcos Antônio, de 33 anos, começou a relação com os bonecos do carnaval ainda na infância. Aos sete, carregou seu primeiro boneco mirim, versão em menor escala dos gigantes utilizada sobretudo por crianças. “Foi de onde veio a paixão, e até hoje estou carregando boneco”, diz ele, que desde 2014 é o responsável por levar o boneco da troça Linguarudo de Ouro Preto.

Como conta ao NeoFeed, a tarefa de carregar os gigantes é mais uma questão de costume do que de preparo físico, embora ele mantenha uma rotina regular de exercícios, que inclui corrida e academia. O Linguarudo, com cerca de 35 quilos, é o mais pesado entre os que ele carrega habitualmente.

O artista plástico Paulo Cezar, de 41 anos, foi outro contagiado pelos gigantes desde a infância, quando ganhou do pai o primeiro boneco mirim. Nos anos seguintes, foi desenvolvendo seus próprios bonecos e, ainda na adolescência, recebeu as primeiras encomendas. Com 28 anos de carreira, ele estima já ter feito mais de mil bonecos.

Apesar de serem símbolos do carnaval de Pernambuco, os bonecos gigantes têm inspiração em festejos europeus. Há registros desde a Idade Média de figuras gigantes utilizadas em procissões e em festas populares, algo que se mantém em países como Portugal, França e Bélgica.

Pelas mãos de um padre belga

Os gigantes pioneiros do carnaval pernambucano nasceram no interior do estado, em Belém do São Francisco, a partir de um padre belga que chegou à cidade por volta de 1910. Além do trabalho religioso, o padre Norberto Phalempin difundiu no local um pouco da cultura e da arte europeia.

Os relatos do religioso sobre o uso de figuras gigantes em procissões inspiraram o artesão Gumercindo Pires de Carvalho, que criou, em 1919, o boneco gigante Zé Pereira, o primeiro do Brasil.

“Dez anos depois, surgiu a boneca gigante Vitalina, que passou a acompanhar o Zé Pereira”, afirma ao NeoFeed Emerson da Silva Neto, agente administrativo da Secretaria de Turismo, Cultura e Desenvolvimento Econômico de Belém do São Francisco, pasta responsável pelo Memorial Zé Pereira e Vitalina.

Já em Olinda, o mais antigo boneco a circular é também o mais célebre, e carregado de uma aura quase mágica, o Homem da Meia-Noite, que desfila pontualmente à meia-noite, na virada do sábado de carnaval para o domingo.

Com seus imponentes quatro metros e elegantemente vestido, o Homem na Meia-Noite não é tratado simplesmente como um boneco gigante, mas sim um calunga, como são chamadas na cultura afro-brasileira as figuras sagradas que representam ancestrais ou entidades. O primeiro desfile dele foi em 2 de fevereiro de 1932, dia de Iemanjá, divindade das águas do candomblé, o que reforça o caráter mítico do personagem.

A vida amorosa dos bonecos

Não são apenas os foliões que têm direito a viver seus amores de carnaval. O romance existe também entre os bonecos gigantes, inclusive com histórias longevas, com direito a casamento e filhos, como foi com o Homem da Meia-Noite e a Mulher do Meio-Dia.

Os dois raramente se encontram, pois tradicionalmente desfilam em dias e horários diferentes, mas o namoro existia desde os anos 1970 e pode ser comprovado em fotos da época que mostram os dois gigantes como se estivessem aos beijos.

O mais longevo gigante de Olinda desfila há mais de 90 anos, sempre na virada do sábado para o domingo (Foto: Antônio Cruz/ABr)

Marcos Antônio carrega há mais de dez anos o Linguarudo de Ouro Preto nos desfiles de carnaval (Foto: Breno Pessoa)

O Urso Congelado tem como uma de suas inspirações o congelamento de preços e salários no governo Sarney (Foto: Divulgação)

As versões atuais dos bonecos de Zé Pereira e Vitalina, em Belém do São Francisco, interior de Pernambuco (Foto: Emerson Neto/Divulgação)

Casamento Menino e Vaidosa: Os bonecos olindenses celebraram o noivado em festa no Recife (Foto: Hugo Muniz/Divulgação)

A Embaixada dos Bonecos Gigantes reúne um acervo que inclui desde celebridades a personagens da ficção, incluindo super-heróis (Foto: Breno Pessoa)

O boneco gigante John Travolta não tem nada do ator americano (Foto: Breno Pessoa)

Base do molde para o boneco gigante do cantor Bruno Mars, que está sendo feito no ateliê da Embaixada (Foto: Breno Pessoa)

O casamento do Homem da Meia-Noite e da Mulher do Meio-Dia foi realizado em 1990 (Foto: Pedro Leal/Arquivo Público de Olinda)

Em algumas regiões de Portugal, é possível encontrar os gigantones e cabeçudos em romarias e festejos de carnaval (Foto: Rossino/Creative Commons)

No continente africano, também é possível encontrar os gigantes, como no Marrocos (Foto: Houssain Tork/Creative Commons)

Dessa relação “nasceram” o Menino da Tarde e a Menina da Tarde, e a união foi sacramentada com um casamento em 1990. O Menino da Tarde, assim como o pai, também demonstra inclinação para o romance: recentemente ficou noivo da Vaidosa, gigante da agremiação de mesmo nome.

A relação entre os dois foi percebida pela multiartista Maria Flor, que diz ter notado um flerte entre o Menino e a Vaidosa num cortejo e teve a sensação de que um gigante estava a olhar para o outro.

Ao comentar sobre o ocorrido com o presidente da troça A Vaidosa, o olhar de Maria Flor sobre os bonecos acabou por dar origem a um noivado celebrado entre os gigantes das duas troças, em setembro de 2025.

A Vaidosa, por sua vez, não é filha de boneco gigante. O pai, no caso, é o carnavalesco Edmilson Nascimento, que em 1995 criou a troça, responsável por uma das mais conhecidas bonecas de Olinda que, aliás, tem poucas figuras femininas.

“A ideia era justamente fazer uma troça que tivesse uma representação feminina. Foi muito significativo para que outras bonecas surgissem, e muitas mulheres também se viram representadas”, conta ao NeoFeed.

Agentes nada secretos

Na maioria dos casos, os bonecos gigantes funcionam como uma representação física das agremiações carnavalescas, como ocorre com o Homem da Meia-Noite. Mas nem sempre essas figuras são personagens fictícios. Um dos exemplos da cidade é o da troça John Travolta, cujo boneco é inspirado no ator de Os embalos de sábado à noite.

E os bonecos gigantes de famosos viraram uma tradição à parte. O maior reduto deles fica na Embaixada dos Bonecos Gigantes, no Recife. Idealizado pelo empresário Leandro Castro, o espaço mantém uma exposição permanente com cerca de 100 figuras.

Entre os mais novos rostos, os bonecos do ator Wagner Moura e do cineasta Kleber Mendonça Filho, de O agente secreto. “É como um Madame Tussauds, só que de bonecos gigantes”, diz Castro ao NeoFeed, em referência ao famoso museu de bonecos de cera fundado em Londres.

Enquanto celebridades são inspiração para novos gigantes, alguns têm origens mais abstratas, como o Urso Congelado. Dirigente e um dos fundadores da agremiação, Francisco Guerra de Holanda explica que o boneco tem duas inspirações: a brincadeira de carnaval das ursas – em que pessoas fantasiadas de urso batem lata pedindo dinheiro — e o congelamento de preço e salários na presidência de Sarney, à época da fundação da troça, em 1987.

Fonte: Neo Feed

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