China pede a bancos do país para se desfazerem de Treasuries e reforça movimento ‘venda América’

A onda do sell America, que tem sido uma das surpresas nos mercados globais neste começo do ano, ganhou um novo capítulo neste início de semana. As autoridades chinesas começaram a pressionar de maneira mais contundente os bancos do país a manter distância dos papéis do Tesouro dos EUA, conhecidas no mercado como Treasuries.

Houve nesta segunda-feira (9), oficialmente, uma “orientação” às instituições financeiras para limitar as compras de Treasuries ou ainda, no caso dos bancos com maior exposição aos títulos, de reduzir seu estoque. O motivo? Ter uma maior diversificação de risco.

Os juros dos títulos americanos passaram a subir após a decisão dos reguladores chineses. Os juros da Treasury de 10 anos, referência do mercado, chegaram a subir nesta segunda-feira a 4,25% ao ano frente aos 4,22% ao ano do fechamento da sexta-feira. Já a taxa dos Treasuries de 30 anos avançou três pontos-base, para 4,88% ao ano, Nesse mercado, taxas subindo significam que os papéis estão passando por uma onda de vendas.

Para o Brasil, o sell America tem trazido um fluxo elevado de recursos para a bolsa e outros investimentos. O Ibovespa, o principal índice acionário brasileiro, tem superado recordes seguidos nas últimas duas semanas e quase se aproxima da marca “real”, quando o referencial é atualizado pela inflação.

Mas além da diversificação de riscos, o que a China realmente busca? Um dos objetivos é reduzir ao máximo as vulnerabilidades financeiras em relação a Washington. Isso tendo como pano de fundo uma escalada das tensões geopolíticas promovidas pelo presidente americano Donald Trump em várias regiões do globo.

Como a guerra entre Rússia e Ucrânia mostrou, em caso de um conflito entre os países, reservas em moeda estrangeira podem ser congeladas. E a China é a terceira maior credora do mundo em Treasuries, com cerca de US$ 700 bilhões de recursos depositados nos títulos dos EUA.

Os termômetros geopolíticos têm subido conforme Trump protagoniza sucessivas turbulências internacionais. Esses eventos, por sua vez, alimentam um movimento de diversificação internacional fora dos EUA, o chamado sell America.

Só para relembrar, apenas nos últimos meses, o presidente dos EUA “atacou” o próprio banco central – o Federal Reserve, o Fed -, realizou uma intervenção armada na Venezuela, sinalizou que poderia invadir a Groenlândia e flertou com a ideia de interferir no câmbio para ajudar o Japão a fortalecer o iene.

Ainda recentemente, o país enfrentou o maior shutdown, ou seja, a paralisação parcial do governo, de sua história. Foram 43 dias seguidos, que comprometeram a divulgação de importantes dados econômicos, desde o relatório de emprego até índice de inflação. Só para contextualizar, o Fed sempre afirma ser “dependente de dados” para conduzir o timão da política monetária. Quer dizer que, durante o shutdown,o BC americano estava navegando meio às cegas.

Mas não dá para colocar tudo na conta do presidente americano, claro. Nessa equação também entram a queda dos juros no mundo – que empurra o capital para outros ativos – e o enfraquecimento do dólar.

No caso da China, vender títulos dos EUA pode ajudar o país, o maior exportador do mundo, a defender a própria moeda frente a divisa que é referência no comércio internacional. Outro ponto é evitar que os bancos tenham perdas caso os juros americanos subam ou o dólar desvalorize ainda mais.

A orientação dos reguladores chineses reforça essa visão do sell America, que pode se consolidar como uma tendência global recente. Países emergentes vistos como independentes dos dois blocos, como a Índia, por exemplo, passaram a reduziram sua exposição ao maior mercado de títulos do mundo, em meio a dúvidas crescentes sobre a atratividade dos ativos americanos.

Os investimentos em Treasuries da Índia caíram no início de 2026 para o menor volume em cinco anos. Os motivos estão alinhados com os da China: diversificar as reservas internacionais e dar suporte à moeda, frente ao enfraquecimento global do dólar.

“É a evidência mais recente de que um padrão está se formando — um sinal de que a expectativa de saídas estruturais de longo prazo do dólar não é apenas uma miragem”, disse Gareth Berry, estrategista do Macquarie Group.

As reserva chinesas de Treasuries, por sua vez, já estão no menor nível desde 2008. O país asiático chegou a deter US$ 1,3 trilhão no fim de 2013. Hoje esse volume caiu para praticamente a metade comparado a esse pico, com um montante de US$ 682,6 bilhões.

De modo geral, as participações estrangeiras em títulos do governo dos EUA avançaram no fim do ano passado para o maior nível já registrado, segundo dados do Departamento do Tesouro. Aumentos nas reservas da Noruega, do Canadá e da Arábia Saudita ajudaram a compensar as quedas mensais no total da China.

Há 13 anos, a segunda maior potência do mundo era a maior detentora de Treasuries no mundo. Hoje ocupa a terceira posição, atrás do Japão, com US$ 1,2 trilhão, e do Reino Unido, com reservas de US$ 890 bilhões.

Fonte: Invest News

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