Ao longo dos últimos anos, o Bradesco comprou diferentes negócios na área de saúde, como uma participação relevante no Fleury, acertou parcerias com grupos como a Rede D’Or e tirou hospitais do papel. Seu plano de saúde tem sido um dos que mais cresce em beneficiários no país, e a Odontoprev, sua empresa de plano odontológico, também vive momento de expansão.
Agora o banco decidiu reunir todos esses ativos sob um único guarda-chuva, o que vai dar origem a um dos maiores grupos no mercado privado de saúde, com atuação nacional e força para competir com os maiores do setor, com impacto, portanto, sobre milhões de brasileiros – são mais de 13 milhões de beneficiários na largada e expectativa de crescimento adicional.
Do ponto de vista empresarial, o banco decidiu “destravar valor”, como se diz no jargão do mercado para movimentos que envolvem ativos que operam abaixo do seu valor potencial: vai listar todo o negócio integrado de saúde como uma nova empresa na bolsa de valores brasileira.
A BradSaúde chega ao mercado no que é considerado o maior “IPO reverso” da B3: em vez de listar uma empresa do zero por meio de um IPO (Oferta Pública Inicial, na sigla em inglês), o Bradesco usará a OdontoPrev como veículo para concentrar os ativos de saúde do grupo.
Em entrevista coletiva com a imprensa nesta sexta-feira (27), o presidente do conselho do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, disse que a estrutura permite colocar a nova companhia para ser negociada “em cerca de 60 dias, sem os custos e a duração de um IPO tradicional”.
Negócio de até R$ 50 bilhões
A nova BradSaúde, que passa a reunir na mesma companhia os ativos da Bradesco Saúde e da OdontoPrev, entre outros do banco na área, deve nascer avaliada em algo em torno de R$ 38 bilhões, segundo cálculos de analistas.
Isso que seria equivalente a algo em torno de 10,5x o lucro operacional de 2025 — valuation que o time de analistas do BTG Pactual aponta como “muito atrativo” pela escala e pela rentabilidade do ativo.
Esse valor embute um desconto relevante em relação a pares como a Rede D’Or, que controla a operadora SulAmérica e hoje vale R$ 94 bilhões na bolsa.
A direção executiva do banco, porém, entende que essa fotografia pode mudar rapidamente. Na mesma entrevista, o CEO do Bradesco, Marcelo Noronha, afirmou que o valuation para a nova companhia “deve ser mais para R$ 50 bilhões do que para R$ 40 bilhões ”.
Para efeito de comparação, o Bradesco tem hoje um valor de mercado aproximado de R$ 215 bilhões. As ações subiam perto de 2,50% nesta sexta por volta das 14h20.
A operação mudará a conta para quem hoje é acionista minoritário da OdontoPrev. Investidores que hoje detêm somados perto de 40% da companhia — com valor de mercado na casa de R$ 9 bilhões — passariam a deter 8,65% da BradSaúde.
Noronha defende a troca dizendo que, com a nova estrutura, o investidor deixa de estar exposto a um negócio mais concentrado – em odontologia – e passa a deter participação em uma plataforma maior e diversificada, na área de saúde de forma mais ampla. Nesta sexta, as ações da OdontoPrev saltavam 24% perto do meio-dia.
A estratégia da BradSaúde
O argumento do Bradesco para realizar a reorganização dos ativos também passa por expectativas de ganhos com a execução comercial, ampliando a sua participação de mercado.
O CEO da Bradesco Saúde, Carlos Marinelli, citou produtos que o grupo lançou para ganhar tração em faixas de preço mais competitivas, com redes regionais e desenho mais enxuto. Ele mencionou o plano Regional Goiânia e a linha Efetivo Plus, que começou no Distrito Federal e depois avançou para São Paulo e Porto Alegre, com uma rede “otimizada” e “faixa de preço muito competitiva”.
Marinelli, que será o CEO da nova companhia, diz que essa frente ajudou a Bradesco Saúde a voltar a crescer em número de vidas atendidas e citou uma adição de algo como 140 mil a 150 mil beneficiários nos últimos trimestres, com foco em pequenas e médias empresas (PME).
Do lado da OdontoPrev, há um movimento semelhante. O CEO Elson Carvalho diz que o perfil do negócio mudou nos últimos anos: a carteira empresarial segue grande, mas o público “massificado” ganhou peso, com protagonismo dos planos PME.
Carvalho diz que há um potencial de crescimento ao olhar a diferença entre os dois mercados.
Hoje o Brasil tem cerca de 53 milhões de beneficiários em planos médico-hospitalares e 35 milhões em planos odontológicos — uma diferença de 18 milhões de pessoas que, na visão dele, ainda poderiam contar com o dental junto do plano de saúde. Sob o mesmo guarda-chuva, a companhia deve conseguir trabalhar oferta de produtos e canais de forma mais integrada, segundo os executivos.
A estrutura da BradSaúde inclui a plataforma hospitalar Atlântica, com mais de 3.600 leitos sob contrato, e a participação no Fleury, com mais de 600 unidades e faturamento anual perto de R$ 9 bilhões.
O pacote também traz a Meu Doutor/Novamed, que, segundo a apresentação, atendeu mais de 1,2 milhão de pessoas no último ano, além de braços de tecnologia e dados como a Orizon.
Mercado em efervescência
O pano de fundo do setor de saúde ajuda a explicar a decisão do Bradesco.
O setor de saúde suplementar movimenta mais de R$ 435 bilhões ao ano, em um mercado em que ganhar escala exerce impacto estrutural sobre o negócio. Considerando números atuais, a BradSaúde nasce com R$ 52 bilhões de receita e lucro líquido de R$ 3,6 bilhões.
“Nos últimos anos, o setor de saúde perdeu relevância na bolsa por desafios operacionais de várias companhias, e a transação [anunciada] ‘muda a narrativa’ ao criar uma plataforma grande, capitalizada e diversificada”, segundo o time de analistas do BTG Pactual. A operação também foi classificada como “transformacional” pelos analistas do Safra.
Nos últimos anos, a indústria de saúde tem passado por um movimento de consolidação e reorganização de grandes negócios.
A compra da SulAmérica pela Rede D’Or, em operação concluída em 2022, reordenou o tabuleiro do setor e elevou a pressão competitiva sobre as demais plataformas.
Outros movimentos seguiram o racional de ganho de escala e de captura de sinergias: e a Hapvida se uniu à NotreDame Intermédica na mesma época, em negócio que não conseguiu gerar os ganhos esperados; a Amil, comprada por Júnior Seripieri no fim de 2023, uniu seu negócio de hospitais com o da Dasa em negócio concretizado em meados de 2025 e que deu origem à Rede América.
Na Porto, há rumores recorrentes de mercado sobre uma potencial cisão de sua vertical de saúde, algo visto como uma forma de reduzir o desconto no preço da ação.
Para o Bradesco, o próximo passo é regulatório e societário. A operação anunciada nesta sexta depende de aprovação da ANS (Agência Nacional de Saúde) e de assembleias de acionistas do banco e da OdontoPrev ao longo de março e abril; depois disso, a companhia pretende efetivar a mudança de nome e de ticker na B3 para começar a ser negociada já como BradSaúde.
A BradSaúde nasce com free float – as ações em circulação no mercado – de 8,65%, abaixo do mínimo de 25% exigido pelo segmento do Novo Mercado, em que a Odontoprev está listada.
Sobre uma potencial oferta de ações para a aumentar a liquidez do papel na bolsa, Noronha diz que não há prazo definido e que o banco pretende pedir um prazo (um waiver) à B3, tratando a recomposição do free float como uma decisão para um “momento oportuno” que não agora.
Fonte: Invest News












