Bolsa de crocodilo? Luxo, agora, é o couro de dinossauro T. rex

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No mundo da moda de luxo, a pele de crocodilo é considerada a mais valiosa, com bolsas Birkin custando entre US$ 45 mil e US$ 150 mil.

Recentemente, uma nova bolsa feita de um couro inspirado no T. rex, criado em laboratório, foi anunciada, com lance inicial de US$ 500 mil.

O material foi desenvolvido a partir de fragmentos de colágeno de fósseis, analisados e reconstruídos por bioinformática.

O couro é cruelty-free, evitando o uso de animais e consumindo menos recursos naturais que o couro bovino. A indústria de biomateriais, incluindo alternativas veganas, está em crescimento, avaliada em US$ 80,39 bilhões em 2024.

Embora existam inovações como couro de abacaxi e de uva, a singularidade e a narrativa de peças associadas ao T. rex podem ter um apelo cultural que supera a técnica.

Mas, a Birkin original, leiloada por US$ 10 milhões, permanece um ícone inigualável no luxo.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

No universo da moda de altíssimo luxo não existe pele mais preciosa e mais exclusiva do que a de crocodilo. É nesse território que marcas como Hermès constroem algumas das bolsas mais desejadas (raras e caras) do planeta.

Uma Birkin em Crocodylus niloticus ou em Crocodylus porosus, por exemplo, pode custar de US$ 45 mil a US$ 150 mil. E esses valores escalam ainda mais, dependendo de seus detalhes  — da cor à simetria das escamas, dos acabamentos às ferragens. Pois bem, quando parecia não haver mais nenhum degrau a subir, surge uma nova fronteira, quase provocativa: uma bolsa de “couro” de Tiranossauro rex.

Graças aos avanços da engenharia de tecidos e da biotecnologia, foi recriado em laboratório um tecido inspirado em uma matéria-prima extinta há cerca de 68 milhões de anos. Em exposição no museu Art Zoo, em Amsterdã, a peça vai a leilão em meados de maio. O lance inicial? US$ 500 mil — sim, R$ 2,5 milhões!

Na prática, não se trata de “reviver” um dinossauro como no filme de Steven Spielberg de 1993, Jurassic Park.

Os cientistas partiram de fragmentos de colágeno encontrados no fóssil de um T. rex descoberto em Montana, nos Estados Unidos, no início dos anos 2000. Esses vestígios não formam um código genético completo, mas servem como pistas químicas iniciais.

A partir daí, as amostras foram analisadas em laboratório e comparadas com proteínas de animais vivos, como aves — galinhas, avestruzes e perus são os parentes mais próximos do T. rex.

Com base nessas comparações, algoritmos de bioinformática e inteligência artificial reconstruíram uma versão da proteína ancestral, preenchendo lacunas com modelos estatísticos e inferências baseadas em relações evolutivas.

O resultado não é, portanto, uma sequência “descoberta”, derivada diretamente de material biológico intacto, mas uma sequência “estimada”, obtida por reconstrução computacional a partir de evidências incompletas.

Em seguida, a informação genética sintetizada em laboratório foi inserida em células vivas — espécies de pequenas fábricas biológicas.

Cultivadas em biorreatores, em um ambiente altamente controlado, elas passaram a produzir colágeno. As proteínas então se organizaram espontaneamente em fibras, formando uma rede tridimensional semelhante à estrutura de um couro natural.

Ou seja, o dinossauro conhecido como o “rei dos lagartos tiranos” é muito mais uma inspiração conceitual do que uma fonte biológica de fato.

No estilo clutch, a nova bolsa é fruto da parceria entre quatro empresas. À holandesa The Organoid Company coube reconstruir e simular as sequências biológicas associadas às proteínas antigas, criando a fundação molecular necessária para o desenvolvimento do material.

A britânica Lab-Grown Leather cultivou o couro em seus biorreatores, transformando as fibras em uma estrutura física com propriedades reais de resistência, textura e flexibilidade.

O couro pronto então foi entregue à techwear alemã Enfin Levé, onde seu fundador, o designer polonês Michal Hadas, desenhou e materializou a peça. Na coordenação de toda a narrativa, está a agência criativa global VML, subsidiária do grupo inglês WPP plc, uma das maiores holdings de comunicação do mundo.

Cruelty-free

Além de sua aura de raridade, outro forte apelo do couro de T. rex é sua sustentabilidade. Cruelty-free, o material dispensa o uso de animais para sua fabricação e utiliza uma quantidade menor de recursos naturais em comparação ao couro bovino.

Para se ter ideia, uma bolsa pequena requer de 5 mil a 20 mil litros de água, considerando desde a criação dos animais à produção do material.

O modelo da clutch é uma criação do designer polonês Machal Hadas, fundador da techwear Enfin Levé (Foto: vml.com)

A bolsa fica em exposição no museu Art Zoo, em Amsterdã, até meados de maio, quando vai para leilão (Foto: vml.com)

Há de se considerar ainda os produtos usados para transformar a pele em couro. Os resíduos dos curtumes contêm grandes quantidades de poluentes. “O processo de curtimento estabiliza as fibras de colágeno ou de outra proteína nas peles, impedindo sua degradação — caso contrário, o couro apodreceria no seu armário”, lê-se em relatório da Peta, ONG de defesa do bem-estar animal.

Resultado de uma evolução tecnológica e cultural ao longo do século 20 e início do século 21, as primeiras alternativas ao couro tradicional apareceram entre as décadas de 1920 e 1960. Impulsionadas pela indústria química, foram desenvolvidos compostos sintéticos como o PVC e o poliuretano — voltados sobretudo à redução de custos e à produção em larga escala.

A partir dos anos 1990, no entanto, com o avanço dos movimentos de proteção da natureza e de consumo ético, a procura por novos materiais passou a ser também ideológica.

No rastro da crescente preocupação ambiental e do aperfeiçoamento da biotecnologia, surgiram biomateriais inovadores à base de plantas, fungos e resíduos orgânicos, marcando o nascimento de uma indústria em franca expansão — a do couro vegano.

Um dos grandes campos de inovação da indústria têxtil contemporânea, o setor foi avaliado em US$ 80,39 bilhões em 2024. Até 2035, deve movimentar US$ 219,2 bilhões — evoluindo a uma impressionante taxa de crescimento anual composta de 9,55%, nas contas da consultoria Vantage Market Research.

Atualmente há “couro” de abacaxi, bambu, milho, maçã, cevada… em 2023, a estilista inglesa Stella McCartney e a maison Veuve Clicquot, do conglomerado de luxo LVMH, apresentaram uma coleção de bolsas e sandálias à base de restos de uvas usadas para a fabricação de champagne.

Mas será que uma clutch de casca de banana é capaz de rivalizar com o apelo simbólico de uma peça associada ao imaginário de um T. rex? No universo do luxo, em que narrativa e escassez muitas vezes valem tanto quanto o próprio material, a resposta parece mais cultural — e menos técnica.

Difícil será superar a primeira Birkin, a que se tornaria símbolo máximo do luxo, uma espécie de lenda no universo da alta moda. Em julho de 2025, o protótipo original da bolsa criada pela Hermès para a atriz e cantora inglesa Jane Birkin, nos anos 1980, foi leiloado em Paris por US$ 10 milhões.

Não há charme jurássico que supere a singularidade irreproduzível das marcas deixadas por Jane naquele prosaico couro bovino.

Fonte: Neo Feed

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