PA primeira viagem internacional de Leão XIV, da Turquia ao Líbano, revelou a intenção do pontífice de colocar a história e o simbolismo cristãos no centro do seu papado e de situar cada uma das suas posições éticas num quadro jurídico claro. A sua diplomacia destacou-se pela subtileza narrativa e pela referência constante ao direito, que utilizou como fundamento universal em ambientes politicamente frágeis.
Ao chegar a Ancara, visitou o mausoléu de Atatürk, uma forma de lembrar aos observadores que a Turquia moderna é construída sobre uma arquitectura jurídica secular que está actualmente a ser reinterpretada e influenciada por aqueles que estão no poder. Este gesto altamente simbólico precedeu um discurso em que enfatizou a liberdade “fundamental” e a “dignidade de todos” – noções que, no seu uso, estão sempre enraizadas num registo específico: o do direito internacional e dos direitos humanos. Ele frequentemente os invocava sem nomear os textos específicos, mas adotando sua linguagem. Por exemplo, o seu apelo ao reconhecimento da pluralidade de identidades religiosas na Turquia referiu-se explicitamente aos compromissos internacionais do país com a liberdade religiosa.
Em Istambul, o seu encontro com o Patriarca Ortodoxo Bartolomeu ampliou esta abordagem. Ao afirmar que os cristãos fazem inteiramente parte da identidade turca, fez mais do que defender um facto histórico: lembrou indirectamente o Estado das suas obrigações de proteger as minorias de acordo com a legislação nacional e as convenções internacionais ratificadas por Ancara. Desta forma, a sua diplomacia não se limitou ao simbolismo: propôs um quadro jurídico que se espera que a Turquia defenda, apesar de o papa ter evitado cuidadosamente qualquer confronto directo.
O gesto mais comentado continuou sendo a sua decisão de não rezar na Mesquita Azul. Ao visitar o monumento sem realizar um ato litúrgico, Leão XIV traçou uma clara fronteira inter-religiosa: o respeito mútuo não implica a mistura de ritos. Mais uma vez, baseou-se num princípio jurídico – a liberdade de consciência e o respeito pelas práticas de cada religião, que é a própria base do diálogo inter-religioso.
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Fonte: Le Monde












