Em meio a uma crise financeira e de governança, a Oncoclínicas, maior rede privada de tratamento de câncer do país, busca encolher para sobreviver. A companhia se movimenta para vender seus hospitais — mais complexos e caros de manter — e volta a focar nas clínicas oncológicas, base do negócio.
“A prioridade da companhia neste momento é manter o atendimento ambulatorial aos pacientes”, disse Carlos Gil, CEO da Oncoclínicas, durante a teleconferência de resultados nesta sexta-feira (10).
A companhia já concluiu a venda do Hospital de Uberlândia (UMC) e está em fase final da negociação para se desfazer do Hospital Vila da Serra, em Belo Horizonte (MG). No Rio de Janeiro, chegou a negociar a venda do Hospital Marcos Moraes, mas não avançou e agora reavalia o ativo.
Enquanto isso, a empresa também interrompeu sua agenda de expansão. Cancelou dois projetos de novos centros de tratamento de câncer em São Paulo e Belo Horizonte, e agora busca alternativas para um terceiro, em Goiânia, que já está mais avançado.
Na noite da quinta-feira (9), a Oncoclínicas divulgou um prejuízo de R$ 1,38 bilhão em 2025, contra lucro de R$ 106,3 milhões em 2024.
O resultado foi afetado por duas perdas grandes: R$ 864,9 milhões que deixou de receber da Unimed do Rio de Janeiro, depois que a operadora deixou de honrar pagamentos. E R$ 430,9 milhões tinha aplicado em CDBs do Banco Master — e que ficaram bloqueados após a liquidação da instituição pelo Banco Central.
A dívida líquida encerrou o ano em R$ 2,9 bilhões, com alavancagem de 3,5 vezes o lucro operacional ajustado.
Pelos critérios dos contratos com credores (covenants), a situação era ainda mais apertada: a companhia fechou 2025 com alavancagem de 4,3 vezes, acima do limite previsto. Com isso, precisou negociar com credores uma flexibilização dessas regras para evitar o descumprimento das cláusulas.
Nesta semana, a própria Oncoclínicas reconheceu que avalia recorrer à Justiça para obter uma proteção temporária contra as cobranças dos credores.
Em relatório, o BTG avaliou que “embora existam discussões e iniciativas em andamento para endereçar a situação financeira, a visibilidade ainda é limitada tanto sobre a recuperação quanto sobre possíveis soluções”.
Crise de liquidez
A percepção do mercado sobre a crise financeira da Oncoclínicas piorou nos últimos dias. A agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota da empresa para RD(bra) – sigla em inglês para restricted default, a penúltima categoria na escala antes do calote.
Na prática, a classificação indica que a companhia já deixou de cumprir parte de suas obrigações financeiras, ainda que não tenha parado todos os pagamentos.
No relatório, a Fitch avalia que a liquidez da Oncoclínicas é insuficiente para honrar a dívida.
No início desta semana, o Valor Econômico noticiou que a companhia tinha caixa suficiente para apenas mais alguns dias de operação.
Menos médicos
Em fevereiro, o InvestNews noticiou que, com o avanço da crise, a Oncoclínicas já começava a perder médicos. Ao mesmo tempo, fornecedores e potenciais parceiros passaram a adotar uma postura mais cautelosa diante do perfil de crédito da companhia.
Em um relatório de setembro de 2025, o BTG Pactual avaliava que um dos maiores diferenciais da companhia era seu corpo clínico, já que ela empregava 18% de todos os oncologistas do Brasil.
Mas, segundo o banco, as dificuldades financeiras da empresa estavam levando médicos a buscar oportunidades em concorrentes. Pessoas ouvidas pelo InvestNews confirmaram essa movimentação.
Também pesava a falta de clareza sobre a exposição da Oncoclínicas ao Banco Master — a instituição de Daniel Vorcaro chegou a deter 15% da companhia.
Crise de governança
Em 7 de abril, Marcelo Gasparino renunciou à presidência do conselho de administração da Oncoclínicas. O colegiado havia sido eleito por voto múltiplo — um modelo em que os acionistas votam em todos os conselheiros de uma só vez, formando uma chapa única. Por isso, a saída de Gasparino levou à destituição de todo o conselho.
A companhia convocou uma nova eleição para 30 de abril.
Antes disso, em meados de março, Camille Loyo Faria deixou os cargos de vice-presidente executiva, diretora financeira e diretora de relações com investidores, depois de pouco mais de um mês na empresa.
Faria foi uma figura central na reestruturação da Americanas e também atuou na primeira recuperação judicial da Oi. Para fontes ouvidas pelo InvestNews, ela era vista como uma esperança para estabilizar a situação da Oncoclínicas.
Fonte: Invest News











