Seguro sucede Marcelo Rebelo de Souza; ex-presidente foi a pé ao Parlamento e parou em mercearia para comprar um DVD antes da cerimônia
António José Seguro tomou posse como presidente de Portugal nesta 2ª feira (9.mar.2026), em cerimônia no Parlamento marcada por referências ao período de transição entre governos e por elogios ao antecessor, Marcelo Rebelo de Sousa. No discurso inaugural, Seguro disse estar “eternamente agradecido pela confiança” recebida nas urnas e prometeu atuar como “Presidente de Portugal inteiro”.
A posse é realizada pouco mais de um mês depois da eleição realizada em 8 de fevereiro, quando Seguro, apoiado pelo PS (Partido Socialista, centro-esquerda), venceu no 2º turno o líder do Chega, André Ventura (direita). O resultado marcou o retorno de um candidato apoiado pela esquerda à Presidência portuguesa depois de 20 anos, quando Jorge Sampaio deixou a Presidência, sendo substituído por Aníbal Cavaco Silva.
Defesa das instituições democráticas
Logo no início do discurso, o novo chefe de Estado agradeceu aos eleitores e defendeu a preservação das instituições democráticas. “Fico eternamente agradecido pela confiança que depositaram em mim”, disse. Em outro trecho, fez um alerta sobre os riscos às democracias contemporâneas. “A história recente revela que em muito pouco tempo se destrói o que foi construído em séculos”, declarou.
Segundo ele, muitos acreditaram na “solidez das instituições” e na “resistência de valores”, mas esse entendimento pode ser um engano. “Em um instante esses pilares estão a ser desmoronados. Portugal não está imune a risco igual, perturbador do sistema democrático”, afirmou, ao acrescentar que não permitirá que sejam ultrapassadas “linhas vermelhas”.
A manhã da posse também foi marcada por momentos de despedida de Marcelo Rebelo de Sousa. O ex-presidente deixou o Palácio de Belém, residência oficial, e seguiu a pé e sozinho até o Parlamento. No caminho, fez uma parada em uma pequena mercearia, onde comprou um DVD com notícias, em episódio que chamou a atenção de quem acompanhava a movimentação nas ruas de Lisboa.
Na chegada ao Parlamento, Marcelo comentou a eleição do sucessor. Disse que Seguro “vai ser um grande Presidente, grande, grande, e deve contar com o apoio de todos os portugueses”.
A cerimônia de posse
Cerca de 600 convidados participaram da cerimônia. Entre eles estavam 6 chefes de Estado: o rei da Espanha, Felipe 6º, e presidentes de países de língua portuguesa —João Lourenço (Angola), José Maria Neves (Cabo Verde), Daniel Chapo (Moçambique), Carlos Vila Nova (São Tomé e Príncipe) e José Ramos-Horta (Timor-Leste). O ex-presidente Aníbal Cavaco Silva foi o único antigo ocupante do cargo presente.
No plenário, Marcelo sentou-se ao lado do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, e de Seguro. Nas galerias estavam alguns dos candidatos que disputaram a eleição presidencial, como Henrique Gouveia e Melo (independente), António Filipe (PCP, esquerda) e Humberto Correia (independente). Na meia-lua do hemiciclo, destinada às altas autoridades, André Ventura ocupou o lugar reservado ao líder da oposição, em vez de permanecer na bancada do Chega.
Após a leitura da ata que confirmou a apuração das eleições, Seguro fez o juramento com a mão direita sobre a Constituição. “Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa”. O plenário reagiu com aplausos de pé.
Em seguida, Marcelo e o novo presidente trocaram um abraço e algumas palavras antes de se levantarem para trocar de lugares, formalizando a transmissão do cargo.
Durante a sessão, Aguiar-Branco destacou o estilo do presidente que deixava o cargo, mencionando a “proximidade irrepetível” de Marcelo com os portugueses —marcada pelas selfies com cidadãos, vistas por alguns como caricatura, mas que, segundo ele, refletiam a forma como o ex-chefe de Estado se relacionava com a sociedade.
Em outro trecho do discurso, Seguro dirigiu-se diretamente ao antecessor para agradecer pelo período no cargo. Disse que “ninguém pode negar o amor a Portugal” demonstrado por Marcelo e afirmou que o país “sentiu sempre a sua presença”. O novo presidente anunciou que ainda nesta 2ª feira condecorará Rebelo de Sousa com o grau mais alto da Ordem da Liberdade.
Fonte: Poder 360












