EUran voltou mais uma vez ao primeiro plano das notícias internacionais. Durante mais de duas semanas, os protestos abalaram o país, apesar do uso de violência extrema por parte do regime para os reprimir. As manifestações começaram com comerciantes no Grande Bazar de Teerão a protestar contra o colapso da moeda nacional, mas rapidamente assumiram uma dimensão política e tornaram-se um desafio aberto ao regime.
Esta onda de protestos está a desenrolar-se num contexto de múltiplas crises que minaram profundamente a República Islâmica. Em primeiro lugar, há uma crise económica, marcada pelo colapso da classe média e pela pobreza crescente entre as classes trabalhadoras, enquanto uma oligarquia próxima daqueles que estão no poder continua a prosperar com base na corrupção e na renda económica. Depois, há uma crise política e social, realçada pela crescente ruptura entre uma juventude largamente secularizada – que procura liberdade e igualdade – e um regime autoritário, fundamentalista e reaccionário. A isto acrescenta-se uma grande crise ecológica – o resultado de décadas de má gestão de recursos – e uma crise geopolítica e militar, agravada pela mudança no equilíbrio de poder regional desde os ataques terroristas de 7 de Outubro e a “guerra de 12 dias” contra Israel.
Neste contexto explosivo, o surgimento de mais uma onda de protestos contra o regime não constitui uma surpresa. Nos últimos 20 anos, o Irão assistiu a repetidos movimentos de protesto, com frequência e intensidade crescentes. Do exterior, a repressão sistemática destes movimentos pode dar a impressão de fracassos repetidos, sem efeitos duradouros no terreno. No entanto, esta leitura é excessivamente simplista. Tal como exemplificado pelo movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, cada ciclo de protesto deixou marcas profundas na sociedade iraniana e enfraqueceu inegavelmente o regime. Nos seus discursos, o Aiatolá Khamenei compara a República Islâmica a uma árvore robusta e profundamente enraizada. E, no entanto, aquela árvore foi tão escavada por dentro que agora seria necessário muito pouco para cair.
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Fonte: Le Monde













