Deixar o tipo errado de rastro digital pode prejudicar sua carreira. Talvez você já soubesse disso, mas a inteligência artificial está tornando mais fácil rastrear seu histórico na internet — e até mesmo tentativas de esconder o passado online podem acabar se voltando contra você.
Empregadores que antes faziam buscas superficiais na internet em busca de sinais de alerta sobre candidatos agora usam IA para investigar mais a fundo e com maior rapidez. Ao mesmo tempo, plataformas de conteúdo adulto como OnlyFans e mercados de apostas em previsões ganham popularidade, levando muitas pessoas a deixar, sem perceber, rastros potencialmente comprometedores na rede.
As empresas também estão cada vez mais focadas no perfil comportamental dos funcionários em um mercado de trabalho no qual podem escolher entre muitos candidatos qualificados. Já falei sobre o uso de referências informais e testes de personalidade. Vasculhar históricos digitais é mais uma peça na tentativa das empresas de identificar quem se encaixa — ou não — em sua cultura organizacional.
Eventos recentes mostram como atividades online, mesmo de um passado distante, podem voltar para assombrar alguém.
Antes que uma acusação de estupro encerrasse sua campanha ao Senado dos EUA pelo estado do Maine na semana passada, Graham Platner já havia sofrido danos à reputação após a divulgação de publicações racistas, sexistas e homofóbicas no Reddit; de um vídeo que revelava uma tatuagem associada ao nazismo em seu peito; e de mensagens sexualmente explícitas enviadas a outras mulheres, apesar de ser casado.
Já Darializa Avila Chevalier, candidata ao Congresso apoiada pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, precisou responder por tuítes apagados nos quais dizia usar a bandeira americana como guardanapo e defendia o fim da polícia, das prisões e das fronteiras.
Candidatar-se à maioria dos empregos ainda é menos invasivo do que disputar um cargo público, mas essa diferença está diminuindo. Todo mês surgem novas manchetes sobre professores, enfermeiros, policiais e outros profissionais demitidos por publicar imagens consideradas inadequadas na internet.
O que as empresas estão investigando
Quão detalhadas são hoje as verificações de antecedentes digitais? A resposta varia conforme a empresa e o cargo, mas elas podem incluir o cruzamento de informações de dezenas de plataformas.
Tradicionalmente, as empresas reservavam investigações online mais profundas para cargos de alto escalão, devido ao risco de constrangimentos públicos. Agora, algumas fazem esse tipo de análise para qualquer função com contato direto com clientes, afirma Darrin Lipscomb, CEO da Ferretly, empresa de triagem cujos clientes incluem Deloitte, Ally Financial e BBDO.
Isso ocorre em parte porque essas verificações ficaram mais baratas e simples com a IA. Além disso, as pessoas costumam pesquisar umas às outras antes de um primeiro encontro ou contato, e as empresas não querem que clientes descubram algo constrangedor sobre seus funcionários.
A boa notícia é que encontrar algo questionável não significa necessariamente que você perderá uma vaga. Em alguns casos, a empresa pode apenas pedir que determinadas fotos ou conteúdos sejam removidos.
Embora serviços como a Ferretly, que seguem as regras da legislação americana de proteção ao consumidor, limitem suas buscas a conteúdos públicos, o que parece privado nem sempre é tão privado assim.
Por exemplo, uma pessoa pode ter uma conta no OnlyFans usando um pseudônimo e manter fotos e vídeos explícitos atrás de um paywall. Mas, se um software de reconhecimento facial conseguir relacionar a foto de perfil dessa conta a outra imagem disponível na internet, a Ferretly pode sinalizar essa informação.
Algo semelhante ocorre com usuários de mercados de apostas em previsões. Eles podem apostar anonimamente, mas acabam se identificando involuntariamente ao reutilizar nomes de usuário de redes sociais ou carteiras de criptomoedas vinculadas às suas identidades.
Em geral, a Ferretly informa empregadores quando tem ao menos 70% de confiança sobre quem é responsável por determinado conteúdo online. Cabe à empresa decidir o que fazer com essa informação. Algumas contratam o serviço para monitoramento contínuo de funcionários, e não apenas durante o recrutamento.
“Depois do ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, várias empresas nos procuraram querendo saber: ‘Temos apoiadores do Hamas ou pessoas antissemitas entre nossos funcionários?’”, afirma Lipscomb.
Como proteger sua imagem online
A estratégia mais segura é agir com responsabilidade. A segunda mais segura é evitar publicar conteúdo inadequado na internet.
Profissionais mais jovens geralmente entendem isso, pois cresceram sabendo que a internet guarda tudo. Os casos mais preocupantes costumam envolver trabalhadores de meia-idade que compartilhavam excessivamente informações nos primeiros anos das redes sociais, quando ainda não estava claro que esse conteúdo permaneceria acessível por muito tempo.
Isso inclui pessoas na faixa dos 40 anos que publicavam livremente no Facebook quando a plataforma era restrita a estudantes universitários, ou usuários que acreditavam que mensagens do Snapchat desapareceriam para sempre após alguns segundos.
Isso não significa que nada possa ser feito para lidar com conteúdos antigos.
O primeiro passo é avaliar seu risco, diz Paul Wilson, CEO da NetReputation. A empresa ajuda executivos, empresas e indivíduos a reduzir ou diluir informações negativas sobre eles na internet.
Você tem uma página esquecida no MySpace? Lembra o que publicou nela? Pesquise seu próprio nome no Google e peça a ferramentas de IA para procurarem informações sobre você. Veja o que aparece e se existe algo problemático.
Também é possível reforçar sua presença digital positiva criando um site pessoal ou publicando conteúdo em plataformas como o Substack.
Alterar configurações de privacidade e apagar publicações ou contas antigas não garante invisibilidade, mas pode dificultar que conteúdos desfavoráveis sejam encontrados.
Só não tente apagar completamente sua história digital.
A RefAssured, empresa que ajuda organizações a verificar habilidades e identidades de candidatos, está desenvolvendo uma ferramenta capaz de identificar pessoas com presença digital suspeitamente rasa.
“O problema surge quando fica muito claro que você tinha presença online e agora não tem mais”, diz Vinda Souza, diretora de marketing da RefAssured. “Para um gestor de contratação, isso gera questionamentos.”
Você não quer parecer alguém com algo a esconder — ou pior, um robô. Uma presença online excessivamente limitada ou contas em redes sociais aparentemente recém-criadas podem disparar alertas de fraude em processos seletivos.
Além disso, se sua persona digital parecer perfeita demais, você pode até ser descartado por parecer pouco autêntico.
Escreva para Callum Borchers em callum.borchers@wsj.com.
Traduzido do inglês por InvestNews
Fonte: Invest News












