A exasperante inconsistência de Trump sobre a guerra na Ucrânia

DDonald Trump disse repetidamente que quer ver o fim da guerra que a Rússia impôs à Ucrânia. Como alguém poderia discordar de tal objetivo? Para o conseguir, porém, o presidente dos Estados Unidos deve finalmente romper com as suas cambalhotas e adoptar uma posição clara. A semana passada ofereceu mais uma ilustração de sua indecisão. Depois de finalmente reconhecer o vazio da cimeira de Anchorage realizada em Agosto no Alasca – onde multiplicou gestos de deferência para com o líder do Kremlin sem obter nada em troca – Trump ameaçou na segunda-feira, 13 de Outubro, fornecer mísseis de cruzeiro Tomahawk a Kiev se Vladimir Putin não acabasse com a sua agressão.

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O presidente dos EUA parecia determinado a criar um equilíbrio de poder com um líder que entende apenas essa língua. Mas esta demonstração de força não sobreviveu a um longo telefonema com o seu homólogo russo em 16 de Outubro, durante o qual este último recuperou claramente a vantagem. Putin acenou nomeadamente com a perspectiva de outra reunião, desta vez na Hungria, onde sabe que pode contar com o apoio do primeiro-ministro Viktor Orban.

Ao receber o presidente ucraniano na Casa Branca no dia seguinte, Trump voltou atrás na questão do fornecimento de mísseis de cruzeiro, citando os arsenais insuficientes dos EUA e o desejo de evitar a “escalada”. Putin não demonstrou tal hesitação nas semanas que se seguiram à cimeira de Anchorage, desencadeando bombardeamentos sem precedentes sobre cidades e infra-estruturas civis da Ucrânia.

Ao declarar então na sua plataforma de redes sociais que “é hora de parar a matança e fazer um ACORDO”, Trump – que propôs pôr fim às hostilidades ao longo das actuais linhas da frente – tentou mais uma vez posicionar-se equidistante entre os dois beligerantes, colocando o agressor e a vítima no mesmo nível. As consequências desta posição são claras há mais de oito meses: uma paralisia que a Rússia tem explorado continuamente. Recebido na Casa Branca numa atmosfera menos hostil do que durante a sua visita em Fevereiro, Volodymyr Zelensky lembrou a todos uma verdade simples: “Queremos a paz. Putin não a quer. É por isso que precisamos de pressioná-lo”.

Trump continuou a resistir a exercer essa pressão. Sua reviravolta nos mísseis Tomahawk é um exemplo. No entanto, estas armas estão entre as ferramentas que faltam para os militares ucranianos, que realizaram feitos notáveis ​​desde a invasão russa de 2022, face a um inimigo muito mais poderoso. Mesmo deixando de lado a sua potencial utilização para atacar locais de produção de drones de onde se originam os ataques à Ucrânia, entregá-los a Kiev enviaria uma mensagem inequívoca do compromisso dos EUA para com Kiev.

A isto somam-se as ameaças de sanções que passaram despercebidas – medidas que Trump tem repetidamente brandido desde que regressou à Casa Branca, sem nunca ter levado a cabo. Durante a tensa reunião de fevereiro no Salão Oval, Trump advertiu o seu homólogo ucraniano, dizendo, entre outras coisas, que não “tinha as cartas na mão”. A maneira como ele joga, entretanto, permanece exasperante.

O mundo

Tradução de artigo original publicado em francês em Lemonde.fr; o editor só pode estar vinculado à versão francesa.

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Fonte: Le Monde

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