A despedida a Robert Duvall

A mudança foi, claro, na percepção para os executivos dos estúdios de sua viabilidade no cinema. Embora não esmorecesse ante colegas mais festejados como Brando ou Pacino, Duvall construiu sua carreira ancorado por seu imenso talento e profissionalismo. Embora ele nunca tenha ocupado posição de galã como o colega James Cann, ou tenha cultivado seu nome como marca a exemplo de Robert De Niro, ele foi consistente em uma carreira que se expandiu, na frente e atrás das câmeras, por décadas.

Até seu trabalho derradeiro, o drama “O Pálido Olho Azul”, de 2022, Robert Duvall era o ator completo, porque se permitia mergulhar em personagens diferentes sem nunca perder sua própria personalidade estoica e rude em cada papel. Foi assim em “A Quadrilha”, adaptação do romance policial cáustico de Richard Stark. Ou no profético “Rede de Intrigas”, em que ele fez o executivo de uma emissora de TV que troca moral por audiência. E ainda em sua reunião com Coppola em “Apocalypse Now”, em que ele diz adorar o cheiro de napalm pela manhã em um dos momentos mais emblemáticos da história do cinema.

Quando o Oscar de melhor ator veio por “A Força do Carinho”, de 1983, Robert Duvall consolidou a admiração de seus pares, mesmo que no cinema ele seguisse como coadjuvante de primeira linha, elevando o trabalho de colegas como Robert Redford (“Um Homem Fora de Série”), Sean Penn (“Colors – As Cores da Violência”) e Tom Cruise (“Dias de Trovão”). Mesmo sem estar no topo do cartaz, sua humanidade ajudou a ancorar filmes como “Um Dia de Fúria” (com Michael Douglas) e “O Jornal” (com Michael Keaton).

Sem disposição para repousar sobre seus próprios louros, Duvall retornou à cadeira de diretor no febril “O Apóstolo”, de 1997, o qual também produziu, escreveu e protagonizou. O filme, um projeto pessoal do ator sobre um pastor obrigado a se reinventar após uma tragédia, lhe rendeu sua quinta indicação ao Oscar (foram sete no total) em um papel complexo que tirava sua força, no púlpito e na dor, do silêncio entre as palavras.

Duvall sempre apostou no ecletismo. Ele não virou as costas para candidatos a blockbuster que o procuravam em busca de prestígio (e tome “Impacto Profundo”, “60 Segundos”, “O 6° Dia”), e não hesitava ao fazer filmes merecedores de sua presença cênica poderosa (“Pacto de Justiça”, “Obrigado Por Fumar”, “Os Donos da Noite”). Uma única cena em “A Estrada”, de 2009, bastou para gelar nossa espinha. “Coração Louco” e “Jack Reacher” são exemplos de sua versatilidade. Robert Downey Jr. o escolheu a dedo para o drama “O Juiz”, de 2014, que lhe rendeu sua derradeira indicação ao Oscar.

Sua morte, aos 95 anos, causou comoção entre seus pares na indústria. “Foi uma honra ter trabalhado com ele”, disse Al Pacino. “Ele me deu o privilégio de ser seu amigo”, ponderou Walton Goggins. “A grandeza nunca morre, ela perdura, como um dom. Seu nome será lembrado”, escreveu Viola Davis. Adam Sandler, que dividiu com ele a tela em “Arremessando Alto”, no ano em que Duvall encerrou sua carreira, foi assertivo: “Um grande homem para conversar e para rir. Tantos filmes fabulosos para escolher. Assista-os quando puder”.

Fonte: UOL

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